

A Cidade Sitiada
Clarice Lispector

Editora Sabi
Terceira Edio
Capa: Eugnio Hirsh
Digitalizado por SusanaCap
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     ESTE romance, o terceiro que Clarice Lispector escreveu, foi publicado em 1949, trs anos depois de O Lustre e cinco anos depois de Perto do Corao Selvagem.
     Ao assinalar a apario deste belo romance, Alceu Amoroso Lima comentou, com perfeita justeza:
     "Ningum escreve como ela. Ela no escreve como ningum. S seu estilo mereceria um ensaio especial.  uma clave verbal diferente,  qual o leitor custa a adaptar-se.  preciso ler muito devagar as primeiras pginas, para entrar nesse plano estilstico singular, cheio de mistrio e de sugesto. Uma vez nele, cremos que o leitor sentir o mesmo encanto sombrio que sentimos. E que coloca Clarice Lispector numa trgica solido em nossas letras modernas".
***
Sumrio
O MORRO DO PASTO
O CIDADO
A CAADA
A ESTTUA PBLICA
NO JARDIM
ESBOO DA CIDADE
A ALIANA COM O FORASTEIRO
A TRAIO
O TESOURO EXPOSTO
O MILHO NO CAMPO
OS PRIMEIROS DESERTORES
FIM DA CONSTRUO: O VIADUTO
***
     No Cu aprender  ver;
     Na Terra,  lembrar-se.
     Pndaro
     

CAPTULO PRIMEIRO
O MORRO DO PASTO
     
     - ONZE HORAS, disse Felipe.
     Mal acabara de falar o relgio da igreja bateu a primeira badalada, dourada, solene. O povo pareceu ouvir um momento o espao... o estandarte na mo de um anjo imobilizou-se estremecendo. Mas de sbito o fogo de artifcio subiu e espocou entre as badaladas. A multido, tocada do sono rpido em que sucumbira, moveu-se bruscamente e de novo rebentaram gritos no carrossel.
     Sobre as cabeas as lanternas se embaciavam tremulando a viso; os bazares se entortavam a gotejar. Quando Felipe e Lucrcia alcanaram a roda-gigante o sino sacudiu-se acima da noite enchendo de emoo a festa religiosa - o movimento da multido tornou-se mais ansiado e mais livre. A populao acorrera para celebrar o subrbio e seu santo, e no escuro o ptio da igreja resplandecia. Misturando-se  plvora queimada a groselha erguia os rostos em nusea e ofuscamento. As caras ora apareciam, ora desapareciam. Lucrcia achou-se to perto de uma face que esta lhe riu. Era difcil perceber que ria para algum perdido na sombra. Tambm a moa fingiu falar com Felipe, olhando porm um desconhecido nos olhos que a claridade de um poste enchia: que noite! disse ela para o estranho, e as duas caras hesitaram: o carrossel iluminava o ar em giros, as luzes caam trmulas... Se houvesse alguma coisa extraordinria a suceder enfim no subrbio, esta viria irromper no mbito da retreta, onde crianas perdiam-se das mes e gritar seria mais um grito: o largo da igreja estava frgil. E crepitava com as castanhas na fogueira. Sonolentas, obstinadas, as pessoas se empurravam com os cotovelos at fazerem parte do crculo silencioso que se formara em torno das chamas.
     Uma vez junto do fogo, paravam e espiavam avermelhadas.
     As flamas apuravam os gestos, as enormes cabeas se mexiam mecnicas, suaves. Alguns componentes da procisso da tarde, ainda com as roupas sedosas e justas, misturavam-se aos espectadores. Coroada de papelo uma menina insone sacudia os cachos - era sbado de noite. Sob o chapu o rosto mal iluminado de Lucrcia ora se tornava delicado, ora monstruoso. Ela espiava. A cara tinha uma ateno doce, sem malcia, os olhos escuros espiando as mutaes do fogo, o chapu com a flor.
     De novo arrastada por Felipe, ambos agora seguiam uma direo desconhecida atravs do povo, empurrando, tateando. Lucrcia sorria com satisfao. Seu rosto queria avanar mas o corpo mal pde mover-se porque a festa repentinamente se comprimira, perpassada por uma contrao inicial longnqua. Tentou ao menos liberar uma das mos e endireitar o chapu que deslocado at um olho dava  cara alegre uma expresso de desastre. Mas Felipe a segurava pelo cotovelo protegendo-a e rindo...
     O tenente levantava a cabea acima das outras e ria para o cu.
     A moa suportava mal esse riso livre que era um modo do forasteiro desprezar a pobre festividade da S. Geraldo. Embora ela prpria no conseguisse cair plenamente no centro do regozijo que ora parecia estalar no silncio do fogo, ora esfuziar-se dos giros dos cavalinhos - embora procurasse com o rosto o lugar de onde jorrava o prazer. Onde estaria o centro de um subrbio? Felipe usava o uniforme. Sob o pretexto de se apoiar, a moa passava os dedos pelos grossos botes, cega, atenta. De sbito acharam-se fora da festa.
     Estavam no vazio quase escuro porque o povo se comprimia na zona da retreta como dentro de um crculo demarcado. De fora era mesmo estranho espiar os habitantes se empurrando: aqueles cujas costas j davam para o vazio lutavam sonmbulos para entrar. O rapaz e a moa olhavam sacudindo a poeira das roupas. Nesse momento o relgio da torre bateu longe, tranqilo... O relgio da igreja abalou-se mais potente, misturando-se  delicadeza das outras horas. Lucrcia inquietou-se. Em breve, o tenente mal conseguindo acompanh-la, a moa caminhava  frente quase correndo. O principal acontecimento da noite de S. Geraldo no fora sequer anunciado, a cidadezinha estava milagrosamente inteira ainda - Felipe ria irritado: no corra, menina! dobraram a esquina e encontraram-se no largo de pedra. A torre do relgio ainda estremecia.
     A praa estava nua. To irreconhecvel ao luar que a moa no se reconhecia. Tambm Felipe estacara aliviado: malditos! exclamou empurrando o quepe para trs. Sbado era noite de vrios mundos: o tenente' tossiu transmitindo-lhes sucessivamente a voz sem palavras. As janelas estremeceram ao relincho. Nenhum vento soprava. Apesar da lua a esttua do cavalo em trevas. Via-se, apenas mais ntida, a ponta da espada do cavaleiro suspendendo fulgor parado. O luar imprimira as mil portas mudas nas portas. E a praa se pasmara na postura torta em que tinha sido tocada. Era o mesmo frio reconhecimento de quando se ouvia a clarineta de um cego... As lajes quase reveladas, mal se podia toc-las com as botinas. A moa bateu mesmo duas palmas... Que se dividiram imediatamente em salva surda - a praa toda aplaudia. Em menos de um segundo as palmas se separaram e uma ou outra foi sufocar-se nos becos indeterminados pela escurido. A moa escutou um pouco hostil, as duas mos afinal enterraram com deciso o chapu na cabea. Despediu-se de Felipe dizendo-lhe que no convinha serem vistos juntos.
     Apenas comeou a andar sozinha e j se arrependia porque era isso mesmo que S. Geraldo queria. Andava contida, mecnica, tentando mesmo certa ironia. Mas os passos se multiplicavam e a praa de pedra marchava. Interrompeu-se sem avisar, amarrou os cordes da botina... Quando ergueu a cabea resolveu no deixar de olhar o sobrado mais estreito, a menor sombra. As lojas fechadas com as cortinas de ferro. Estava sendo delicada com todos. Toco mesmo neste poste, pensou mais confiante. O poste estava gelado.
     Em momentos a msica do coreto era trazida pelo ar - a retreta proliferava sob as luzes amarelas. Mas o som se retinha  beira das ruas desertas. Lucrcia olhou para cima tambm, com alguma insolncia. Mas em cada janela da cidade deserta um homem se balanava na sombra das venezianas - as venezianas oscilavam. A mocinha estremecia de medo de estar viva. Certas coisas davam o mesmo sinal - a falta de vento - um cego tocando - o luar na pedra... persignou-se rpidamente enquanto um rato gordo se dourava sob o poste. Passos secos soaram. O soldado diminudo pela distncia apareceu numa esquina e sumiu por outra... sbado era noite de bbedos. Um papel estremecia no cho: ento ela comeou a correr antes que tudo comeasse at encostar-se  porta de casa. Tocou a campainha longamente...
     A estridncia inesperada do som atravessava o espao escuro. A moa parecia ter tocado a campainha de outra cidade. Aguardou um instante. Mas depois de se ter manifestado pela campainha no ousava mais estar de costas: comeou a bater com punhos cerrados, o rato corria tranqilo perto da carroa adormecida; ela batia e olhava para o cu - as nuvens transportadas pareciam imveis e a lua passava... ela batia - batia com os punhos fechados olhando o cu, os cabelos cresciam de ingenuidade e horror, cada vez era mais perigoso, as casas de p... Afinal do alto da escada puxaram a corda da fechadura. Num rangido a porta se entreabria.
     Ento os sinos subitamente sacudiram-se em vidro, espargiram-se da retreta sobre a cidade, fogos de artifcio espocaram, As coisas se quebravam em desastre quase antes de ela se abrigar - fechou duramente a porta.
     Aos poucos, na escurido tranqilizadora, abandonou-se. Estava ainda eriada, cada ponta revertida de coisa no poderia ser tocada, as colunas do corrimo torcidas. Tambm o tamanho de S. Geraldo se alargara e ela viu de baixo para cima - a imensa escadaria a subir. Os sinos tocavam. Dlin, dlen, dlin, dlen, ouviu ela com ateno. Imaginou que as ruas deveriam ter se iluminado todas ao som dos sinos... A noite agora era de ouro. Lucrcia Neves escapava.
     O sobrado onde morava era atravessado de canos dgua e de janelas, o que o tornava muito fraco - a moa subia os degraus que estremeciam s derradeiras vibraes dos sinos.
     
     O subrbio de S. Geraldo, no ano de 192..., j misturava ao cheiro de estrebaria algum progresso. Quanto mais fbricas se abriam nos arredores, mais o subrbio se erguia em vida prpria sem que os habitantes pudessem dizer que transformao os atingia. Os movimentos j se haviam congestionado e no se poderia atravessar uma rua sem desviar-se de uma carroa que os cavalos vagarosos puxavam, enquanto um automvel impaciente buzinava atrs lanando fumaa. Mesmo os crepsculos eram agora enfumaados e sanguinolentos. De manh, entre os caminhes que pediam passagem para a nova usina, transportando madeira e ferro, as cestas de peixe se espalhavam pela calada, vindas atravs da noite de centros maiores. Dos sobrados desciam mulheres despenteadas com panelas, os peixes eram pesados quase na mo, enquanto vendedores em manga de camisa gritavam os preos. E quando sobre o alegre movimento da manh soprava o vento fresco e perturbador, dir-se-ia que a populao inteira se preparava para um embarque.
     Ao pr do sol galos invisveis ainda cocoricavam. E misturando-se ainda  poeira metlica das fbricas o cheiro das vacas nutria o entardecer. Mas de noite, com as ruas subitamente desertas, j se respirava o silncio com desassossgo, como numa cidade; e nos andares piscando de luz todos pareciam estar sentados. As noites cheiravam a estrume e eram frescas. s vezes chovia.
     A vida tumultuosa da rua do Mercado estava deslocada naquele ambiente onde um gosto passado reinava varandas de ferro forjado, nas fachadas rasas dos sobrados. E na pequena igreja cuja arquitetura modesta se erguera no antigo silncio. Aos poucos porm, a praa de pedra se perdeu entre os gritos com que os carroceiros imitavam os animais para falar com eles. Sob a necessidade cada vez mais urgente de transporte, levas de cavalos haviam invadido o subrbio, e nas crianas ainda agrestes nascia o secreto desejo de galopar. Um baio novo dera mesmo um coice mortal num menino. E o lugar onde a criana audaciosa morrera era olhado pelas pessoas numa censura que na verdade no sabiam a quem dirigir.
     Com as cestas nos braos elas paravam olhando.
     At que um jornal se inteirara do caso e leu-se com certo orgulho uma nota - onde no faltava ironia sobre a lentido com que uma srie de subrbios se civilizava - com o ttulo de: "O Crime do Cavalo num Subrbio".
     Este era o primeiro nome claro em S. Geraldo, e algum enfim chamado, os moradores olhavam com rancor e admirao os grandes animais que invadiam em trote a cidade rasa. E que de sbito estacavam em longo relincho, as patas sobre as runas. Aspirando com as narinas selvagens como se tivessem conhecido outra poca no sangue.
     Mas s duas da tarde as ruas ficavam secas e quase desertas, o sol em vez de revelar as coisas ocultava-as em luz: as caladas se prolongavam indefinidamente e S. Geraldo se tornava uma grande cidade. Trs mulheres de pedra sustentavam a portada do edifcio modernista que uns andaimes ainda obstruam: era o nico lugar em sombra. Um homem postara-se embaixo. Ah! dizia uma ave cortando obliquamente a intensa luz. Em resposta, as trs mulheres sustentavam o edifcio. Ah! gritava o pssaro distanciando-se acima dos telhados. Um cachorro cheirava os esgotos iluminados. Homens, espaados - jogadores de chapu de palha e palito na boca - espiavam. Da carvoaria Coroa de Ferro saiu uma cara negra de olhos brancos. Lucrcia Neves meteu a cabea na frescura da carvoaria; espiou um pouco. Quando a retirou - l estava a calada... Que realidade, via a moa. Cada coisa. Entortou a cabea como moda de olhar. Cada coisa. Mas de repente, no silncio do sol, uma parelha de cavalos desembocou de uma esquina. Por um momento imobilizou-se de patas erguidas. Fulgurando nas bocas.
     Todos olharam de seus postos, duros, separados.
     Passado o ofuscamento da apario, os cavalos encurvaram o pescoo, abaixaram as patas - os vagabundos de chapu de palha deslocaram-se rapidamente, uma janela bateu. Reativada Lucrcia entrou no armazm.
     Quando saiu com os embrulhos, as ruas j se haviam transformado. Em vez do vazio do sol cada coisa se movia a caminho de suas prprias formas utilizando as menores sombras. O subrbio estava agora insignificante e minucioso: iniciara-se a tarde. Onde havia gua, a brisa a frisava. Uma cortina de ferro subiu com a primeira estridncia e revelou-se a casa de quinquilharias: a loja de coisas. Quanto mais velho um objeto, mais se despojava. A forma esquecida durante o uso erguia-se agora na vitrina para a incompreenso dos olhos - e assim espiava a moa, cobiando a caixinha de loua rosada.
     Havia duas flores pintadas sobre a tampa.
     At que a sombra da mangueira se alongou pela calada. Chegada a esse ponto a tarde ficou imutvel. Algumas pessoas pensaram em piquenique. Mas no o realizaram: uma ficou de p na esquina - outra olhava pela cortina de uma janela - outra recontou as malhas do croch.
     Nesse mesmo dia, quando o sol ia se pr, o ouro se espalhou pelas nuvens e pelas pedras. Os rostos dos habitantes ficaram dourados como armaduras e assim brilhavam os cabelos desfeitos. Fbricas empoeiradas apitavam continuamente, a roda de uma carroa ganhou um nimbo. Nesse ouro plido  brisa havia uma ascenso de espada desembainhada - assim se erguia a esttua da praa. Passando pelas ruas mais leves os homens na luz pareciam vir do horizonte e no do trabalho. O subrbio de carvo e ferro transportara-se para o alto de uma colina, os ramos das amendoeiras se balanavam. Cavalos, a terra negra e o tanque seco da praa haviam emprestado certa arrogncia aos moradores de S. Geraldo. E uma audcia que lembrava a clera sem ira. Os homens diziam muito uns aos outros: que ? nunca me viu? era comum terem olhos cinzentos e brilhantes como placas.
     Domingo de manh o ar cheirava a ao e os ces ladravam para os que saam da missa. E de tarde, nas primeiras angstias de domingo em cidade, as pessoas limpas na rua espiavam para cima: num sobrado algum ensaiava o saxofone. Elas escutavam. Como numa cidade, j no sabiam para onde ir.
     Apesar do progresso o subrbio conservava lugares quase desertos, j em fronteira com o campo. Esses lugares em breve tomaram o nome de "passeios". E tambm havia pessoas que, invisveis na vida passada, ganhavam agora certa importncia apenas por se recusarem  nova era. A velha Efignia morava a uma hora de marcha alm da Cancela. Quando lhe morrera o marido continuara a manter o pequeno curral, no querendo misturar-se ao pecado nascente. E embora s fosse  rua do Mercado para depositar as bilhas de leite, tornara-se um pouco dona de S. Geraldo. Se parava junto de uma loja, com o olhar seco que no parecia precisar ver, perguntavam-lhe rindo de encabulamento como iam as coisas, como se ela pudesse saber mais que todos. Pois do prprio adiantamento de S. Geraldo nascera tmido desejo de espiritualidade, do qual a A. J. F. S. G. era um dos resultados. Quando Efignia dizia que acordava de madrugada, lanava grande inquietao nos comerciantes que, na qualidade de chefes, j comeavam a dizer: S. Geraldo precisa de uma diretiva. Embora a vida espiritual que vagamente atribuam a Efignia parecesse afinal se resumir no fato de ela no afirmar nem negar, em no participar nem de si prpria, a tal ponto chegara sua austeridade. A ser calada e dura como sucedia a pessoas que nunca tinham precisado pensar. Enquanto que em S. Geraldo comeava-se a falar muito.
     Foi nessa poca de brisa e indeciso, nesse momento de cidade ainda mal erguida, quando o vento  pressgio e o luar horroriza pelo seu sinal - foi no descampado desta nova era que nasceu e morreu a Associao de Juventude Feminina de S. Geraldo. De incio votado  caridade, o grupo - fustigado pelos motores da usina, interrompido pelo trfego dos cavalos e pelos sbitos apitos das fbricas - passou inesperadamente a ter seu prprio hino, e numa reviravolta que assustou mesmo as scias - seu fim era agora o de enobrecer as coisas belas. A Associao teria talvez ficado na organizao de tmbolas e recreios se no fosse Cristina que acendia um fogo vazio e destinado ao vazio, onde se consumiriam as scias em nome da alma que deve progredir. Aos poucos as jovens se reuniam com um ardor na verdade j sem causa.  tarde viam-se entrar na casa da reunio grupos apressados de moas pequenas, com quadris baixos e cabelos compridos, tipo feminino daquela zona. Em nome de uma esperana j assustadora incitavam-se e manifestavam-se no hino que falava com violncia mal contida da alegria das flores, do domingo e do bem. Elas tinham medo da cidade que nascia. No domingo cantado elas costuravam, ao meio-dia interrompendo-se sufocadas, passando a mo pelos lbios que um buo escurecia; deitavam-se cedo. E na grande noite de S. Geraldo sucedia enfim alguma coisa cujo sentido confuso e empoeirado elas em vo tentavam de dia cantar com bocas abertas. Escutando no sono, remexendo-se, chamadas e sem poder ir, perturbadas pela importncia insubstituvel que tem cada coisa e cada ser numa cidade que nasce. Mas Cristina as instigaria na reunio seguinte. Bastava sua presena para agitar o agrupamento e, em pouco, entre projetos de pureza e amor  alma, sem que na sombria sala de reunio uma palavra mais clara pudesse ser pronunciada, todas estavam excitadas para o caminho do bem: Cristina  a nossa vanguardista, diziam sorridentes. Era uma tentativa sorrateira de esprito pelo lado onde este menos esperava. Enquanto Cristina estabelecia com uma facilidade de inteligncia novos princpios: a vida que se leva por dentro no  a vida terrena, dizia, o sacrifcio da carne  realizar-se como carne, dizia. As fbricas apitavam anunciando o fim do trabalho. Em breve tambm se ouviam as cortinas de ferro das lojas a descer - mas as moas custavam a se separar e na sala j escura moviam-se sem saber o que fazer.
     Cristina era uma moa baixa como uma mulher devia ser, um pouco gorda como deveria ser uma mulher. Era a moa mais adiantada do subrbio. O que no impedia que chamasse pouco a ateno dos homens. Estes, mais inocentes e leais do que as mulheres de S. Geraldo, aproximavam-se dela por certa curiosidade: ela cheirava a leite, a suor, a roupas de corpo - eles farejavam apenas e iam embora.
     Quando Lucrcia entrou para a A. J. F. S. G. j encontrou as scias dando-se tanta liberdade espiritual que no sabiam mais o que ser. De tanto se exteriorizar haviam terminado como as flores cantadas, tomando um sentido que ultrapassava a existncia de cada uma, agitando-se como as ruas j inquietas de S Geraldo. Tinha enfim formado o tipo de pessoa adequada a viver naquele tempo num subrbio.
     Lucrcia aproximara-se atrada pela idia de bailes mas Cristina e ela se olharam desde a primeira vez como inimigas; s que Lucrcia no era inteligente e foi vencida. Alm do mais tudo ali parecia estranho  moa e a palavra "ideal", que as outras tanto usavam, soava-lhe desconhecida. "O ideal, o ideal"! mas que queriam elas dizer com o ideal!, disse-lhes obstinada e mesmo altiva. As moas, confusas, se entreolharam rancorosas. Lucrcia no tardou a retirar-se enquanto Cristina ganhava em fora, cada vez mais cruel e feliz. E em breve a perturbao causada por Lucrcia foi esquecida. Assim como a populao j deixara de acusar os cavalos.
     Estes, agora despercebidos pelo hbito, eram no entanto a fora sorrateira sobre S. Geraldo. E tambm Lucrcia, ignorada pela Associao.
     A moa e um cavalo representavam as duas raas de construtores que iniciaram a tradio da futura metrpole, ambos poderiam servir de armas para um seu escudo. A nfima funo da mocinha na sua poca era uma funo arcaica que renasce cada vez que se forma uma vila, sua histria formou com esforo o esprito de uma cidade. No se poderia saber que reinado ela representava junto  nova colnia pois que seu trabalho era curto demais, e quase inexplorvel: tudo o que ela via era alguma coisa. Nela e num cavalo a impresso era a expresso. Na verdade funo bem tosca - ela indicava o nome ntimo das coisas, ela, os cavalos e alguns outros; e mais tarde as coisas seriam olhadas por esse nome. A realidade precisava da mocinha para ter uma forma. "O que se v" - era a sua nica vida interior; e o que se via tornou-se a sua vaga histria. Que se lhe fosse revelada dar-lhe-ia somente a recordao de um pensamento ocorrido antes de dormir. Apesar de no poder se reconhecer na revelao de sua vida secreta, ela a guiava mesmo; ela a conhecia indiretamente como a planta seria tocada se lhe ferissem a raiz. Estava no seu pequeno destino insubstituvel passar pela grandeza de esprito como por um perigo, e depois decair na riqueza de uma idade de ouro e de escurido, e depois perder-se de vista - foi o que sucedeu com S. Geraldo.
     A idia de "progredir", da Associao, encontrara Lucrcia de ateno j desperta, querendo sair da dificuldade e mesmo us-la - porque a dificuldade era o seu nico instrumento. At alcanar a extrema docilidade de viso. Carroas passavam. A igreja batia os sinos. Cavalos escravizados trotavam. A torre da usina ao sol. Tudo isso podia-se ver de uma janela, farejando o ar novo. E a cidade ia tomando a forma que o seu olhar revelava.
     Nesse momento propcio em que as pessoas viviam, cada vez que se visse - novas extenses emergiriam, e mais um sentido se criaria: era esta a pouco usvel vida ntima de Lucrcia Neves. E isso era S. Geraldo, cuja Histria futura, como na lembrana de uma cidade sepultada, seria apenas a histria do que se tivesse visto.
     At centros espritas comeavam a formar-se acanhadamente no subrbio catlico e Lucrcia mesma inventou que s vezes ouvia uma voz. Mas na verdade ser-lhe-ia mais fcil ver o sobrenatural: tocar na realidade  que estremeceria nos dedos. Ela nunca ouvira nenhuma voz, nem sequer desejava ouvi-la; ela era menos importante, e muito mais ocupada.
     E assim era S. Geraldo acumulado de carroas rangentes, de sobrados e mercados, com planos de construo de uma ponte. Mal se podia adivinhar sua umidade radiosa e tranqila que em certas madrugadas vinha da nvoa e saa das ventas dos cavalos - a umidade radiosa era uma das realidades mais difceis de se enxergar no subrbio. Da janela mais alta do Convento, no domingo - depois de atravessar o centro, a Cancela e a zona da ferrovia - as pessoas se debruavam e adivinhavam-na atravs do crepsculo: l... l estava o subrbio estendido. E o que elas viam era o pensamento que elas nunca poderiam pensar. " o passeio mais bonito de S. Geraldo", diziam ento balanando a cabea. E no havia outro modo de conhecer o subrbio; S. Geraldo era explorvel apenas pelo olhar. Tambm Lucrcia Neves de p espiava a cidade que de dentro era invisvel e que a distncia tornava de novo um sonho: ela debruava-se sem nenhuma individualidade, procurando apenas olhar diretamente as coisas.
     Terminada a romaria dominical ao Convento, as casas se iluminando uma a uma - quanto mais uma pessoa penetrasse no centro menos saberia como  uma cidade.
     Ah, se eu pudesse ir hoje mesmo a um baile, pensava a moa na noite de domingo, tocando a mesinha da sala de visitas com delicadeza. Gostava muito de se divertir. Contente, em p junto da mesinha, rindo  idia de um baile, os dentes amarelos aparecendo com inocncia.
     Mas pelo menos ela passeava quanto podia entre as coisas do Mercado, de chapu, de bolsa, algum fio corrido nas meias. Saa e entrava em casa, ou ocupava-se durante horas com roupas, a transformar, a emendar; tinha alguns namorados e cansava-se muito; de chapu e luvas velhas atravessava o Mercado de Peixe.
     E passeava. Mesmo com doutor Lucas, quando se encontravam por acaso, suas relaes quase de cliente e mdico, a mulher dele doente no Sanatrio de S. Geraldo, e Lucrcia Neves orgulhosa de andar com um homem diplomado - eles desciam seis degraus de cimento para o parque que se estendia abaixo do nvel do subrbio. Folhas midas jaziam no cho - eles andavam olhando o cho. E das plantas vinha um cheiro novo, de alguma coisa que se estava construindo e que s o futuro veria.
     O parque de S. Geraldo era amarelo e cinzento com os longos talos enegrecidos - e as borboletas. E aquela era a sua amizade com um homem moo e austero. Se Lucrcia Neves no era sensual a diferena de sexos causava-lhe certa alegria. No parque havia alguns brinquedos de crianas, postes negros, soldados com namoradas - era um dos passeios de S. Geraldo. Doutor Lucas emprestara-lhe uma vez um livro mas ela mal assimilava, como por teimosia e excessiva pacincia. Nunca precisara alis da inteligncia. Sentaram num barranco e porque ele escrevia para a "Revista Mdico-Social" a moa disse que talvez um dia escrevesse o romance de sua vida! ela disse e olhou para o ar com altivez. Tudo era mentira e fazia frio, o mdico a aconselhava - e ela no fundo possuindo aquele mal-estar feliz que era desconfiana sobre o que podia vir de um homem: a moa era muito desconfiada. E lenta. Pois falava e falava com o mdico e no conseguia transmitir-lhe nada. Mas pelo menos espiava tudo com tal clareza: via soldados e crianas. Sua forma de se exprimir reduzia-se a olhar bem, gostava tanto de passear! - e assim eram tambm os habitantes de S. Geraldo, talvez inspirados pela acuidade do ar de toda aquela zona, propensa a fortes chuvas e a veres altos. Mesmo quando pequena Lucrcia j mantinha por horas os olhos abertos na cama, escutando o rudo de uma ou outra carroa que passando parecia marcar seu destino terrestre. Enquanto em outros lugares crianas mais felizes, filhas de pescadores, faziam-se ao mar. Depois, mais crescidos, os meninos de manh cedo j no estavam em casa - voltavam sujos, rasgados, com alguma coisa na mo.
     Talvez chamada pelo comeo de viso que domingo tivera da janela do Convento, na segunda-feira a moa procurava o outro passeio de S. Geraldo: o riacho. Atravessava a Cancela e os trilhos, descia depressa o declive espiando os ps. Por um instante imobilizada parecia refletir profundamente. Embora no pensasse em nada. E de sbito, irreprimvel, seguia o rumo contrrio - subia o morro do pasto, cansada com a prpria insistncia.  medida em que se subia divisavam-se  esquerda um trecho arruinado do subrbio, os sobrados enegrecidos... Nada se via adiante seno a mesma linha ascendente que se estabeleceria enfim no morro.
     Onde ficaria de p espiando. Ainda ofegante da subida. Sria, obediente. Encontrando apenas as nuvens que passavam e a grande claridade. Mas ela no parecia desiludida.
     Apesar do cu alto, o ar no morro era tempestuoso e, s vezes incontido, arrastava com violncia um papel ou uma folha. As latas e as moscas no chegavam a povoar o descampado. A essa hora do dia pisavam-se ervas ardentes e no se subjugaria com o olhar a aridez e o vento do planalto - uma onda de poeira se erguendo ao galope de um cavalo imaginrio. A moa esperava paciente. Que espcie de verossimilhana viera procurar no morro? ela espiava. At que o cair da tarde fosse acordando a piscante unidade que o entardecer levita no campo. E a possibilidade de rumor que a escurido favorece.
     Mas  noite cavalos liberados das cargas e conduzidos  ervagem galopavam finos e soltos no escuro. Potros, rocins, alazes, longas guas, cascos duros - uma cabea fria e escura de cavalo - os cascos batendo, foci-nhos espumantes erguendo-se para o ar em ira e murmrio. E s vezes um suspiro que esfriava as ervas em tremor. Ento o baio se adiantava. Andava de lado, a cabea encurvada at o peito, cadenciado. Os outros assistiam sem olhar.
     Meio sentada no leito Lucrcia Neves adivinhava os cascos secos avanando at estacarem no ponto mais alto da colina. E a cabea a dominar o subrbio, lanando o longo relincho. O medo a tomava nas trevas do quarto, o terror de um rei, a mocinha quereria responder com as gengivas  mostra. Na inveja do desejo o rosto adquiria a nobreza inquieta de uma cabea de cavalo. Cansada, jubilante, escutando o trote sonmbulo. Mal sasse do quarto sua forma iria se avolumando e apurando-se, e quando chegasse  rua j estaria a galopar com patas sensveis, os cascos escorregando nos ltimos degraus. Da calada deserta ela olharia: um canto e outro. E veria as coisas como um cavalo. Porque no havia tempo a perder: mesmo de noite a cidade trabalhava fortificando-se e de manh novas trincheiras estariam de p. De sua cama ela procurava ao menos escutar o morro do pasto onde nas trevas cavalos sem nome galopavam retornados ao estado de caa e guerra. At que adormecia.
     Mas as bestas no abandonavam o subrbio. E se no meio da ronda selvagem aparecia um potro branco - era um assombro no escuro. Todas estacavam. 0 cavalo prodigioso aparecia. Mostrava-se empinado um instante. Imveis os animais aguardavam sem se espiar. Mas um deles batia o casco. E a pancadinha breve quebrava a viglia: fustigados moviam-se de sbito alacres, entrecruzando-se sem se tocarem e entre eles se perdia o cavalo branco. At que um relincho de sbita clera os advertia - por um segundo atentos, logo se espalhavam em nova composio de trote, o dorso sem cavaleiros, os pescoos abaixados at a boca tocar no peito. Eriadas as crinas; regulares, incultos.
     Noite alta vinha encontr-los imveis nas trevas. Estveis e sem peso. L estavam eles invisveis, respirando. Aguardando com a inteligncia curta. Embaixo, no subrbio adormecido, um galo voava e empoleirava-se no bordo de uma janela. As galinhas espiavam. Alm da ferrovia um rato pronto a fugir.
     Ento o tordilho batia a pata. Ningum tinha boca para falar mas um dava algum pequeno sinal que se manifestava de espao a espao na escurido. Eles espiavam. Aqueles animais que tinham um olho para ver de cada lado - nada era visto de frente, e essa era a noite de S. Geraldo, os flancos de um cavalo percorridos por rpida contrao. Nos primeiros silncios uma gua esgazeava o olho como se estivesse rodeada pela eternidade. O potro mas inquieto ainda erguia a crina em surdo relincho. Enfim reinava o silncio.
     At que a madrugada os revelava. Estavam separados, de p sobre a colina. Exaustos, frescos.
     E no limiar da aurora, quando todos dormiam e a luz mal se separara da umidade das rvores - no limiar da aurora o ponto mais alto da cidade passava a ser Efignia.
     Do horizonte apenas mais lvido um pssaro se erguia, e para os lados da ferrovia as nvoas iam passando. As rvores espaadas ainda mantinham a imobilidade da noite. S os fios de capim estremeciam  frescura, na campina vibrava uma folha de papel velho. Efignia se levantava e olhava a plancie cuja antiga aspereza fora alisada pelo vento de tantas noites. Tocava a luz do vidro da janela limpando-o com o cotovelo. Ento se ajoelhava e rezava a nica frase que lhe ficara do orfanato de irms, daquele tempo em que a janela mais alta do Convento se abria para um vilarejo perdido: sinto na minha carne uma lei que contradiz a lei de meu esprito, dizia ausente. O que era a sua carne, nunca soubera; neste momento era uma forma ajoelhada. O que era o seu esprito, ela ignorava. Talvez fosse a luz mal erguida da madrugada sobre os trilhos. Seu corpo servira-lhe apenas de sinal para poder ser vista; seu esprito, ela o via na plancie. Coando-se violentamente na sua transfigurao: j no se poderia dizer que ela era pequena porque ajoelhada perdia a forma reconhecvel. O reumatismo era a sua dureza. E tanto se concentrava difusa na claridade de seu esprito sobre a campina que este j no era seu. Assim se mantinha, pensando por intermdio da luz que via. O papel voava na plancie, encostara-se a uma rvore e tremia preso contra o tronco. Sinto na minha carne uma lei que contradiz a lei de meu esprito dizia pigarreando na madrugada: tudo estremecia cada vez mais, embora nada se transformasse.
     Eis porm que uma folha vibrava em ao no meio da ramagem escura como sinal para poder ser vista. Efignia se levantava com esforo, recuperava a forma seca e entrava na cozinha. As panelas estavam frias, e o fogo morto. Em breve a chama se erguia, a fumaa enchia o compartimento e a mulher tossia com os olhos cheios de lgrimas. Enxugando-os, abrindo a porta dos fundos e cuspindo.
     A terra do quintal estava dura. No espao o arame de estender roupa. Efignia esfregava as mos esquentando-as: tudo aquilo estava para ser transformado pelo seu olhar. Um olhar que no vinha dos olhos mas da cara de pedra - era assim que os outros a viam e sabiam ser intil lamentar-se. Diante daquele rosto eles deviam esconder a fraqueza, mostrar-se rude e no esperar louvor - era desse modo que Efignia era boa e sem piedade. Voltava para a cozinha, tomava vrios goles de caf soprando, tossindo, cuspindo, enchendo-se do primeiro calor. Ento abria a porta e a fumaa se libertava. De p na soleira da porta, sem splica, sem perdo.
     Eis a claridade neutra cobrindo a campina. Pssaros escuros voavam. Toda a ramagem estava agora transpassada de luz, de gravidade e perfume. A mulher cuspia longe com mais segurana, as mos na cintura. Sua dureza de jia. O arame se balanava sob o peso de um pardal. Ela cuspia de novo, rspida, feliz. O trabalho de seu esprito tinha sido feito: era dia.
     
CAPTULO SEGUNDO
O CIDADO
     
     "Os SERES marinhos, quando no tocam o fundo do mar, s adaptam a uma vida flutuante ou pelgica", estudou Perseu na tarde de 15 de maio de 192...
     Herico e vazio o cidado continuou de p junto da janela aberta. Mas na verdade jamais poderia transmitir a algum o modo pelo qual ele era harmonioso, e mesmo que falasse no diria uma palavra que cedesse a polidez de sua aparncia: sua extrema harmonia era apenas evidente.
     "Os animais pelgicos se reproduzem com profuso", disse com oca luminosidade. Cego e glorioso - era isso apenas o que se podia saber dele vendo-o  janela de um segundo andar. Mas se ningum conseguiria sondar sua harmonia - tambm ele parecia no sentir mais do que ela. Porque este era o seu grau de luz. "Os animais e vegetais marinhos com profuso", disse sem mpeto mas sem freio porque este era o seu grau de luz. No importa que na luz ele fosse to cego como os outros na escurido. A diferena  que ele estava na luz. "Flutuantes", falou. Despercebido  janela porque ele era apenas um dos modos de ser S. Geraldo. E tambm um de seus aliceradores somente por ter nascido quando o subrbio tambm se erguia, apenas por ter um apelido que s se tornaria estranho quando um dia S. Geraldo mudasse de nome; de p diante da janela aberta. Era essa a natureza de uma raa de homem.
     E assim ele ficou, observando com aplicao Efignia que na rua carregava uma cesta. A mulher parou e enquanto repousava passeou o olhar com cio e certo desespero pelos arredores ensolarados: eram quase trs horas e todas as portas comearam a se abrir ao mesmo tempo. Efignia retomou a cesta. Para mais adiante interromper-se de novo e arrastar penosamente o fardo. Afinal ela estacou outra vez - mas Perseu era paciente. "Os animais", disse ele. A mulher retomou a cesta. "Se reproduzem com extraordinria profuso", disse Perseu. Decorar era bonito. Enquanto se decorava no se refletia, o vasto pensamento era o corpo existindo - sua concretizao era luminosa: ele estava imvel diante de uma janela. "Se alimentavam de microvegetais fundamentais, de inusrios etc."
     "Etc!" repetiu brilhante, indomvel.
     E agora se calava, moroso e cheio de sol. "Os seres marinhos", disse num murmrio; a inconscincia do rapaz dominava largamente a cidade. "Se reproduzem",, acrescentou sombrio. Suas asas eram grandes asas imveis. Inclinou-se ento pela janela e gritou:
     - Fruteiro! suba!
     Ah! voou uma gralha espantada.
     Grande, revelado nos braos nus, comprou tangerinas no corredor escuro.
     Voltou e empoleirou-se no parapeito da janela. Em breve comia e jogava os caroos no beco sujo. Olhava piscando: o caroo dava dois pulos antes de imobilizar-se ao sol. Perseu no o perdia de vista apesar da distncia e das pessoas que j se entrecruzavam apressadas: ele era paciente. E em pouco a rua se achava plena de pontos concretos: inmeros caroos espalhados numa disposio que tinha um sentido flagrante - apenas que incompreensvel. Assim como os sobrados dispostos na rua. Estava na sua natureza poder possuir uma idia e no saber pens-la: assim ele a expunha, ofuscado, persistente, jogando os caroos. Havia mesmo algumas anedotas sobre a lentido de inteligncia dos homens de S. Geraldo, enquanto as mulheres eram to espirituosas! "Se reproduzem com extraordinria profuso!" disse o rapaz de repente fustigado.
     Em breve estava novamente absorvido pela espcie de perfeio que existia em jogar caroos; tudo o que se parecesse com mecanismos j comeava a interessar aos novos cidados. Absorvido porm remoto. Pois seu tempo parecia impossvel de ser preenchido por uma ao: ele jogava no vazio. Somente algum sinal fazia com que dentro dessa largueza houvesse particularmente a sua vida. "Os seres marinhos pelgicos", disse bastante alto com a boca cheia.
     O que salvava da angstia esta criatura perdida  que ela era perdida como Deus quer que seja inocente: ele comia e jogava os caroos. O mundo podia passar sem este pedreiro cego. Mas uma vez em que ele vivia, ningum mais poderia executar o seu trabalho, to intransmissvel este j se tornara: assim jogou mais trs caroos, recuando a cabea e mirando com um olho fechado ... "Vida flutuante ou pelgica", exclamou refazendo-se. Atrs do rosto belo e resignado havia um outro que, repetindo os traos externos, tinha uma expresso um pouco horrvel, a expresso de um pensamento profundo. E uma intolerncia moral - a dos so-geraldenses - ao mesmo tempo maior e mais amorfa do que a do rosto exterior que buscava certa unidade que fosse imediatamente compreendida por um espelho: atrs do rosto dourado e corts um cheiro quase desagradvel de estbulo porque ele era muito moo ainda.
     Assim se haviam passado vrios momentos proporcionais e amadurecidos enquanto o rapaz jogava os caroos como se tivesse afiado ouro numa oficina - a primeira badalada do relgio f-lo erguer um rosto sonolento pela aplicao. Por um instante uma cara fora de alcance esperava sem interesse o que lhe iam dizer: o relgio da praa batia trs horas largas acima de S. Geraldo e sob as badaladas vibrantes o subrbio foi submergindo. Quando reapareceu escorrendo s ltimas ressonncias, o subrbio estava claro e tudo podia ser mais visto: sobre a mesa da janela jazia o livro aberto, e na pgina revelada pela sbita nitidez da hora estava inscrito :
     - Este animal discoidal  formado de acordo com a simetria baseada no nmero 4.
     Assim estava escrito! E o sol batia em cheio sobre a pgina empoeirada: pela casa defronte subia mesmo uma barata... Ento o rapaz disse aquilo que era lustroso como um escaravelho:
     - Os seres pelgicos se reproduzem com extraordinria profuso, exclamou afinal de cor.
     O relgio atrasado da igreja bateu trs horas. Ah! espavoriu-se a gralha de novo perseguida. Perseu balanou os dois ltimos caroos na concha da mo e lanou-os em dados. O jogo estava feito! Era de tarde. O rapaz parou maravilhado e vazio. Inesperadamente abriu as grandes asas num bocejo de juventude.
     
CAPTULO TERCEIRO
A CAADA
     
     NESSA MESMA tarde ouviu-se a cadncia de patas nas pedras da rua do Mercado. A carroa e o cavalo avanavam a passo. De sbito a cabea do cavalo cresceu, a um movimento espavorido do pescoo ergueu-se: gengivas roxas apareceram e os freios cortaram-lhe a boca - num rincho de todo o corpo e na estridncia das rodas: o cavalo e a carroa. Depois o vento continuou a soprar em silncio.
     O que sucedia na rua no atingia mas chamava como para assistir a um incndio.
     No quarto uma jovem estava de p e, se procurava manter a sensatez, j se achava entregue ao prprio rumor sem linguagem. Tambm no aposento os objetos, de forma constante, tornaram-se insuportveis alm de alguns segundos - a moa estava sempre de costas para alguma coisa; o quarto j se precipitara, pesado de ornamentos. S ela ainda estava consciente demais para comear o disfarce, o vento entre os sobrados apressava-a.
     Enquanto se descalava forava mesmo a confuso do quarto e da rua, de onde tiraria a prpria forma. Nada porm a empurrara ainda para a realidade do que estava sucedendo. No compartimento sombrio a claridade era o buraco da fechadura.
     Afinal a escolha de um chapu a concentrou permitindo-lhe pr-se a par do aposento. Abriu a gaveta e da escurido para o ar trouxe o chapu mais trabalhado. Procurou com ateno um novo modo de us-lo. Seu impulso era duro e jamais se quebraria em lgrimas: com o chapu enterrado at a testa olhou-se ao espelho. Fazia-se inexpressiva e de olhos vazios como se este fosse o modo de se ver mais real. No chegava no entanto a atingir-se, encantada pela profunda irrealidade de sua imagem. Passou os dedos na lngua, umedeceu as sobrancelhas ... ento olhou-se com severidade.
     As rosas encarnadas da parede eram inalcanveis no espelho, montes de rosas que de to imveis avanavam.
     At que tocada pela prpria ateno, Lucrcia passou a ver-se com dificuldade.
     Lucrcia Neves no seria bela jamais. Tinha porm um excedente de beleza que no existe nas pessoas bonitas. Era basta a cabeleira onde pousava o chapu fantstico; e tantos sinais negros espalhados na luz da pele davam-lhe um tom externo a ser tocado pelos dedos. Somente as sobrancelhas retas enobreciam o rosto, onde alguma coisa vulgar existia como sinal apenas sensvel do futuro de sua alma estreita e profunda. Toda a sua natureza parecia no se ter revelado: era hbito seu inclinar-se falando s pessoas, de olhos entrefechados - parecia ento, como o prprio subrbio, animada por um acontecimento que no se desencadeava. A cara era inexpressiva a menos que um pensamento a fizesse hesitar.
     Embora no fosse desta possibilidade de esprito e doura que ela aproveitava. Era o que havia de rgido num rosto que a moa, se preparando, acentuaria. E uma vez pronta - disfarando-se com uma futilidade que no procurava salientar o corpo mas os enfeites - sua figura se ocultaria sob emblemas e smbolos, e na sua graa intensa a moa pareceria um retrato ideal de si mesma. O que no a alegrava - era um trabalho.
     Inclinou-se de sbito para o espelho e procurou achar o modo de se ver mais bela, abriu a boca, olhou os dentes, fechou-a... Em breve, do olhar fixo, nascia afinal a maneira de no penetrar demais e de olhar em esforo delicado apenas a superfcie - e de rapidamente no olhar mais. A moa olhou: as orelhas eram brancas entre os cabelos emaranhados de onde nascia um rosto que os sinais salpicados faziam estremecer - e sem se demorar, porque alcanaria demais ultrapassando: este era o modo de se ver mais bela!
     Suspirou impaciente, corajosa. Fechou e abriu os olhos, abriu desmesuradamente a boca para espiar os dentes: e por um instante raro viu-se de lngua vermelha, numa apario de beleza e horror calmo... Respirou mais satisfeita, sem saber por que rejubilando-se: no quarto fechado, cheio de cadeiras delicadas, tudo se tornava to burlesco com uma lngua vermelha! a mocinha riu com gravidade como se tivesse um ano a quem atormentar. Continuou ento o disfarce. Contente, silenciosa e bruta enquanto subia dentro dos sapatos de verniz. Agora de fato estava mais alta e mais ousada, o clarim dava o sinal da rapina.
     Mas na verdade sua futilidade era um despojamento severo e quando ela estivesse pronta pareceria um objeto, um objeto de S. Geraldo. Era nisso que ela trabalhava ferozmente com calma.
     Enquanto se vestia o rumor ntimo com que se vestia foi aos poucos se transformando numa estupidez terrivelmente maliciosa: olhava as rosas no papel da parede fazendo-se boba por dentro, de algum modo imitando a existncia do guarda-roupa onde remexia para procurar a pulseira. Tocava numa coisa ou noutra como se a realidade fosse o inatingvel. E era - com um pequeno golpe na poeira do sapato - Lucrcia Neves viu que era, embora risse tola, o cavalo relinchando na rua embaixo - com um pequeno golpe na poeira do sapato ela via as vrias formas do quarto, as rosas, a cadeira! mas passava por cima de certa teimosia que o fato de ter imitado o guarda-roupa lhe trouxera - e continuou a procurar a pulseira.
     Que  que voc est procurando, minha flor? perguntava-se sem se interromper. Viu ainda a cama com dura vivacidade - que se transformou imediatamente em procura mais veemente da pulseira. Cansada. Pois s ela trabalhara: como deixar de ver que as coisas no quarto no se haviam transformado por um instante sequer? l estavam elas. Apenas um momento de fraqueza, e de novo se destrua o que ela erguera atravs de tantos olhares... E Lucrcia Neves viu com surpresa um quarto inconquistvel, silencioso - com grande surpresa de no achar a pulseira.
     De novo trabalhando furiosa, jogando sapatos de um lado e lenos de outro,  procura. Enquanto ia abrindo e fechando gavetas, das gavetas abertas e fechadas e entrefechadas e abertas, j renasciam planos e retngulos, arestas se reerguiam, superfcies mais expostas envelhecendo, alturas se aprumavam: em recuos assombrados seus olhares haviam recriado a realidade do quarto. Um pouco desconfiada, inocente no meio dos destroos... E a pulseira? ela se cocava, agora sem majestade, olhando empoeirada, encantada, quase mope - ela que tinha olhos to ntidos. Procurava a pulseira espiando de ccoras embaixo da cama, lastimando-se ferida numa delicadeza de animal: "onde est, meu Deus", dizia coando-se.
     Retirando afinal da gaveta como prolas verdadeiras as jias falsas, alando-as  altura do rosto, dando glria e esperana ao quarto. Onde parou quase pronta. Olhando estpida em volta, com a dificuldade de pensamento que a falta de sensualidade lhe trazia. Faltava o perfume!
     Assim pois embalsamou-se de perfume, sacudindo-se toda.
     Mas era dia, o sol cheio de vento que soprava alm da varanda anularia tantos enfeites! Porque ela se vestira tentando recriar a fora de antigas noites de festa, imaginando encontrar na suja rua do Mercado a elite de um baile, prestgios e maneiras extraordinrias - onde moas riam difceis de se comportar; e onde ela diria alto, ameaando com o dedo: voc  mau, Joaquim!
     Sim! sim! um baile seria a cidade de pedra enfim cedendo: ou uma retreta, um circo! o carrossel! ou abordar toda dura a casa de famlia transformada em baile.
     Um baile em S. Geraldo: a noite estiolada pela chuva e ela pisando com os cascos na pedra escorregadia, e os grupos de guarda-chuva chegando. Grupos de cavalheiros annimos, os cavalheiros de pau ao redor dos quais se danava. Fechava o guarda-chuva ensopado. E quando rebentava a charanga todos se apuravam. Os primeiros passos eram dados longe do corpo, experimentando cegamente o terreno. Mas em breve a msica dramtica os envolvia. O trombone reboava isolado acima da melodia. Pelas vidraas, no salo tpido, a moa via rapidamente na valsnha inglesa os fios de chuva se dourarem despertos sob as lmpadas do terrao, erguendo fumaa sonolenta: chovia no terrao deserto, e ela danava. De faces pintadas e olhos resistentes, exprimindo; que estaria ela festejando? ela danava em nova composio de trote. E fora chovia em silncio. Lucrcia Neves voltava do baile com os ps empoeirados; a nusea da valsa e dos homens ntimos rodopiava ainda nos rgos porque acontecera alguma coisa to parecida com S. Geraldo: ela danara, chovia, as gotas escorrendo sob a luz, ela danando, e a cidade erguida em torno.
     A lembrana do baile a enlevava no quarto onde agora, ataviada como uma gravura de santo, estava pronta para sair. Com o rosto imobilizado pelo disfarce a moa se examinou ao espelho.
     Estava dourada e grosseira na sombra.
     Fora assim que se criara. Embora ainda faltasse criar volpia naquele rosto a que o egosmo dava um carter leal: tingiu ento os lbios molhando na saliva o papel carmesim.
     Com a boca suja o rosto se infantilizou, menor e culpado. No espelho sua elegncia tinha a qualidade falvel das coisas belas demais sem raiz... numa emoo rpida ela bateu a porta do quarto, gritou com a voz de sbito trgica e rompida: mame vou sair! desceu as escadas de novo devagar, cuidando em no escorregar na sombra com as ferraduras.
     Assim ia para a rua. espiar de um lado e de outro. Bem gostaria de enfim desistir e descansar. s vezes mesmo se imaginava, sorrindo de arrebatamento, a tomar um navio e fazer-se para sempre ao mar. Mas sua viagem era por terra.
     O vento a recebeu na rua, a moa parou protegendo os olhos feridos pela luz. E de sbito a claridade a revelou.
     Haviam cessado as possibilidades: estava vestida de azul, cheia de fitas e pulseiras. O chapu vermelho se enterrava at as sobrancelhas por fora do gosto intransponvel da moda. A bolsa encarnada tinha miangas... Mas ela encontrava uma rua to rasa! Sem os erros nem as emendas com que se construra no quarto... Mesmo o pardal no ramo piava sem erro possvel porque era a primeira vez... e era esta uma rua de tarde?
     De novo ela imitara mal S. Geraldo. Que a essa hora estava quase casto... A tarde aberta descobria ao mximo as miangas e os colares. Ela trouxera armas inteis.
     Em breve porm saa do p da escada com um suspiro seco, aprumava-se sem se mexer para no desmoronar, avanando com certa insolncia. A mesma que a fazia comprar chapus que raramente imitavam a natureza: sem pssaros, sem flores, seus chapus pareciam feitos de chapus, com variaes das prprias abas - e que ela usava como seguraria um objeto.
     Aos poucos Lucrcia Neves refizera-se do choque com a luz e parecia de novo mais alta e perseguidora. Passeava com delicadeza de expresso, sem alegria. Seu equilbrio sobre os saltos das botinas era to difcil que ela andava entre o equilbrio e o desequilbrio, mantida no ar pelo chapeuzinho aberto. No era sem um esforo constante que mantinha a elegncia naquele momento porque se vestira na escurido potente de um quarto, talvez para ser vista de noite. E o dia em S. Geraldo no era o futuro, era ruas duras, realizadas. A moa se sentia inferior quela nitidez sem apelo. Que atualidade! que atualidade, via ela lanada no que estava acontecendo. Olhava em torno com avidez, que atualidade! fazia o possvel para no transp-la, ajeitava as pulseiras que se chocavam nos pulsos.
     O relgio bateu quatro horas. Por um momento pareceu esperar a resposta. Perseu Maria viu que estava atrasado e ps-se a andar mais depressa. Seu sentimento era de calma e de alegria porque seu corpo era grande na marcha - degraus foram subidos, paraleleppedos pisados. ele era grande na marcha. E no sabia o que pensava porque era forte. Num dado momento disse, na intimidade exterior com que via a si mesmo andando, disse numa hesitao penosa que vinha de certa conscincia de sua solido: "o cho". Assim pensou ele como uma criana diz: "o cho". Mas quando ergueu os olhos de seu sonho profundo percebeu que no estava atrasado. Lucrcia justamente se aproximava do ponto de encontro. O rapaz parou na esquina impedido pelo caminho. A moa parou na outra esquina esperando. Olharam-se. ele a olhou. Que rosto!
     Ele estava pensando.
     Afinal pensou mais claro: "o rosto". Quando a via de longe a via melhor. Com pulseiras e miangas ela parecia uma vtima. Perseu acrescentou o pensamento com dificuldade deslumbrada: "que rosto ela tem", viu ele com maior clareza ainda.
     - Saudaes..., disse a moa.
     - Saudaes, respondeu ele envergonhado com a brincadeira.
     E eis que, apenas pela presena de Lucrcia, ele se escureceu todo na sombra, moroso, perdendo o mnimo de particularidade. Tambm a moa respirava modesta, calma. No limiar de S. Geraldo eles se despojavam toscamente como podiam. Ficaram to simples que se tornaram inatingveis. E comearam a passear pela cidade.
     Baratas velhas emergiam dos esgotos. Dos subsolos os celeiros sufocavam as ruas com o cheiro de cascas podres. Mas as serras nas oficinas zumbiam em abelha e ouro por todo o subrbio, a essa hora de extrema claridade quase vazio.
     De uma balaustrada superior o rapaz e a moa de guarda-sol aberto na outra balaustrada - o subrbio subindo e descendo em escadas de penitenciria.
     A rua do Mercado ainda cheirava ao peixe vendido pela manh, nos fios dgua correndo para o esgoto boiavam escamas e algum cravo mole. Com a experincia da infncia os dois se desviavam facilmente dos balaios, passavam com ateno pelo cheiro da carvoaria Coroa de Ferro, e passeavam por ruas mais estreitas. Os salames pendurados  porta da loja cheiravam a fundo de casa. Eles cheiraram. Afinal chegando  Cancela.
     Verificaram debruados que nenhum trem se aproximava. O vento sobre as linhas frreas soprou-lhes no rosto. Atravessaram.
     Alm da ferrovia o bairro se tornava mais espalhado; j se viam mesmo poucas casas. E em breve eles passeavam sob fios de telgrafo. O ar estava puro e raso como de salinas - a moa olhava o cu com cuidado para o chapu no se mover, o cu - "que aspecto", pensava indecifrvel. Fitava a serena tarde nas pedras, nos ferros enferrujados do cho - o lixo seco voava... Tudo era real mas como visto atravs de um espelho. Por um momento a moa procurava um modo de ser e no sabia; excessivamente tranqila, intocvel.
     Mas quando chegaram na elevao do morro do pasto Perseu mostrou a cidade com o dedo.
     O equilbrio do dedo sobre o vazio, o vento, o vento... - seu chapu de luto voou, ele correu atrs enquanto de repente o subrbio enfim se manifestava porque um chapu voara ao vento! o rapaz atravessou o arame-farpado correndo com os braos abertos, a boca delicada mordendo o ar. Lucrcia acompanhou-o com os olhos at ele desaparecer de vista... Ps-se ento a esperar sem compreenso, sem incompreenso.
     Em breve ela desvairava um pouco, sonhava em andar sozinha com um co e ser vista sobre o morro: como o postal de uma cidade. Lucrcia Neves precisava de inmeras coisas: de uma saia quadriculada e de um pequeno chapu da mesma fazenda; h tanto tempo precisa se sentir como os outros a veriam de saia e chapu quadriculados, a cintura bem nos quadris e uma flor na cintura: assim vestida ela olharia o subrbio e este se transformaria. Com um cachorro. Era deste modo que se compunha uma viso. A moa no tinha imaginao mas uma atenta realidade das coisas que a tornava quase sonmbula; ela precisava de coisas para que estas existissem.
     Perseu trouxe de volta o chapu e limpando-o na manga fitou-a rindo de inquietao, sem poder impedir a vitria de t-lo apanhado; rindo e olhando com desassossgo a calma natureza do mundo. Pensou ento com sabedoria que poderia lhe dizer: "parece que vai chover, hem, Lucrcia!", apenas para de novo estarem de mtuo acordo e para fazer virar-se o rosto da moa que olhava insistente a torre embaixo. Mas era mentira: o cu claro os envolvia e os perdia. Quando colocou o chapu na cabea o rapaz esquecera o que estivera apontando.
     Ainda ensaiou com um dedo mas recolheu-o em breve. Perto jazia o monte de lixo  espera da queimada... E a conversa se fechava. Lucrcia Neves no sorria, olhando.
     Somente o ar continuava aberto, fios negros ligando os postes de baixo para cima - "que aspecto", via Lucrcia olhando de baixo para cima. Os passarinhos voavam imitando-se sem se cansar. Fios de rdio cruzavam limpos e finos o ar respirvel com frio no descampado...
     eles olhavam de baixo para cima. Imveis. Se fosse possvel algum compreender e no tirar nenhuma concluso - assim o rapaz olhava profundo. E a forma da moa no entender tinha a mesma clareza das coisas compreensveis, a mesma perfeio de que ambos faziam parte: fios pretos se balanavam no incolor - eles olhavam de baixo para cima, imveis, incompreensveis, constantes. Que aspecto! pensou finalmente Lucrcia Neves.
     Ento Perseu avanou a cabea para o ar e fitou a ferrovia embaixo.
     Tudo se sensibilizou sob o olhar estpido e delicado do rapaz, tudo hesitava ao vento, e existia em si mesmo, sem cheiro, sem gosto, com a forma insubstituvel do prprio trilho, da prpria madeira empilhada - e do verde, verde campo. ''Olha s! o bebedouro seco dos cavalos". To lentos e difceis os dois estavam que viam com teimosia a coisa de que eram feitas as coisas, e que envolvia a cara da moa com a mesma estridncia do besouro sobre aquela haste. "Olha s o besouro!" Eles olharam o besouro. Lucrcia e Perseu espiavam de nariz franzido. Perseu passava de si para a moa e dela para si mesmo sem sentir, as plpebras piscando de sol e de um pensamento obstinado de amor, que ele no sabia lhe dar. "E no havia mesmo motivo de lhe dar amor" - ele apanhou uma pedra e limpou-a da poeira mostrando uma intimidade com coisas sujas que Lucrcia Neves olhou atenta sem entender - "realmente no havia motivo". Apenas razes contra; e uma delas  que "ela escolhia muito", acusou o rapaz e talvez somente sua me, morta h um ano, tivesse compreendido que esta podia ser a acusao de um homem. A falta de cansao de Lucrcia Neves tambm o alertava. Ela era como essas pessoas estrangeiras que diziam: "no meu pas  assim". A testa estreita de Perseu buscava algo sobre o que ter piedade amorosa porm mesmo os defeitos fsicos da namorada eram calmos, ela os aceitando apenas por dizer: no meu pas  assim! ela parecia protegida por uma raa de pessoas iguais. Mesmo seus prazeres eram feitos da idia de que uma noite passada em barraca seria to bom, de que acordar de madrugada no era esforo, de que a vida de soldado no era dura - ela sempre o humilhara com seu amor por militares, mostrando grande admirao pela coragem fsica e pelas armas, do que ele tinha vergonha - que falta de tato! pensava, e sentia que era por a que ela poderia ser acusada.
     O que no impedia que nesse momento os dois estivessem igualados pelo mesmo instante de juventude no morro do pasto - caminhando e conversando de volta, as mos se movendo em gestos explicativos. No importava o que to animados se diziam: eles mesmos eram para serem vistos, como a cidade. E se algum os visse de longe enxergaria um saltimbanco e um rei. Caminhar depressa os alegrava - o rei sorria e era belo, o saltimbanco se esforava em caretas de graa: havia um descontrole mecnico no caminhar de ambos - eram uma s pessoa com uma perna curta e outra comprida, a beleza do rapaz e o horror, a flor e o inseto, uma perna curta e outra comprida subindo, descendo, subindo. Por vezes o rapaz parecia andar para a frente e a moa ao redor dele danava: era quando ele sorria divino e puro, e Lucrcia Neves falava - e assim os outros viam.
     Ou ento era ela quem parava mais alta ao vento.
     Teriam brigado? ele hesitante a olh-la. Quando ela lhe aparecia assim destruvel, o rapaz por piedade e desiluso se tornava bruto. Teve mesmo vontade de dizer-lhe: ah, no sou o que voc pensa, minha adoradinha, voc no far de mim o que quiser! - embora soubesse, enquanto olhava as pedras, que ela nada faria dele nem ele dela - porque assim eram eles e mais adiante estava o riacho.
     - Que  que voc pensa que fiz ontem? disse Perseu Maria presunoso.
     Em vo ele procurava, vendo-a s vezes feia e fitando seus sinais escuros sobre a pele, proteger com o amor de um homem a debilidade de sua figura: a boca fina que no ria, em cada face aquelas rodelas de carmim que escandalizavam os vizinhos... "ela gostava multo de se mostrar''.
     Mesmo os sonhos da moa: ele mesmo nunca sonhara com esttuas, pensou com extrema relutncia. Parecia achar que sonhar com esttuas era um excesso. Movendo a pedra entre os dedos, Perseu olhou Lucrcia com rapidez: no sabia como admir-la. Forou a testa curta. Pensando, seu rosto se tornava ainda mais proeminente e indeciso - ele que se tornava to alegre quando, tomando o trem, ia  praia, os exerccios e o riso, e sob o sol o corpo imberbe... Que moas em roupa de banho olhavam entregues, sentindo-o forte e inocente - ele era um dos novos homens de S. Geraldo.
     - Papai se queixa da casa, disse ele jogando com ateno a pedra para longe.  cheia de mosca... Esta noite senti mosquito, mariposa, barata voadora, j nem se sabe mais o que est pousando na gente.
     - Sou eu, disse Lucrcia Neves com grande ironia.
     Perseu olhou o cho, envergonhado, doloroso e calmo. Procurando agudamente interromper tanta falta de pudor por intermdio de seu prprio interesse pelas ervas do cho... Porque a moa lanara no ar o rosto claro onde os sinais se enegreciam cada vez mais, coisas que se escurecem na luz do inverno. Era horrvel sua audcia, s vezes ela no tinha vergonha. ele suportando com sofrimento suas brincadeiras, olhando-a rapidamente e desfitando os olhos. Mas torcendo os lbios em sarcasmo ainda maior, ela disse:
     - Segure bem o chapu seno voa de novo, imagine!
     Ela achava ridculo homem usar chapu..., ele bem sabia. Ah, ela no me compreende, pensou o rapaz, enterrou com as duas mos o chapu na cabea, olhando-a radiante: o vago frio deixara a moa com pele arrepiada de galinha... mas ela estava alegre! Que impossibilidade de abra-la, refletiu ele preocupado, porque ela sempre faria um movimento qualquer que deixava ambos grandes demais, ele com vergonha de ser um homem e com uma vontade de rir...
     - ... que ... nunca me viu! Mas ele riu feliz para o ar...
     E de repente o tempo correu com a brisa sobre o campo, eles caminharam e j estavam junto da Cancela.
     Verificaram que nenhum trem se aproximava, o vento das vias frreas bateu-lhes no rosto - atravessaram depressa.
     O tempo corria e pareceu a Lucrcia que a casa defronte era indubitavelmente alta, o cho liso, a pedra escura, pareceu-lhe que o esgoto brilhava - e a moa no sabia ver mais! Por um instante ela quebrou a prudncia e olhou despudorada a pedra, a casa, este mundo. Mesmo sem guardar-se, via apenas a rua estreita, o cho de pedra, janelas... Quis ao menos empurrar para o mesmo instante o vestido e o chapu, e compor S. Geraldo, mas adiou para Felipe, e ambos caminhavam animados, silenciosos e fatigados. Perseu tirara o chapu por causa do sol e segurava-o de encontro ao peito. A certa distncia pareciam msicos de rua que viessem de muito longe - e o que os outros podiam ver fazia Lucrcia Neves andar cheia de orgulho, mostrando-se; os lbios do rapaz partiam-se secos e ridentes. Como estavam felizes! a brisa soprava sobre o subrbio.
     Lucrcia Neves talvez quisesse exprimi-lo, imitando com o pensamento o vento que bate portas - mas faltava-lhe o nome das coisas. Faltava o nome das coisas, mas eis, eis aqui, ali, eis a coisa, a igreja, as pombas voando sobre a Biblioteca, os salames  porta da loja, o vidro ardente de uma janela sinalizando com insistncia para o morro...
     Os dois de p espiando. E a dureza das coisas era o modo mais recortado de ver da moa. Da impossibilidade de ultrapassar essa resistncia nascia, de fruto verde, o travo das coisas firmes sobre as quais soprava com herosmo esse vento cvico que faz tremer bandeiras! a cidade era uma fortaleza inconquistvel! E ela procurando ao menos imitar o que via: as coisas estavam como ali! e ali! Mas era preciso repeti-las. A moa tentava repetir com os olhos o que via, tal seria ainda o nico modo de se apoderar. Sua voz no podia e se esgarava, os cabelos espetados sob o duro chapu - e entrando na rua do Mercado, o vento a levantar-lhe a saia, ela segurando o chapu com as duas mos - tudo o que jazia em lixo nos esgotos secos foi despertado pelo vento; apesar da firmeza, como o subrbio era reversvel apenas pelo vento ! um passarinho escuro voou piando de susto - a moa procurou aproveitar a rpida entrega das ruas e entrar em intimidade com o que os cavalos relinchando pressentiam no subrbio. Mas o nico meio de contacto era olhar e ela viu os soldados na esquina. Ah, os soldados.
     - Olha s os soldados, Perseu, disse Lucrcia.
     Seu modo de ver era tosco, rouco, recortado: os soldados!
     Mas no era s ela quem via. De fato um homem passou e a olhou: ela teve a impresso de que ele a vira estreita e alongada, com um chapu pequeno demais: como num espelho. Bateu perturbada as plpebras, embora no soubesse que forma escolheria ter; mas o que um homem v  uma realidade. E sem sentir a moa tomou a forma que o homem percebera nela. Assim se construram as coisas. Virou-se toda modesta para Perseu - como uma pessoa alongada - estendendo a mo, retirando-lhe um fiapo do palet. Indagava o rosto de Perseu, olhando-o insistentemente como o homem que passara compreenderia que ela olhasse.
     Perseu e Lucrcia fitaram-se...
     Perseu encarou em seguida a loja, no em seguida demais - procurava arrastar o olhar para no desvi-lo ostensivamente dela. Ele era delicado. Ps-se mesmo a assoviar um pouco. Mas o momento ficava cada vez mais insustentvel, que sucedera? ela disse com humildade e sonho:
     - Que dia cheio de vento, hem.
     O rapaz parou imediatamente de assoviar e olhou o dia. Sem motivo fingiu uma tosse sufocante e quando enfim a dominou disse com certa importncia.
     - Sim, hem.
     O cachorro corria pela calada com as patas fracas, trotava, abanava o rabo em luz. Perseu espantou-se sem jeito - o rosto sem barba sorria de vergonha e encanto de ser to covarde. Grande, delicado. Poderia usar uma cabeleira comprida, cheia de cachos; ele sabia versificar e era catlico:
     - To grande e com medo de cachorro, disse ela grosseira examinando-o com curiosidade e a sanfona da esquina comeou a tocar a Serenata de Toselli esquentando a rua. O msico rodava a manivela e o mecanismo deglutia a msica com dificuldade e cuidado - a msica ia tomando vrias formas rpidas de objeto... tudo o que tombasse naquela cidade se materializaria em coisa? ento a moa parou e apanhou a bolsa no cho. Perseu procurou em vingana mostrar que bem sabia que ela andava com uma bolsa cheia de coisas inteis, flores murchas de baile, papis; procurou com sabedoria mostrar ao menos que via por que no se podia sequer entender.
     Mas quando Lucrcia ergueu do cho a cabea, a luz nascia de seus cabelos... alguma coisa virando e mostrando seu lado bom; seus olhos, por um instante decepcionados, deixavam escapar a mesma luz vazia dos cabelos, e paravam de olhar para se deixarem ver: Perseu procurou rapidamente ao menos ver. Tambm dos lbios maculados da moa nascia um sopro de claridade... o que ela possua estava escapando por entre dedos - to bonita... parecia no tomar banho, as unhas e o pescoo de cor dbia, em p no ar - to bonita, pensou ele desesperado, to bonita... ela parecia cega.
     - Gosto mesmo de voc! disse o rapaz com obstinao, a testa abaixada para a marrada.
     Ela se voltou com dureza e extrema alegria:
     - Sabes que no gosto dessas coisas! disse coquete, ofendendo-se.
     Perseu a olhou envergonhado, rindo, e ela comeou a rir tambm. E tanto riram que se engasgaram de verdade ou de mentira e comearam a tossir. Lucrcia Neves parara enxugando os olhos, toda vermelha, decomposta : ele bem que viu... Oh, am-la era um esforo permanente - ele parou srio, banhado pelo sol mais plido, espiando a distncia com insatisfao. Os olhos do rapaz estavam abertos. As pupilas escuras e douradas. Havia uma solido para sempre no modo como ele estava de p. Ento ela falou:
     - Vamos embora, falou ela com doura tambm porque j comeava a engan-lo.
     Diante da escada do sobrado onde a moa morava, ele disse que esperaria que ela subisse.
     - No, respondeu toda ntima e intrigante, eu  que espero que voc v, compreende..., ela falava com muita delicadeza sacudindo-se toda no chapu mas olhando-o nos olhos com preocupao: no queria ter o trabalho de subir as escadas para descer de novo. Mas ele riu extraordinariamente lisonjeado:
     - Ento, adeus!
     - Saudaes, disse ela sufocando de rir. O rapaz corou:
     - Saudaes, disse sem fit-la. Afastou-se devagar procurando ser elegante aos olhos de Lucrcia mas percebia-se que perdera o modo natural de andar. A moa assistiu a ele acenar aliviado ao entrar pela primeira rua. Ela mesma respondeu movendo os dedos acima do chapu. Ento deixou de sorrir, ficou seca, inexpressiva por um momento. Esperou um pouco.
     Inclinou-se at ver o relgio da coluna. Aguardava pensativa, era difcil preparar-se mais uma vez. Afinal, olhando de um lado e de outro, saiu.
     O movimento das ruas havia se acalmado e a luz da tarde estava aguada e descolorida. Na esquina a carroa parecia fantstica... os cabos e as rodas num hlito de luz. O rosto da moa avanava leve, com ateno. J entrevia mesmo a praa de pedra cheia de cavalos amarrados. Junto da coluna do relgio ficou de p a esperar. Com o pensamento cego e tranqilo pela espcie de luz.
     As pessoas de longe j eram negras. E entre as lajes os fios de terra estavam escuros. Lucrcia Neves aguardava area, sossegada. Ajeitando sem olhar os laos do vestido. A praa. Que aspecto. Que umbral. Ela no o transpunha. O ar mais fresco deixava-lhe as mos brancas e a moa parecia regozijar-se com isso: mirava-as de quando em quando, exata. Acima das lojas a mesma expresso insignificante e inconfundvel de Perseu oscilava - a moa a reconheceu: era S. Geraldo ao entardecer. Ela esperava.
     Tambm o subrbio, quela hora, chegara ao seu derradeiro estgio. Seria agora impossvel substituir uma porta, um poste. Ou a esttua eqestre. Ou um dos homens impessoais que passavam sem tocar o solo. A respirao arquejada dos cavalos fazia a vida preciosa ao redor... Estar de p talvez desequilibrasse a moa que trocava de quando em quando a posio dos ps: tambm ela com uma sensibilidade superficial que mais um instante para dentro se tornava inabordvel; em momentos tocava nos cabelos e estremecia arrepiada de si prpria, os cavalos imveis batiam um instante os cascos na pedra sem cor. O rosto da moa no dizia nada. A boca dura, delicada. Era o fim do dia.
     Afinal Felipe apareceu fardado, o rosto vermelho. Quanto mais ele se aproximava na luz, mais ia se tornando impossvel olh-lo. At que chegando perto e ela deixando de v-lo, ele se tornou um guerreiro. Ela apertou sua mo com a timidez que a distncia entre os encontros criava. Mas o tenente destruiu depressa a submissa infamiliaridade da moa segurando-a pelo brao invisvel de tal modo ela no olhava, quase mudo, de tal modo ela j ouvia pouco:
     - Minha beleza de azul, vamos ver logo a gua que eu tenho de dormir cedo, amanh  dia de treino. E ainda por cima o demnio do cavalo est dando pra trs.
     Assim disse um homem. E Lucrcia sorriu com desagrado e delicada lividez, j possuda pela luz do subrbio. Deixou-se montonamente guiar de novo atravs da Cancela para o riacho que ele chamava de gua - atrs da ferrovia. Onde ficariam sentados na pedra. Felipe falava e perguntava invisvel, a moa adivinhava que ele torcia o pescoo de quando em quando, num gesto que lhe dava grande beleza e liberdade extra-humana: novo hbito seu depois que fora afinal admitido na cavalaria; e tambm ela procurava imit-lo com ateno, imitando um cavalo. Depois que mudara de armas, tudo o que o perturbava era afastado facilmente, tenente Felipe agora parecia sempre montado. Era assim que ele desviava a moa das pessoas, ambos cavalgando o mesmo corcel atravs da multido cada vez mais invisvel. Aquele ser familiar e distante, o forasteiro destro no tiro, pois ento um guerreiro! a moa aproveitava com sono brando a companhia de um tenente. Se o militar tivesse desejado, Lucrcia Neves se prenderia a ele, seno pelo amor, ao menos por uma admirao sem limites em que era capaz de cair, aprofundando-se o que nela havia de doura e de escuta - pois esta era a sua natureza. Mas o tenente no queria, ele era livre. E assim como a moa nunca o olhara verdadeiramente, temendo turvar superfcie to ntida, tambm ele quase no a olhara porque no a conhecia; mais tarde, tanto um como outro, esqueceria os inteis traos do companheiro.
     - Malditos! disse Felipe de boca torcida chutando a pedra onde topara.
     E ela de sbito feliz, assustada. O nariz de Felipe empalidecera de clera. Tudo o que a moa amava no tenente era a ira espumante em que ele podia cair. Malditos ! disse ainda. E virando-se em galanteria: "vamos ver a gua, minha beleza". Mas ela ainda se rejubilava olhando em direo ao morro do pasto onde s  noite as bestas ergueriam crinas em relincho: malditos! Adiantaram-se na vasta luz descorada e l estava a gua.
     Coisas mortas encostavam-se aos escolhos. Ficaram de p espiando. Felipe fumava. Mas cada coisa  mo era distante  moa, esta possua apenas os olhos. Ela prpria fora de alcance.
     E assim estava a cidade quela hora.
     A terra em torno da gua era humosa, fecunda, exalante - Lucrcia Neves a respirava com impotncia e delicadeza. De tanto fitar o crrego sua cara prendera-se a uma das pedras, flutuando e deformando-se na corrente, o nico ponto que doa, mal doa tanto boiava e sonhava na gua. Aos poucos ela no saberia se olhava a imagem ou se a imagem a fitava porque assim sempre tinham sido as coisas e no se saberia se uma cidade tinha sido feita para as pessoas ou as pessoas para a cidade - ela olhava.
     A um movimento de Felipe ela se lembrou num sobressalto de sua presena  esquerda... rapidamente ergueu o ombro esquerdo at com ele tocar o ouvido, guardando-se do tenente com doura ferida. Pensou, quase despertando e erguendo as orelhas em escuta, pensou que o estrangeiro diria: que imundcie! quase o ouviu blasfemar e reencostou o ombro no ouvido, acuada, corcunda. Estava cheia de livre rancor, o riacho era metlico, e um pssaro sobrevoou as guas sujas! o ombro alisava em asa o ouvido, deslocava o chapu, o vento soprava sobre a cidade de ao. Mas Felipe amarrava o cordo dos sapatos assoviando na claridade, e nada dizia. O que ele no dizia perdeu-se afinal no crepsculo imenso e azulado. A moa ento se ps a escutar o assovio melodioso do militar.
     At que mais um tom decaiu na tarde. Tudo agora estava de perfil, os beirais dos telhados se recortando no vazio... Ela desencolheu o ombro, interrompendo imediatamente o banho de gato que o assovio tornara to ntimo. Estava agora toda aprumada: mas nenhum rumor se ouviu: uma luz fraca acendeu-se no ar.
     E aos poucos, como se tivessem adormecido, ficou muito tarde, e transformado.
     As coisas cresciam com profunda tranqilidade. S. Geraldo se mostrava. Ela de p diante do mundo claro. Felipe falava com rumor perdido... Mesmo os rudos do subrbio vinham desmanchados em plida salva de palmas. A moa olhava de p, constante, com sua paciente existncia de falco. Tudo estava incomparvel. A cidade era uma manifestao. E no limiar claro da noite eis que o mundo era a orbe. No limiar da noite, um instante de mudez era o silncio, aparecer era uma apario, a cidade uma fortaleza, vtimas eram hstias. E o mundo era a orbe.
     Nesse novo universo, a uma distncia de abismo, estava o parafuso no cho.
     Lucrcia Neves olhava da prpria altura o horror do objeto. Coisas terrveis e delicadas jaziam no cho. O parafuso perfeito. A moa respirava o odor de chumbo da claridade. E virando-se - l estava S. Geraldo: anunciando, inexplicvel, pousado com a dureza de um p. Cada objeto hiperfsico. Os sinais. A moa moveu suavemente as patas.
     Mais um tom decaiu. Agora, na cor escurecida do ar, cada torre, cada chamin se aprumou de sbito... Seria o momento de desembarcar e tocar afinal em todas as coisas. A cidade permitiria que se apalpasse arrepiada sua pedra? antes de fechar-se sobre a ousada presa, elevando seus muros com mais uma laje...
     - ... que horas so... indagou ela com gentileza. Felipe coou o pescoo, levantando o queixo iluminado :
     - As mesmas de ontem a essa mesma hora... Lucrcia Neves riu, os lbios secos partiram-se com ardor em vrios talhos sem sangue. A moa umedeceu os lbios com a longa lngua de ave, olhando para os lados, instintiva, desconfiada. De p, junto s guas escurecidas, o tenente e a moa estavam cada vez mais fracos sob a claridade extrema da cidade. O subrbio erguia-se at onde podia. A luz no parecia decair mas alar-se, com irrespirvel esforo,  luz. A esse esforo S. Geraldo tornara-se extraordinariamente exterior, as pedras leves. As coisas se mantinham  prpria superfcie na veemncia de um ovo. Imunizadas. De longe os sobrados eram ocos e altos.
     A torre cilndrica da usina.
     Fosse este um mundo de heris que perfil assustador teria.
     - No, de verdade, Felipezinho, que horas so, ronronava a moa inquieta e atraente.
     Mas quando S. Geraldo se manifestava, manifestava-se igual a si mesmo, sem se revelar.
     - J no lhe disse? insistiu o tenente examinando-a na penumbra esverdeada com um interesse maior.
     Ela riu muito, sacudindo a cabea vazia com graa e espanto, batendo de leve no uniforme... o crepsculo se alargou ento, um florete fincara-se trmulo no ar! a cor do vestido da mocinha empalideceu de sbito com desfalecimento, os laos estremeceram, as pulseiras se aprofundaram em insgnias roxas... S. Geraldo mal se mantinha.
     - Vamos, disse Felipe, e a voz do homem soava como afastar ramos, e como passos.
     Recomearam a caminhar em direo ao centro. As superfcies adelgaavam-se cada vez mais, embora dentro de cada coisa ainda estivesse escuro e brilhante.
     Mais um momento porm - e uma flor amoleceu de sbito no talo, razes adoaram-se na terra podre, os arcabouos dos sobrados ruam - a cidade inteira fremia depois de desmoronar.
     Passara o perigo. Era noite.
     Restava apenas a reverberao instantnea da pedra, um rebrilhar no homem que passava. Uma luz se acendendo no ar j noturno que cheirava a po... E agora uma exterioridade agradvel de velha raiz. Mas tudo de novo intocvel. O mundo era indireto.
     Lucrcia estava fatigada e inocente, tenente Felipe olhava as nuvens com preciso sem v-las. E afinal entraram na rua que os levaria ao centro. O subrbio se escurecera e se iluminara como um navio. Agora mesmo  que estava invisvel... s se viam os raros lampies e as pequenas zonas aclaradas. O resto eram basties em trevas. Lucrcia andava com segurana sonhadora em companhia de um militar. Este sorria um pouco, o cavaleiro, observando-a de travs. Para afinal dizer, to simptico e feliz - parecia vir de um prado onde correra livre:
     - Por que voc  to egosta e no me d um beijo?
     Esquecendo de no olh-lo, a moa o viu de perto - agora de novo invisvel de to prximo. Ela respirou o ar da quase noite. O cheiro da farinha quente pelas ruas e sua me esperando para jantar num primeiro andar. Que escurido fazia.
     Quase alegre, afinal, rasgando as finas veias da noite, a moa ergueu-se sobre as patas, respirou profundamente lanando o seu grito de guerra - e quando ele estava perto, tocvel nos botes - apunhalvel __ enrolou a voz, perdendo aos poucos o uso da fala:
     - Nunca! disse rindo antiptica em glria, no seu intil brado de conquista de S. Geraldo, nunca! eu mordo voc, isso  que , Felipe... Felipe! chamou na escurido, eu piso voc, isso  que  beijo! disse j sria, toda concentrada nos ps que sapateavam.
     Felipe abriu a boca em espanto. E assim ficaram se olhando, assombrados, curiosos, arrepiando-se cada vez mais. Afinal ele riu falsamente, procurando libertar o pescoo:
     - Sem nenhuma educao  o que voc ! - uma criana correndo desencadeada atravessou-os pelo meio. - E a culpa  minha de andar com gente dessa laia, essas devem ser as maneiras deste seu subrbio imundo! disse ele j com prazer, insultando-a bem na sua cidade.
     Ambos recuaram abrindo uma pequena clareira, eriados, mexendo-se cautelosos. Na penumbra o tenente quase ria de clera. A moa no riria jamais, plida. Ao mesmo tempo poderia de repente dar uma cambalhota no ar.
     Foi o que o rapaz pareceu pressentir e recuou ainda mais. E afinal depois de um pequeno esforo ele virou as costas.
     Lucrcia estremeceu enorme alando-se nas pontas dos ps: nunca este forasteiro iria embora com a vitria. Essa inspirao nova e dolorosa, como gua entrando-lhe pelo nariz, e ela espadanando o grande corpo de animal para se manter  tona:
     - Olhe!
     Ainda no sabia o que ia dizer mas era urgente, tratava-se de lutar pelo reino. Viu o rapaz voltar-se em esperana - daquela distncia a farda brilhava bela, perdida, o seu objeto mais lindo. E Lucrcia Neves a olhou decepcionada.
     A rua piscava de escurido e luz. Figuras hesitantes de moas comeavam a se mover ao longo das paredes, procurando. As mulheres da cidade. O cheiro das pedras invisveis dos sobrados e a nusea dos bicos de gs se misturavam ao vento novo - a moa se reviu anos atrs correndo para buscar o po do jantar, voando entre as ltimas pessoas da noite, aterrorizada pelo vulto escuro do morro, ela mesma assustadora na corrida...
     - Olhe! disse. Porque no beija a sua av, ela no  de S. Geraldo! lanou-lhe afinal trgica, alto para que todos ouvissem.
     Era horrvel, e ela fremia toda na escurido. Enquanto o tenente envergonhado torcia o pescoo e ajeitava o uniforme insultado em pblico - algum se interrompera na sombra da calada sorrindo com grande interesse. Fora o encontro no ar de dois cavalos, ambos escorriam em sangue. E no teriam parado at um ser o rei. Ela o desejara porque ele era um forasteiro, ela o odiava porque ele era um forasteiro. A luta pelo reino. Lucrcia Neves empurrou com o cotovelo a mulher que espiava fazendo-a dar um gritinho de pavor. Endireitou violentamente o chapu, sacudiu no ar a pulseira. E de cabea erguida, contendo uma vertigem que a faria voar acima das chamins - foi saindo vagarosa, cheia de laos trmulos.
     Estava excitada, de quando em quando dava uma rabada com uma das pernas na cauda ausente. Mas ao atravessar a rua, sem poder esperar, comeou a contar-se o que sucedera, em todos os detalhes; tinha olhos duros e lbios escorrendo de saliva enquanto narrava: "ento eu disse a Felipezinho: s um criminoso ousaria!" Oh, Perseu, murmurou ela de sbito voltando o pensamento para aquele que nunca a afrontaria.
     Mas Perseu vestia-se como um lavrador. E a moa j estava precisando, nas suas ruas de ferro, da fora armada.
     Chegou  rua do Mercado j noite feita. Continuava a examinar-se inquieta como se pudesse estar rasgada. E perder o tenente... E ele ainda seria Capito!... Oh, oh, Felipe! chamou.
     Engano a todos, no quero nada, pensou com despeito agarrando-se s luzes que o acendedor de lampies aclarava. Mas de um modo geral gostava tanto de homens. Oh, Felipe, disse com pena.
     O que a espantava, passando pelo aougue fechado,  que ningum falava em casar-se com ela. S Mateus que a respeitava com um desejo paterno e cerimonioso, visitando a me para conseguir a filha. O que j comeava a atra-la, isso tinha um ar familiar e repugnante, cheirava enfim ao que se chamava de verdadeira vida. Mateus que a espreitava fumando charuto. Com ele, ela teria um futuro luxuoso e violento... A moa bem que ansiava por casar.
     Ah, uma notcia, uma notcia, pediu de sbito com aflio, oh, encontrar afinal em casa um portador de longe, as roupas empoeiradas, malas no corredor, e que tirasse uma carta da sacola de couro. E enquanto sua me servisse um clice de licor ao estrangeiro, ela abriria a carta tremendo, a carta que a levaria para longe!
     Porque S. Geraldo a asfixiava com sua lama e seus cravos boiando nos esgotos.
     Ana acendera as dbeis luzes e esperava na espreguiadeira para o jantar. Era a nica espectadora. A casa imersa no silncio da eletricidade.
     E l estava o seu quarto.
     Como um piano que se deixou aberto. Que susto ver as coisas. A composio das vigas no forro era estranha e nova, como de uma cadeira dependurada... Tirou os sapatos olhando para cima, guardou o chapu alisando-o, contando com o dia imprevisvel de amanh. De repente aprumando-se.
     Pegou um leno, tapou o nariz. O leno veio molhado de sangue. Inclinou a cabea para trs como lhe haviam ensinado. Aproveitando para olhar as vigas do teto. O lquido escorria morno e o aposento cheirava a sangue. Assim ficou, sem impacincia, arquejando um pouco. A boca emudecida pelo pano, os olhos engrandecidos. Afinal afastou o leno. Entre o nariz e a boca o sangue secara dando ao rosto um ar imundo e infantil. Mais uma vez ela voltara ferida.
     Feia, desmanchada sob os cabelos arrepiados, fungando de vez em quando; passara o assombramento e ela voltara aos grandes sapos. Mas tambm permanecia inteira - lutava sem se gastar, ela era horrvel, a patriota.
     Tirou o vestido e, transpirando na combinao pregada ao corpo, respirou de olhos cerrados. Os cabelos escondiam metade da cara atingida. Lucrcia Neves limpava a testa com as costas da mo como se tivesse levado uma surra, consolando-se como podia. Estava suja e ensangentada. Fungava humilhada alisando o ouvido com o ombro.
     
CAPTULO QUARTO
A ESTTUA PBLICA
     
     ERAM TRS OS degraus para a sala de jantar e a diferena de nvel dispunha o aposento em profundeza. A m eletricidade do subrbio, ento distribuda apenas por algumas casas, construa  noite um compartimento cheio de estruturas e ncleos onde o tique-taque do pndulo tombava preciso - crculos concntricos se apagando nas sombras dos mveis. Abafadores de bule amarelecendo, o passarinho empalhado, a caixa de madeira com vista dos Alpes na tampa, eram a presena minuciosa de Ana.
     A casa parecia ornamentada com os despojos de uma cidade maior.
     - Voc est cansada? perguntou Ana da cabeceira da mesa, franzindo os olhos como se a filha estivesse longe e a luz entre ambas fosse forte.
     Lucrcia no gostava deste aposento to impregnado da viuvez feliz de Ana. Para entend-lo seria preciso continuidade de presena, parecia pensar a moa procurando olhar cada objeto: eles nada revelavam e guardavam-se apenas para o modo de olhar da me. Que os deslocava e os espanava - afastando-se em seguida um passo para trs, como se os estivesse esculpindo, para examin-los de longe com delicadeza de mope - um olhar de lado. Os prprios objetos agora s podiam ser vistos de vis; um olhar de frente os veria vesgos. Depois de examin-los Ana suspirava e fitava Lucrcia em sinal de que j estava desocupada; Lucrcia desviava os olhos para o teto, grosseira.
     Cada vez mais Ana procurava se aproximar, ansiosa por lhe participar os insignificantes segredos que a sufocavam: de fato j se queixava de no dormir de noite. Lucrcia desviava os olhos.
     H muito tempo solitria, e amando aquela viuvez sem os sobressaltos que podem vir de um homem, a mulher comeava porm a inquietar-se - e a tentar arrastar a filha para uma intimidade onde ambas construiriam compensaes sorrateiras, suspiros e regozijos, aquele prazer de costureira com a sua costura, Ana que se rejubilava quando havia alguma roupa a emendar.
     Inutilmente procurava o apoio da filha pedindo-lhe com o olhar paciente o sacrifcio. Em que consistiria o sacrifcio, ambas no precisavam saber: mas Ana pedia Lucrcia negava - e nasciam pedidos e negativas secundrios, sem importncia neles prprios mas enormes na sala de jantar, carregados da mesma obstinao: por que Lucrcia no passava os seres com ela na sala de jantar?
     Mas se a moa enfim cedia - a sala e Ana a rodeavam radiantes, as xcaras faiscando, a vista dos Alpes em extraordinria evidncia, nada porm podendo ser olhado de frente - embora Ana tentasse ensin-la a ver pelo lado da beleza, indicando aqui e ali:
     - A cristaleira fica muito mais bonita com meu passarinho na primeira prateleira, v-se muito mais, hem, menina, dizia.
     Mas era apenas um modo de ver, e nada mais.
     E quando Lucrcia estava na sala de visitas, o que se chamava "descansar depois do jantar, mame" - a porta podia se abrir e Ana aparecer com um sorriso malicioso, carregando consigo a bagagem de novelos, agulhas e bastidores: pronta a visit-la. A moa porm nada lhe mostrava. Ana se sentava cerimoniosa e sonhadora sem desenrolar o bordado - olhando com alguma curiosidade os bibels, a mesinha, esta sala de visitas que raramente recebendo visitas se tornara o segundo quarto da filha. Abandonada a si mesma, aos poucos Ana Rocha Neves falava de sua juventude, com detalhes que a sufocariam se no os transmitisse com exatido: parava s vezes longo tempo at decidir da hora em que acontecera um fato. E pensando falar sobre si mesma, descrevia apenas o lugar onde vivera quando sara da fazenda at encontrar marido:
     - Aquilo sim  que era cidade, menina, e no esse buraco: at cavalo tinha guizo, e igreja era igreja, casa era casa, rua era rua - no esse buraco com sobrados que a gente nem entende.
     Apesar dos pormenores, que cidade perdida fora aquela, e que juventude confusa! a me fora alegre e medrosa na sua cidade, s isso afinal. E quando terminara a revoluo, o silncio a assustara, ela fora dormir na cama da irm.
     Era isso o que na histria alertava Lucrcia Neves. Tambm a moa parecia conhecer esse medo que no era medo, apenas arrepiar o dorso diante de uma coisa. Uma vez ela fora ao museu estadual e tivera medo de estar de guarda-chuva molhado num museu. Assim sucedera. Tinha medo de ver, num mesmo olhar, um trem e um passarinho. E de um homem com anel de brilhantes no dedo mdio: Mateus. Seria imobilizada se esse dedo a apontasse.
     Tambm a um movimento seu na cama formava-se s vezes nas rosas da parede um ser aleijado e contente - ento ela se arrepiava como o cachorro late para um guarda-roupa.
     Inquieta com o silncio, Ana mexeu-se na cabeceira da mesa, estendendo-lhe o prato de po. Mas a moa a olhou.
     E ento recomeou o jogo. Lucrcia Neves retirou a fatia e colocou-a com deciso na mesa, sem toc-la.
     Esta estupidez fora um dia a cena inicial de longa conversa sobre falta de apetite que terminara em acusaes de amor e tristeza, e ficara sendo o sinal secreto de partida. Ana recebeu imediatamente a breve mensagem. Respondeu-lhe com olhos desmesurados fixos no prato: o que j era fingido. Comeara alguma coisa. As duas mulheres se tornaram sonsas e sagazes, correndo cheias de cuidado como ratos pela sala em penumbra - e assumindo o carter desconhecido de dois personagens que elas jamais saberiam descrever mas que podiam imitar, apenas imitando-se.
     Foi quando comeou a cair uma chuva macia e cantante, o vento abriu a janela. Ana, impaciente com a interrupo, ergueu-se para fech-la, e toda a sala ficou mais interior: as duas estremeceram de gosto, trocaram um olhar de amizade.
     - Hoje fiquei to cansada, at parecia que ia morrer, iniciou Lucrcia com um suspiro de deciso.
     - Foi mesmo? disse a me esforando-se para que Lucrcia percebesse seu interesse atravs do tom cerimonioso que adotava quando iniciavam uma "cena". Que coisa! acrescentou um pouco tola, fingindo compreenso especial.
     Mas dessa vez certa tristeza tomou aquela mulher que, um pouco sonhadora, alisara o garfo. Quase sorria mesmo. De outras vezes, quando a filha a tocava, Ana se sobressaltava e ainda tentava trotar entre as coisas. Mas hoje arfava ligeiramente. Foi mesmo? repetiu inclinando um rosto a que algum pensamento de tranqilo desespero deu uma expresso de amor to luminoso que se algum a visse teria visto o amor.
     A certeza de uma grande experincia, apesar de sua vida reclusa, tomou essa mulher mais do que madura. Olhou com alguma piedade aquela moa  sua frente, cheia de estpida juventude, a quem jamais se poderia ensinar a... a... bondade? que bondade? ela teria que aprender sozinha.
     Que coisa! disse Ana Rocha Neves decepcionada.
     A moa ento respondeu que se morresse - "afinal que importava? a me no choraria sequer".
     Se fossem despertadas, talvez se surpreendessem de que, usando meios to precrios, pudessem cair to plenamente no jogo. Mas j no precisavam de grandes preparaes para entrar nos dois personagens, e os incios eram cada vez mais rpidos agora, quase impacientes.
     "A me no choraria", disse Lucrcia, e isso ofendia Ana. Tornara-se claro, entre as pancadas da chuva, que se a mulher no choraria, no era Lucrcia quem perderia - pois nesse momento seria a humildade e a morta.
     A moa prosseguiu: a senhora nem havia de chorar como por exemplo Perseu nem chorava... Ana concordou rapidamente vingando-se do rapaz que lhe roubava tantas horas da filha.
     Mas, concordando que Perseu no choraria, aceitara um dos dados da sentena - e a prpria comparao tornou-se impossvel de contrariar. A mulher silenciou enquanto Lucrcia ganhava em fora e certa amargura por convenc-la to facilmente. A experincia deveria ter-lhe ensinado que era intil esperar que a me protestasse. Sobretudo o personagem que coubera a Ana parecia ter um carter ainda mais fraco do que o real.
     - Porque a senhora ficaria s, nem precisaria pagar minhas roupas, mame, e se sentisse falta de companhia podia at arranjar amigas...
     Ana agora quase sorria s esperanas que Lucrcia lhe dera; e com os olhos perturbados, j mergulhados no futuro, quase concordava.
     - E a senhora podia casar com o pai de Perseu..., prosseguiu dessa vez horrorizada em imaginar aquele homem sangneo desprezando sua mezinha. Nunca ousara tanto e ambas se olharam surpreendidas. A mulher mexeu-se afinal na cadeira, ruborizada:
     - Ora menina!... - disse com coqueteria. Lucrcia teve medo e acrescentou cautelosa:
     - Ou, ento no, queridinha, s viver com mais conforto...
     Ana assentiu rapidamente com a cabea - por um curto instante fitou e desfitou a filha, sorrindo desconfiada.
     Mas diante do olhar contente de Ana a moa no suportou mais, e alguma coisa enfim se quebrando desafinada, ela engoliu a comida, ergueu-se correndo e estava ajoelhada junto da me que a fitava aterrorizada e vermelha de prazer...
     - ...mame como a nossa vida  triste! gritou abafada pelas pernas da mulher. (E os bailes, e os bailes? dizia-lhe o demnio.) Ana balbuciou qualquer coisa, cheia de pudor, ofendida: no acho! murmurava quase altiva.
     Mas enquanto mantinha o rosto sufocado, e toda a sala que ela no via girava tonta, a moa parecia descobrir que no era de tristeza que gritara.  que no podia suportar aquela muda existncia que estava sempre acima dela, a sala, a cidade, o alto grau a que chegavam as coisas sobre a prateleira, o passarinho seco prestes a voar empalhado pela casa, a altura da torre da usina, tanto intolervel equilbrio - que s um cavalo sabia exprimir em clera sobre as patas. Tanta alegria que jamais se quebrava - e que s s vezes a banda de msica do quartel rompia fazendo enfim todas as janelas da cidade se abrirem.
     Quando a moa se ergueu tinha o rosto tranqilo.
     As coisas estavam pousadas ao seu redor, muito calmas. Xcaras de caf fumegavam, a me sentada, mesa e toalha, tudo de novo inconquistvel.
     Sentou-se para tomar caf. Talvez pensasse de como seria burlesca a vida de ambas se elas se falassem? e de como S. Geraldo se destruiria se, em vez de espi-lo mantendo-o fora de alcance da voz - algum falasse enfim. Se Ana e ela conversassem, ela teria tantas vezes antes quebrado a prpria resistncia com uma sinceridade. Mas entre pessoas sem inteligncia no havia necessidade de se explicar.
     - Ai, Lucrcia, o minha filha, no tenho dormido bem, disse Ana desamparada pela independncia de Lucrcia, a quem a rpida entrega no parecia mais alterar.
     - Mamezinha, a senhora precisa sair um pouco mais de casa.
     - Deus me livre, minha filhinha, ai, meu Deus. Antes que Ana prosseguisse, prendendo-a para uma
     longa conversa, a moa ergueu-se, atravessou o corredor e entrou na sala de visitas. Onde as luzes das outras casas tornavam intil acender a lmpada. Pegou ento no par de sapatos e comeou a engrax-los devagar na penumbra. De incio um pouco irreconhecvel, aps um instante a sala retomava sua antiga posio tendo como centro a flor. O esprito era o vento, o noroeste soprava com insistncia, quebrado pelos sobrados da rua.
     O aposento era repleto de jarros, bibels, cadeiras e paninhos de croch, e nas paredes de papel florido amontoavam-se folhas recortadas de revistas e de antigos calendrios. O ar sufocado e puro de lugares sempre fechados, o cheiro das coisas. Mas em pouco comearia o leilo e os objetos seriam escancarados? nada impediria mesmo que a porta se abrisse - o vento prenunciava portas bruscamente espalancadas.
     Esfregando mais lenta os sapatos, a sonhadora moa examinava com prazer sua fortaleza, no a espreitando mas olhando-a diretamente: preparava-se para estar diante das coisas com lealdade. Insistindo em se pousar como sobre o morro do pasto - assim olhava ela. Nessa moa, que de si sabia pouco mais do que o prprio nome, o esforo de ver era o de se exteriorizar. O pedreiro construindo a casa e sorrindo de orgulho - tudo o que Lucrcia Neves podia conhecer de si mesma estava fora dela: ela via.
     A coragem porm era decidir-se a comear. Enquanto no iniciava, a cidade estava intacta. E bastaria comear a olhar para parti-la em mil pedaos que no saberia juntar depois.
     Era uma pacincia de construir e de demolir e de construir de novo e de saber que poderia morrer um dia exatamente quando demolira em vias de erguer.
     No meio de sua ignorncia sentia apenas que precisava comear pelas primeiras coisas de So Geraldo - pela sala de visitas - refazendo assim toda a cidade. Plantara mesmo primeira estaca de seu reino olhando: uma cadeira. Ao redor porm continuara o vazio. Nem ela prpria podia aproximar-se desse campo criado que uma cadeira tornara inabordvel. Nunca pudera ultrapassar a serenidade de uma cadeira e dirigir-se s segundas coisas.
     Embora, enquanto olhasse, se passasse um tempo que um dia se chamaria de aperfeioamento? aqueles longos anos que se passavam atravs de momentos espalhados: atravs de raros instantes Lucrcia Neves possua um s destino. Como era lenta, as coisas  fora de serem fixadas ganhavam a prpria forma com nitidez - era o que s vezes conseguia: atingir o prprio objeto.
     E fascinar-se: porque eis a mesa no escuro. Elevada acima de si mesma pela sua falta de funo. As outras coisas da sala ingurgitadas pela prpria existncia, enquanto o que pelo menos no era macio, como a mesinha oca de trs pernas - no possua, no dava - era transitrio - surpreendente - pousado - extremo.
     Sinais de telegrama. Eis a forma alada da mesinha. Quando uma coisa no pensava, a forma que possua era o seu pensamento. O peixe era o nico pensamento do peixe. O que dizer ento da chamin. Ou daquela folhinha de calendrio que o vento arrepiava... Ah, sim, Lucrcia Neves via tudo.
     Embora nada desse de si - seno a mesma clareza incompreensvel. O segredo das coisas estava em que, manifestando-se, se manifestavam iguais a elas mesmas.
     Assim era. E esfregando o sapato, a moa olhou esse mundo escuro repleto de bibels, da flor, da nica flor no jarro: este era o subrbio - ela engraxava furiosamente.
     Eis a flor - mostrava o grosso caule, a corola redonda: a flor se demonstrava. Mas sobre o caule tambm ela era intocvel, o mundo indireto. Intil ser imvel: a flor era intocvel. Quando comeasse a murchar, j se poderia olh-la diretamente mas ento seria tarde; e depois que morresse, se tornaria fcil: podia-se jog-la fora tocando-a inteiramente - e a sala decresceria, andar-se-ia entre as coisas apequenadas com firmeza e desiluso, como se o que fora mortal tivesse morrido e o resto fosse eterno, sem perigo.
     Ah, ah, vibrava o ar conhecido da sala. Ah, espiava a moa com quatro sapatos. O desejo de ir a um baile s vezes nascia, crescia e deixava espumas na praia. Com os sapatos na mo Lucrcia Neves entortou a cabea e tentou sorrateira espiar a flor viva. Aproximou-se mesmo, cheirou-a desconfiada. Entonteceu de tanto inspirar, a prpria flor entontecia aspirada - ela se dava! Mas chegado certo momento - a pancada sbita do casco! - e o perfume tornou-se indevassvel. L estava a flor exausta porm com o mesmo grau de perfume de antes... De que era feita a flor seno da prpria flor.
     Assim era. E a seu lado, o menino de porcelana tocando flauta. Uma coisa sbria, morta, como felizmente jamais se poderia imaginar.
     Oh, mas as coisas no eram jamais vistas: as pessoas  que viam.
     E perto a slida porta da sala. E mais alm a mulher de porcelana sustentava nas costas o reloginho parado.
     Tudo isso era a miniatura da igreja, da praa e da torre do relgio, e neste mapa a moa calculava como um general. Que diria ento se pudesse passar, de ver os objetos, a diz-los... Era o que ela, com pacincia de muda, parecia desejar. Sua imperfeio vinha de querer dizer, sua dificuldade de ver era como a de pintar.
     O difcil  que a aparncia era a realidade.
     Agora a chuva caa em grandes pancadas.
     Nesse nterim algum tempo se passara. E se nada se transformara, a noite j perdera a sua data, e cheirava a cal mida. 
     A moa abriu distrada a revista, e na penumbra mal se reconheciam as figuras. Mas l estavam as esttuas gregas... Uma delas talvez fosse apontar?... porm no tinha mais brao. E mesmo haviam-na deslocado do lugar que ela indicava com o toco de mrmore que restara; cada qual deveria ficar na sua cidade porque, transportado, apontaria no vazio, assim era a liberdade das viagens. L estava o toco de mrmore. Na penumbra. Que aspecto! a moa largou a revista, ergueu-se - que faria at casar? seno andar de um lado para outro - e abriu as portas da varanda com curiosidade.
     Mal as entreabriu a grande noite entrou com o vento espalancando-as - mas aps a primeira rajada sentiu-se apenas o latejar da escurido, as luzes da rua quase se apagando sob a chuva.
     Na esquina uma carroa de lamparina acesa se arrastava fustigada. Quando as rodas se perderam na distncia nada mais se ouviu.
     L estava a cidade.
     Suas possibilidades aterrorizavam. Mas nunca esta as revelou!
     S uma ou outra vez um copo se partia.
     Se ao menos a moa estivesse fora de seus muros. Que minucioso trabalho de pacincia o de cerc-la. De gastar a vida tentando geometricamente assedi-la com clculos e engenhos para um dia, mesmo decrpita, encontrar a brecha.
     Se ao menos estivesse fora de seus muros.
     Mas no havia como siti-la. Lucrcia Neves estava dentro da cidade.
     A moa se inclinou para fora, escutava, olhava, ah, chuva com vento, dizia seu calmo sangue, ela se inclinava, escutava, ah! respirava Lucrcia quebrando-se de encontro s grandes escurides alm da Cancela: devia estar chovendo nos trilhos desertos.
     Adivinhavam-se mesmo as luzes banhadas da estao. No morro do pasto, na tempestade, que fariam os cavalos molhados?
     Os relmpagos abrindo clareiras e iluminando por um segundo o plo escorrente, as pupilas perigosas de humilhao. Os eqinos! depois os troves rolavam pacientes e fechavam o morro em escurido. O rosto de Lucrcia Neves se esforava curioso alm de sua prpria figura, escutando. Mas s se ouviam as ruas escorrendo com a chuva...
     Apoiando-se ento nas venezianas ela murmurou: ah, eu bem queria ter a fora de uma janela, murmurou-se baixo, e atravs dessas palavras disfarava talvez outras mais antigas,  procura de um rito perdido. Inexplicavelmente com mais esperana, tentava agora excitar sua ira at chegar  prpria fora, trotando atenta, experimentando tocar nos objetos - at que acertasse naquele que seria a chave das coisas, tocando a porta com mo delicada e com uma serenidade que tambm esta jamais romperia o prprio limite - tal o extraordinrio equilbrio em que tudo se mantinha.
     Uma notcia, pensou com outras palavras, excedendo-se em nova clera - e escutando em esperana: mas a noite rodeando a torre do relgio era a resposta.
     Moveu-se adormecida, bocejando furiosamente sem iluso, farejando de perto o cheiro de cadeiras que o vento erguia e dissipava - j estava desgrenhada como se tivesse trabalhado em tarefas grosseiras. Venha a mim, ensaiou ruborizando-se... Um novo trovo rolou com tristeza, a moa ronronou de prazer. Venha a mim, disse com outras palavras. Nem ela prpria respondeu. A chuva cantava nos canos. Bocejando ajoelhou-se diante do sof, afundou o rosto na almofada: sempre repousava depois do jantar.
     E o mofo que vinha da velhice bem cuidada do mvel.
     No entanto eu tenho tido pacincia, pensava passando os dedos pelas nervuras do couro; tivera pacincia atravs de tantos passeios e de chapus com abas.
     A notcia, forava-se ela vazia. Os cavalos imveis na chuva. Ah, dizia em clera e humildade, as mos sonolentas entranando uma mecha de cabelos.
     No sabia por onde recomear a ter esperanas, a sala cobriu-a numa vaga, mas ela mantinha os olhos abertos dentro da almofada, uma cabea decepada no Museu: sonhava curiosa no escuro, os cavalos se moviam no morro, trocadas as posies do jogo.
     Foi ento que ouviu passos na calada.
     Com mais um esforo de ateno, passou a ouvi-los pelas escadas.
     Eles se aproximavam. A moa aguardava com a inteligncia curta, os sentidos alertas. O ombro esquerdo alisava sonso o ouvido, a cabea na almofada... Afinal os passos estacavam junto da sala. Com dificuldade de ouvir, Lucrcia Neves inventou ouvir a porta ranger.
     Interrompeu-se, a pena de avestruz na mo e o papel a meio escrito sobre a escrivaninha. Mais um esforo de inveno, e sua mo pousava sobre largas saias. Inclinou o rosto plido que agora bandos emolduravam: sua face estava enobrecida pela pacincia. Com a pena erguida na mo, olhou afinal. A porta se abria e o vento penetrava fazendo vacilar a sala. Um homem apareceu e a gua escorria de sua capa. Quando pensou que ele nunca falaria, o visitante disse sobre a barba ensopada: - Chegou, Lucrcia. J chegou o navio. 
     Pela primeira vez pronunciavam seu nome ressaltando-lhe o destino.
     Era um nome a ser chamado de longe, depois de mais perto, at entregarem-lhe ofegante a carta. Tirou o leno de um dos punhos, tapando a boca com a renda para esconder o tremor:
     - Bem carregado?
     O homem olhou com certa hesitao.
     - Sempre o mesmo. Carvo. Sempre carvo, Lucrcia Neves mantinha-se retesada.
     - Pode ir ento, disse-lhe com os olhos cheios de lgrimas frias, pode ir, no interessa.
     No era esse o carregamento, no era esta a notcia! O homem grande cobria a entrada da porta. Quase poderia cair para a frente, e a moa indagou-se se por acaso no estava ferido. Mas o homem agora fitava com fora os bibels, e sem sorrir desprezava a brancura fresca da porcelana.
     -  carvo, repetiu alando os ombros com ironia,  carvo...
     - V embora, ordenou com firmeza.
     A porta afinal se fechou. Lucrcia Neves pousou a pena sobre a escrivaninha e ficou pensativa.
     Piscando dentro da almofada.
     Oh, fora livre de inventar a notcia que esperava e no entanto de novo procurara com a sua liberdade as coisas fatais, tal o equilbrio. A noite pesava de chuva.
     A moa ergueu afinal a cabea do sof e toda estremunhada olhou. Sob a gua a sala flutuava diante dos olhos vindos da escurido. Os bibels luziam em claridade prpria como animais das profundezas. A sala estava ntima, fantstica, o interior sufocado de sonho... Por todo o aposento coisas inocentes se haviam espalhado em guarda.
     Tambm o rosto da moa estava embrutecido e doce, o corpo mal sustentava a pesada cabea.
     Ergueu-se sonolenta at a janela, e de fato, no instante em que tocava o parapeito, ouviu o barulho de asas. Da varanda invisvel ao lado ergueu-se a pomba espavorida no meio da chuva e em vo desapareceu.
     Como se a asa tivesse lhe batido na face, com o corao batendo desperto: "at parecia que a pomba partira de suas mos, imagine!" O erro de viso subiu em fogo de artifcio, a janela abriu-se e bateu de novo, o vento percorreu a sala arrepiando-a - no fundo da casa desperta outras janelas abriam-se respondendo - secamente a veneziana continuava a bater e todo o sobrado foi perpassado de frio e altura: o frgil primeiro andar estremecia nos vidros molhados e nos espelhos, e em torno da flor grandes vespas adormecidas fugiram assustadas, o horror ntimo da flor se libertava em mil vidas - o subrbio invadindo em trote regular a sala?... O relmpago. O aposento se revelava em claridade, a porcelana faiscava - estas coisas longamente provocadas resplandeciam aos olhos: tambm assim no! dizia estremecendo sob o mecanismo por ela mesma desencadeado. Depois do relmpago a sala se escureceu.
     A chuva corria velozmente arrastando galhadas e pedaos de troncos podres.
     A moa olhava os cantos alargados da sala, procurava prender-se  primeira salvao slida: fitou o confuso buraco da fechadura que sob a fixidez foi se aperfeioando em fechadura menor, menor, at que alcanou o prprio tamanho delicado.
     Sentindo-se mais lcida, perdera no entanto certo tempo incontvel - ela que se aproximara tanto que por um instante tivera medo de ser santificada - pela realidade? E agora bem queria prosseguir mas o vazio a rodeava e no vazio a fechadura a prendia - queria alar-se acima da fechadura mas que esforo de grito de ave era alar-se de novo, s quem voava saberia quanto pesava um corpo - a sala se iluminou em silencioso claro, fechou-se calma e latejante no escuro; a ltima vela apagada. Troves tranqilos reboaram alm da Cancela. No silncio as gotas corriam pela vidraa.
     A moa bocejou rapidamente, sem tempo. Estava de p, corcunda, humilde. Tudo parecia esperar que tambm ela batesse firme e breve com a pata.
     E entre bocejos incessantes tambm ela quereria assim exprimir sua modesta funo que era: olhar. Que sala inexpressiva, pensou de longe roendo a unha do polegar. As guas escorriam para os esgotos, lquidas, abundantes... Os bichos espalhados esperavam.
     Um instante em que ela se exprimisse e ter-se-ia colocado no mesmo plano da cidade. Um instante em que ela se demonstrasse, e teria a forma que lhe era necessria como instrumento.
     Ento, austera, tentou com honestidade dizer. Roendo raivosamente a unha, inclinou a cabea: como expresso. Mas no, nada fora dito... Olhou madeira, mesa, estatueta, as verdadeiras coisas, procurando trabalhar-se na imitao de uma realidade to palpvel! mas parecia faltar-lhe, para dizer, fatalidade maior. A moa a procurava: inclinando o torso para a frente e perscrutando-se com esperana. Mas de novo errara.
     Ento apagou tudo e recomeou. Alou-se desta vez na ponta dos ps; escutou. Surpreendendo-se em descobrir, atravs da liberdade de escolher os movimentos, a dureza de ossinhos, de pequenas leis irrevogveis e delicadas: havia gestos que se podiam executar e outros proibidos.
     Cara numa arte antiga de corpo e este procurava a si mesmo tateando na ignorncia.
     At que pareceu encontrar a simples sutileza do corpo, transformado afinal na coisa que age.
     Ento estendeu uma das mos. Hesitante. Depois mais insistente. Estendeu-a e repentinamente entortou-a mostrando a palma. No movimento o ombro se alou aleijado...
     Mas era assim mesmo. Estendeu o p esquerdo para fora. Deslizando-o pelo cho, as pontas dos dedos oblquas ao tornozelo. Estava de algum modo to retorcida que no voltaria  posio normal sem esfusiar-se em torno de si prpria.
     Com a palma cruelmente  mostra, a mo estendida pedia e ao mesmo tempo: Indicava. Erguida por uma veemncia to rpida que se equilibrava no imvel - como a flor no jarro.
     Eis o mistrio de uma flor intocvel: a veemncia jubilante. Que rude arte. Ela se reduzira a um nico p e a uma nica mo. A imobilidade final depois de um pulo. Parecia to mal feita.
     Exprimindo pelo gesto da mo, sobre o nico p, entortados com graa em oferenda, o nico rosto sacudindo-se em pantomima, eis, eis, toda ela, terrivelmente fsica, um dos objetos. Respondendo enfim  espera dos bichos.
     Assim permaneceu at que, se precisasse urgentemente chamar, no poderia; perdera enfim o dom da fala. A mo se contrapunha  cara como a outra face de seu rosto.
     "Tem mos demais", disse-se ainda e, aperfeioando-se, escondeu mais a outra atrs das costas.
     Mesmo uma s mo, e imvel, fazia com que por vezes toda a figura tivesse estremecimentos de ventarolas.
     Julgando-se porm perfeita, suspirou e manteve a posio.
     To humilde e irada que no saberia pensar; e assim dava o pensamento atravs de sua nica forma precisa - no era isso o que sucedia s coisas? - inventando por impotncia um sinal misterioso e inocente que exprimisse sua posio na cidade, escolhendo a prpria imagem e atravs desta a dos objetos.
     Nesse primeiro gesto de pedra, o oculto estava exteriorizado em tal evidncia. Conservando, para a sua perfeio, o mesmo carter incompreensvel: o boto inexplicvel da rosa se abrira trmulo e mecnico em flor inexplicvel.
     E assim ficou como se a tivessem depositado. Distrada, sem nenhuma individualidade.
     Sua arte era popular e annima. s vezes aproveitava a mo que estava atrs para coar rapidamente as costas. Mas logo se imobilizava.
     Na posio em que estava, Lucrcia Neves poderia mesmo ser transportada  praa pblica. Faltavam-lhe apenas o sol e a chuva. Para que, coberta de limo, fosse enfim desapercebida pelos habitantes e enfim vista diariamente com inconscincia. Porque era assim que uma esttua pertencia a uma cidade.
     A chuva decrescera, os canos da casa comeavam a deglutir avidamente as guas. Calma, com o rosto um pouco torto, a mocinha espiava.
     To ftil e fraca, to insignificante, aproveitando a mo que estava s costas para afastar uma vespa. Mas sem que ningum a tivesse obrigado a escolher o sacrifcio, perdia neste momento a juventude pelo smbolo da juventude? e a vida pela forma da vida, a nica mo indicando.
     E eis que de perfil, a bocejar, parecia o anjo que sopra na porta das igrejas. Entre menina e menino, o olho, j piscando de sono, a espiar de perfil.
     Embora vista de trs quartos ganhasse de sbito volume e sombras, delicadeza e opulncia: um serafim coxo.
     Na verdade pousada sem culpa como na sala de espera de um dentista.
     At que, sob o som mais macio das guas correndo nos canos, a mo estendida perdeu a eloqncia - e a cabea emergiu do desastre numa grande e instvel forma. Que diminuiu at sua solidez.
     Ento Lucrcia Neves bocejou livremente tantas vezes em seguida que parecia uma louca, at se interromper saciada.
     E desconfiada.
     Pois revia-se agora, com bastante estranheza no gesto, que gesto? que tivera a urgncia de um cacoete - e como um cacoete alarmava pelo seu lado mecnico indomvel : receou mesmo ser obrigada a execut-lo na frente dos outros... Imaginou-se a largar uma xcara de caf, a erguer-se adormecida, s depois se acomodando com alvio - na frente dos outros.
     "Tudo isto foi uma brincadeira, sabe", disse-se com pudor, "Isto" o que, em verdade? Imaginou sua me espiando e cerrou os olhos de vexame. Sups Mateus vendo sua paixo por bibels, e atravs dele no se entendia. "Eu coleciono, ento! que ! nunca viu colecionar?" respondeu-lhe bruta. Mas Mateus no apagou o charuto e ganhou.
     E atravs dele ela no se conhecia. Oh, sabia to pouco de si como o homem, que passando, a olhara e a vira alongada. E, se espiava para si prpria, via-se apenas como Ana a veria.
     Porque na verdade mesmo: ela era uma pessoa que passava pela rua, parava diante de uma vitrina, escolhia uma fazenda cor-de-rosa para admirar e dizia:  uma cor que adoro! e as pessoas diziam:  a cor preferida de Lucrcia Neves, e ela ainda explicaria: mas tambm gosto de outras! as pessoas diziam: conheo Lucrcia Neves, mora no 34 da rua do Mercado. Ela morava na rua do Mercado e tudo isso foi brincadeira, assegurou ela a Felipe que a conhecia to bem.
     Talvez nunca soubesse que estendera tolamente a mo e o p se, h semanas, no se tivesse inclinado da janela da cozinha para o quintal da loja e no tivesse percebido o caixeiro-contador de "A Gravata de Oiro"
     Sem ser vista, surpreendera-o de p ao sol. Subitamente o domem dissera apontando a lata do lixo: "fique quieta, menina". O caixeiro-contador, de p, nobre, olhava a lata com intensidade. "Fique quieta, menina", dissera. Depois parecera calmo, coberto de tristeza como se de novo uma frmula tivesse falhado.
     Sem se saber observado, estava todo ntimo e objetivo. E, to solitrio, que se tornara impudente examin-lo. Mas enquanto ele saa do quintal, j tinha um ar satisfeito, parecia mesmo cobrir-se de modstia; e esboara um gesto que parecia impedir o louvor do povo. Antes de entrar na loja ainda fungara, ajeitando as calas no cinturo. E ria em malcia, sacudindo um pouco os ombros - quem ria nele de todos? ele era magro, os ombros se inclinavam na camisa usada, e, alguma coisa ria nele, enquanto ele mesmo - impossvel de ser interrompido sem ser fulminado - olhava pela ltima vez a lata, fungando com rancor e satisfao.
     Com medo de despert-lo, Lucrcia recuara envergonhada. No mesmo dia encontrara-o ao p da escada e ele dissera apressado e cordial: boa-tarde, Lucrcia.
     Consciente de seu gesto na sala, por intermdio da lembrana do caixeiro-contador, a moa se surpreendia recomeando a entranar a mecha de cabelos. Quase no sabia o que a levara at movimento to concreto.
     Que sujo caminho era percorrido na escurido at os pensamentos rebentarem em gestos! O subrbio todo trabalhava nos subterrneos dos esgotos para aqui e ali um homem tossir na esquina.
     Tambm nela a verdade era muito protegida. O que no lhe despertava muita curiosidade. Assim como nunca precisara da inteligncia, nunca precisara da verdade; e qualquer retrato seu era mais claro do que ela.
     Embora, um pouco perplexa, percebesse que sabia tanto de si quanto o caixeiro-contador diante da lata de lixo. E, tambm como ele, se orgulhasse de, de tal forma, no se conhecer... "No se conhecer" era insubstituvel por "conhecer-se".
     A moa terminou pois por ficar muito satisfeita com a trana entre os dedos. Se possua alguma conscincia de seu gesto, enquanto o caixeiro-contador jamais pudesse saber que falara com uma lata de lixo -  que Lucrcia Neves tanto vivia se mostrando que algumas vezes chegava mesmo a se ver.
     S que se via como um bicho veria uma casa: nenhum pensamento ultrapassando a casa.
     Era esta a intimidade sem contato dos cavalos; e apenas por eles os sobrados da cidade eram inteiramente vistos. E se as luzes se apagavam progressivamente nas janelas, e na escurido nenhum olhar podia mais exprimir a realidade - o sinal possvel e suficiente seria a pancada do casco, transmitida de plano a plano at atingir o campo.
     A gua gorgolejava no sobrado e dentro da sala cada objeto recortado recuperava sua existncia pacfica.
     O que era de madeira estava mido, e os metais gelados. As runas ainda fumegavam. Mas em pouco a sala, nas suas fumaas finais, repousava como ningum a poderia jamais olhar. Apagadas as ltimas luzes.
     Embora, na escurido, a moa ainda velasse cheia de sono, sonhando em se casar - o bibel tocava flauta na sombra. Um dia ela veria o bibel, brevemente ou daqui a muitos anos, a perfeio no se apressa, o tempo de uma vida seria justo o tempo de sua morte. E pelo menos ela j possua a prpria forma como instrumento de olhar: o gesto.
     O bibel tocava na sombra e a mocinha ia-se afastando com a trana espetada no ar. Ainda via a flauta erguida. Mas sob os olhos fixos as coisas comearam a se entortar fundindo-se lentamente, a flauta foi ficando dupla at que suas formas saram fora de si - fulminada pela viglia, Lucrcia Neves cabeceou.
     A sala, preparando-se para a longa noite, estava de olhos abertos, calmos. De longe as coisas so indeterminadas - assim estava a sala.
     
CAPTULO QUINTO
NO JARDIM
     
     Pouco DEPOIS, enquanto mudava de roupa, o rosto de Lucrcia estava transviado pelos primeiros espantos do sono. Mal-assombrada como se j tivesse adormecido, interrompeu-se com o vestido na mo - chamada, fraca: mais um instante e comearia a sonhar. No banheiro nem sabia mais o que viera buscar. De novo arrastou-se para o quarto e parou  porta.
     Pela varanda soprava o vento da chuva. As coisas estavam exorcizadas, divididas, extremamente plidas... a cortina voava quase levada e o quarto hesitava como se algum acabasse de desaparecer pela janela. Havia um momento na imobilidade dos objetos que assombrava numa viso... Na sonolncia, Lucrcia Neves se eriou diante das coisas fsicas. A luz estava apagada. O aposento porm se aclarava pela exalao mortia de cada objeto e a prpria cara da moa tornou-se tocante. Fitar as coisas imveis por um momento a solevou num suspiro de sono, a prpria imobilidade a transportou em desvairamento: bocejando cuidadosa, errante entre os objetos do espao - os brinquedos da infncia espalhados sobre os mveis. Um camelinho. A girafa. O elefante de tromba erguida. Ah, touro, touro! atravessando o ar entre os vegetais carnudos do sono.
     Afrontada, Lucrcia Neves segurava o copo dgua que trouxera do banheiro. Parecia ouvir atravs do silncio algo distante - acordado - insistente - irrespondvel e urgente.
     Em breve estava na cama. Adormeceu desperta como uma vela.
     E a noite em S. Geraldo decorreu limpa, espantada.
     Formigas, ratos, vespas, rosados morcegos, manadas de guas saram sonmbulas dos esgotos.
     O que a moa via no sonho entreabria-lhe os sentidos como se abre a casa ao amanhecer. O silncio era funeral, tranqilo, um alarme lento impossvel de ser apressado. Era este o sonho: estar alarmada e lenta. E tambm olhar as coisas grandes que saam do alto dos sobrados assim como se via diferente no espelho dos outros: entortadas numa expresso passiva, monstruosa.
     Mas a alegria montona da moa prosseguia sob o rumor das correntes. O sonho se desenrolava como se a terra no fosse redonda mas plana e infinita, e assim houvesse tempo. O primeiro andar a sustentava no alto. Ela se exalava.
     O espelho do quarto.
     Mas a moa virou a cabea para o lado. O corao continuou a bater no recinto. Ento o espelho despertou-a.
     Entreabriu as plpebras, fixou cega. Aos poucos as coisas do quarto retomaram a prpria posio, recuperando o modo de serem vistas por ela. Agora acordada, sua conscincia era mais demente que o sonho, e ela coava o corpo com mos embrutecidas.
     Mas em breve continuava a sonhar atravs dos ramos, afastando-os, surda aos conselhos. Espiando tola o que via; mesmo lembrar-se do prprio momento era inatingvel - lenta, insensvel, proliferada, ela prosseguia. Procurava. O sono era a sua ateno mxima.
     A cada parada do sonho, fixava uma rua desconhecida com novas pedras. Mesmo no sono sentia falta de um modo de ver. Atenta, fustigada, ela procurava.
     Eis que sobre a pista os cavalos diminuam na distncia.
     O grito de uma locomotiva na estao cortou o quarto em lamria, sacudindo no sono todo o primeiro andar! Tocada! no meio da catstrofe, plida dentro da carruagem, adormeceu mais.
     Um apito j longnquo fez a moa estacar na parte seca do sonho, apalpando-a de olhos cerrados: um nmero tinha certo ponto inutilizvel nas contas, o fundo duro: 5721387 - era este nmero que encontrara, abaixando-se para apanhar a pedrinha. Examinando-a teimosa e inexpressiva, dando ao sonho momentos mais difceis: virava e revirava a pedrinha.
     At que um co latiu na esquina. Co latindo  destino! Chamada, imediatamente jogou longe a pedra e prosseguiu na procura sem olhar para trs. Exalava-se montona, simtrica.
      cabeceira esplendida o copo dgua.
     O tempo avanava e a noite apodrecia em grilos e sapos. No quarto o ar estava saturado da doura e do amor da hora tardia.
     A moa procurava. Envelhecendo, preparando-se para o momento em que afinal encontrasse.
     A delicadeza dos objetos pousados comeava a fatig-la, eles j pesavam nas mos fracas de sono, como doa tal equilbrio; e dizer que este talvez fosse um instrumento apenas! gemeu, arranhou o rosto. E, arrastando-se no sonho como pde, estava agora diante da escada da Biblioteca, a contar os degraus.
     
     Que vento.
     Era um trabalho paciente o de descer as escadas e subi-las, de olhar com nudez de cima, esquadrinhar a poeira, experimentar com os passos o patamar ou examin-lo por horas. Afinal decidindo-se, comeou a arear de joelhos a pedra do patamar. Esfregou o corrimo da Biblioteca com a manga, cuspiu para dar brilho.
     Esfregava, forjava, polia, torneava, esculpia, o mestre-carpinteiro demente - preparando plida todas as noites o material da cidade - e talvez no fim conhecesse - conhecia apenas de noite - a prova indireta. Areando a pedra com perseverana, inclinando-se do alto com o pano de pratos na mo.
     Prestou ateno num trao que o pano no apagaria jamais, bordou mesmo um pouco, fez rapidamente algumas compras, apanhando a bolsa cada no cho... sonhava com liberdade como uma guerra. Procurando.
     De embrulhos embaixo do brao foi enfim esperar um pouco na praa de pedra, todas as noites aquela moa ia esperar um pouco na praa de pedra, ps-se de p ao lado da esttua eqestre para esperar um pouco na praa de pedra. L estava a colina em trevas. O domnio dos eqinos. A moa olhava. Estava esperando na praa de pedra.
     De sbito deu-lhe um instinto, virou-se para o outro lado da cama com ferocidade - sonhou uma coisa instantnea, dura, a colina se recortou com a nitidez torta de um desenho mal feito! ah, ah, exalava-se o subrbio pleno e arrepiado.
     J sem tempo a moa procurava por que mesmo de noite S. Geraldo... - ela se apressava, tropeava nas grades dos esgotos, aprofundava-se na covardia, nos becos tranqilos, na sua falta de coragem de rasgar os papis antigos e de pr fora vestidos velhos, e era terrivelmente esperta nisso, escondendo-se nas sombras das lojas, coando-se radiante com as luvas - respirava agitadssima, as torres arquejavam sob a lembrana de guerras e conquistas.
     Os cavalos de Napoleo estremeciam impacientes. Napoleo sobre o cavalo de Napoleo estava parado de perfil. Olhava para a frente no escuro. Atrs toda a tropa em silncio.
     Mas no amanhecia. Eles esperaram a noite toda.
     Sob o sonho os motores do subrbio no paravam, no paravam, a saliva escorria de sua boca aberta.
     Adormeceu enfim mais profundamente. Desperta como o luar  erecto. Estava to adormecida que se tornara enorme. Arrastando o corpo, procurando.
     Quando viu os cascalhos do riacho, comeou a ouvir.
     S. Geraldo estava extremamente doce e zumbido... podre, tranqilo.
     Ela procurava tanto que errara e cara numa poca sem data? anterior mesmo aos primeiros cavalos. Mas era bonito - Lucrcia Neves batia palmas com sonolncia, o campo era bonito! cheio de harmonia incomparvel, vel, vel, repetiam graves as antigas colinas destrudas. A ressonncia tinha sempre a mesma altura insuportvel, atravessada por novas alturas e por novas alturas... - ela se esforando no nico modo possvel de ouvi-las: rememorando-as.
     A pluma tocava com insistncia doida o ouvido.... os motores ntimos no cessavam. Por um instante, os sons soprados tornaram-se infantis, tocados pela mesma boca virgem. E agora desafinados - uma boca aberta cantando sem xtase, em destino leal; cantando antes das coisas ainda.
     Ou era a sua respirao apenas? s vezes Lucrcia Neves bem sabia que era apenas sua respirao enchendo a noite. E s vezes os sons soprados tornavam-se um balido abundante de gua. O que era perigoso  que em nenhum instante houve erro. Porque era a primeira vez. E no se poderia repetir sem errar.
     Ento entreabriu os lbios, respirando atravs deles.
     E ento foi mesmo de sua boca que a doce confuso do campo nasceu. Um instante porm que a castidade se intensificasse mais e a pura voz desafinaria em amor, j em pleno tempo de cavalos arrastando carroas entre as coisas.
     De fato a respirao j estremecia fecunda e j havia ameaa no corao ardente de cada vibrao; a moa dormia com esforo sobre-humano. Sua respirao j se dividia nos primeiros objetos... que eram de uma beleza extrnseca!
     Seria este um novo modo de ver as coisas? de uma beleza extrnseca! ela batia palmas sonolentas. Enquanto os sons se afinavam cada vez mais, j que os primeiros objetos tentavam se dar: o que existia explicava-se ao mximo, e o mximo era o estremecimento de uma flor no jarro... as coisas se alando e se dando com horror - e o mximo era a serenidade de um objeto parado. Tambm Lucrcia Neves se esforava para se exteriorizar, sem saber se devia se dirigir  esquerda ou  direita. De sbito acordou.
     O quarto estava cheio de graa. Estava acordada e difcil. Com o choque de acordar, desenrolava-se esfusiada em torno dos prprios ps - sentia-se mal a morrer. A msica nauseante - ela continuava a ouvi-la e no acreditava. Sentada na cama em terror... Estava acordada e sem conscincia - dormia sem interrupo como se a terra fosse infinita.
     Dormia com pacincia monstruosa. Ela procurava.
     E agora era muito tarde.
     Quando inventara ouvir a notcia, a moa retrocedera at estar vestida com saias longas e alisar bandos na testa.
     Mas agora no sonho pde recuar at encontrar enfim: que era grega.
     "Como a da revista", e ruborizou-se agitada. Sonhar ser grega era a nica maneira de no se escandalizar, e de explicar seu segredo em forma de segredo; conhecer-se de outro modo seria o medo.
     Ela era antes dos gregos pensarem ainda, to perigoso seria pensar.
     Grega numa cidade ainda no erguida, procurando designar cada coisa para que depois, atravs dos sculos, elas tivessem o sentido de seus nomes.
     E sua vida erguia, com outras vidas pacientes, o que se perderia mais tarde na prpria forma das coisas. Apontava com o dedo, a grega sem rosto. E seu destino como grega ento era to inconsciente quanto agora em S. Geraldo. O que restara de to longe? o que restara da Grcia? a insistncia: pois que ela ainda apontava.
     Depois, com um suspiro, deitou-se no jardim para repousar, repetindo o ritual. E assim ficou.
     Enquanto sonhara, j se passara muito tempo sobre o rosto. Esfarelara-se gasto um detalhe mais vivo, e a evidncia da expresso. Os lbios de pedra haviam-se crestado e a esttua jazia nas trevas do jardim.
     S um desastre faria encher-se de sangue e pudor aquela cara deteriorada que atingira o cinismo da eternidade. E que nem o amor decifraria. As rbitas vazias. Ela mesma endurecida num s pedao - se a pegassem por uma perna deslocariam o corpo todo, agora facilmente transportvel.
     E assim a tinham pousado. De cabea para baixo e ps juntos para cima.
     At que, cada vez mais roda pelo tempo, ela se erguesse um dia para continuar seu trabalho incompleto em outra cidade.
     Quando todas as cidades fossem erguidas com seus nomes, elas se destruiriam de novo porque assim sempre fora. Sobre os escombros reapareceriam cavalos anunciando o renascimento da antiga realidade, o dorso sem cavaleiros. Porque assim sempre fora.
     At que alguns homens os prendessem a carroas, outra vez erguendo uma cidade que eles no entenderiam, outra vez construindo, com habilidade inocente, as coisas. E ento de novo se precisasse de que um dedo apontando lhes desse os antigos nomes. Assim seria pois o mundo era redondo.
     Mas por enquanto ela ainda podia repousar.
     Na fria. escurido entrelaavam-se gernios, alcachofras, girassis, melancias, znias duras, ananases, rosas. Da barca soterrada na areia, s aparecia a proa. E, na porta mutilada, velava a cabea de um galo. S com o amanhecer se veria a coluna partida. E as moscas. Em torno do capitel, a dbil e brilhante germinao dos mosquitos.
     Mas de sbito alguma coisa se corrompeu: nasceram novos mosquitos - um pardal voou! oh,  cedo ainda,  cedo demais! porm na escurido j se vislumbravam os olhos da esttua.
     Ela teria que se erguer - oh  cedo ainda, to bom o repouso! mas j se adivinhava o mastro quebrado saindo da bruma e j se pressentia onde terminaria o muro do jardim. Em torno da cabea da esttua j voejava a primeira abelha, sada dos lbios duros. E mais alm emergia dos vapores, o galo. 0 tesouro. Oh,  cedo ainda,  cedo demais! porm a pedra fora ferida pelo cinzel: amanhecia.
     E da boca enegrecida, em breve suspiro, nasceu o primeiro halo de umidade.
     Agora, no jardim, nem escurido nem claridade - frescura. A brisa sobre o rosto mutilado entre as latas.
     Nem escurido nem claridade - aurora. H trs reinos na natureza: animal, vegetal e mineral. E entre as latas enferrujadas o pavo se abria... Nem escurido nem claridade - visibilidade.
     Quando se poderia mais do que isso? A cabea da cavalo comia as alcachofras. E na areia mais clara revelava-se o crocodilo adormecido... nem trevas nem luz - visibilidade. A manh no Museu. E o tesouro. O tesouro.
     Lucrcia Neves estremeceu afinal.
     No sono penosamente erguia-se, com o rosto arruinado pelo subrbio. At que as mos apodrecidas tocaram nas grades do parque de S. Geraldo. L ficou esperando, a cara passiva colada s barras. Numa cavalaria mexeu-se o peso adormecido de patas, a gua crispou-se alm da Cancela. Sob os estremecimentos cambiantes da claridade at seus sinais j apareciam no rosto. A aurora - o leo caminhava na jaula. A aurora.
     Ento Lucrcia bateu asas.
     Com batidas montonas e regulares voava na escurido sobre a cidade.
     Dormia com batidas montonas, regulares.
     No meio do sono, ainda num lance de ferocidade, Lucrcia Neves ergueu-se e percorreu o quarto sobre as quatro patas, farejando a escurido. Que quarto! aquela moa parava doce sobre as patas. Que quarto! movia a cabea de um lado para outro com pacincia.
     Enfim recolheu-se para dormir.
     A cor do aposento atingia agora uma neutralidade aguda. Nem escurido nem claridade - visibilidade. Os edifcios altos e madrugadores. Pela janela o vento gelava os cabelos e nada mais adejava no quarto. O sobrado cheirava todo a rvore velha. De sbito, sacolejada dentro do cabriol, com seriedade assombrada, ela adormeceu. Passara o perigo.
     
     Acordou com a marcha militar dos escoteiros! tambores rufavam entre as cestas de peixe.
     Acordou atrasada, os cavalos j prontos em linha de partida. Os grandes ouvidos leguminosos do sono se reduziam rapidamente a orelhas pequenas e sensveis - tambm a alegria dos escoteiros de S. Geraldo condensou-se at se precisar em abelhas minuciosas.
     O que fora mido, secara da chuva. A moa encontrou as coisas j empalhadas pelo sol seco. Onde estava a tempestade da noite anterior? pela janela via calmas tropas de centauros avanarem nas nuvens, arrastando os majestosos posteriores. E do lado do campo bandos de corvos grasnavam alto anunciando bom tempo...
     Na rua o cortejo - era o trombone. Os sons animavam o cheiro de peixe, passeavam focos luminosos por entre os ramos das rvores. A moa olhava as roupas espalhadas, o quarto ainda enorme.
     Mas no meio da sua incompreenso a marcha militar era de uma realidade espantosa. Fios de telegrama passando pela varanda aberta e todo o seu agudo prosseguimento tinha uma iminncia - o dia!
     A moa ainda suspensa no quarto. s vezes dando-lhe pequeno impulso, balanando-se nele. Olhando de cima para baixo, da cama dependurada no cho; nunca fora hoje at ento.
     O guarda-roupa descomunal da noite, agora j apequenado, fervilhava de roupas e chapus. A claridade cheirava a folhas cortadas: estavam podando as rvores na rua do Mercado, e as tesouras erguiam poeira como de uma construo - S. Geraldo estava enorme, cheio de escadas encostadas aos troncos das rvores, os mveis sacudidos por uma violncia constante que eram: nove horas da manh!: comeou o relgio da torre a bater, e a moa espirrou.
     Atravessado o tnel sacolejante que se abria enfim num quarto de sobrado - agora ela espiava j desperta, arguta, Lucrcia - uma estrangeira apenas protegida por uma raa de pessoas iguais, espalhadas nos seus postos.
     Duas ruas alm trs mulheres de pedra sustentavam a porta de um edifcio moderno. Os fios telegrficos fremiam em pontos e traos... Num salto Lucrcia Neves estava  varanda, as mos contendo contra as pernas a camisola que o vento soprava.
     De incio no pde abrir bem os olhos por causa do sol mas em breve l estava o prdio tranqilo da Liga Comercial. Os telhados expostos. Calias esfareladas nos muros... Na claridade um pedreiro sacudia-se todo na sua broca, solapando calmamente o subrbio por uma de suas pedras. Pessoas olhavam as vitrinas... Que sucedera com a cidade da noite anterior?!
     Como um morcego a cidade era cega de dia.
     
CAPTULO SEXTO
ESBOO DA CIDADE
     
     NESSE DIA aconteceu a Lucrcia Neves estar na cozinha s duas horas da tarde.
     Ana sara para fazer compras, e o silncio espalhava-se em viglia pelo sobrado. Muitas vezes j sucedera  moa lavar os pratos do almoo enquanto a me fazia compras. Era um dia igual aos outros. E talvez por isso mesmo  que, num amadurecimento, esta tarde se aclarava particularmente pelas venezianas das janelas. Onde a luz no conseguia penetrar, havia inquieta escurido: a casa fremia toda.
     O que sucedeu nesta tarde ultrapassou Lucrcia Neves numa vibrao de som que se confundisse com o ar e no fosse ouvida.
     Foi assim que ela escapou de saber. A moa tinha sorte: por um segundo sempre escapava. Verdade era que, pela diferena deste segundo, outra pessoa de sbito compreenderia. Mas era verdade tambm que pelo mesmo segundo outra pessoa seria fulminada: S. Geraldo estava cheio de pessoas fulguradas que se sacolejavam plenas de alegria no carro de socorro do Hospcio Pedro II.
     O principal era mesmo no compreender. Nem sequer a prpria alegria.
     gua escorria da bica e ela passava o pano ensaboado nos talheres. Da janela via-se o muro amarelo - amarelo, dizia o simples encontro com a cor. Esfregando os dentes do garfo, Lucrcia era uma roda pequena girando rpida enquanto a maior girava lenta - a roda lenta da claridade, e dentro desta uma moa trabalhando como formiga. Ser formiga na luz, absorvia-a inteiramente e em pouco, como um verdadeiro trabalhador, ela no sabia mais quem lavava e o que era lavado - to grande era a sua eficincia. Parecia enfim ter ultrapassado as mil possibilidades que uma pessoa tem, e estar apenas neste prprio dia, com tal simplicidade que as coisas eram vistas imediatamente. A pia. As panelas. A janela aberta. A ordem, e a tranqila, isolada posio de cada coisa sob o seu olhar: nada se esquivava.
     Quando procurava outro pedao de sabo, no lhe ocorreria no ach-lo: l estava ele,  mo. Tudo estava  mo.
     O que era to importante para uma pessoa de algum modo estpida; Lucrcia que no possua as futilidades da imaginao mas apenas a estreita existncia do que via. Ah! gritava um pssaro no quintal da loja.
     Sem pintura o rosto perdia os vcios de que em outros momentos Lucrcia Neves precisava para se dar certo peso neste mundo. Com o rosto nu, tambm ela avanaria se chamassem as criancinhas. Toda iluminada, toda medida pelas duas horas. Ah! cortava o pssaro no quintal. No fundo mesmo, ela se julgava uma deusa.
     Foi talvez para exprimir sua divindade que a moa parou cansada, enxugando o suor da testa com o brao que segurava o prato.
     Passeando o olhar pelo vasto subrbio ensolarado. L estavam as coisas recortadas, e sem sombras, feitas para uma pessoa se aprumar ao olh-las. Com o prato na mo, seu instrumento de trabalho, gostaria de exprimir talvez  me, por exemplo, como sua filha estava... estava...
     Olhou um pouco intrigada aquelas coisas iluminadas, ao seu redor, forando-se agora a exteriorizar, com um pensamento mesmo, o que sucedia fora dela.
     Nada acontecia porm: uma criatura estava diante do que via, tomada pela qualidade do que via, com os olhos ofuscados pelo prprio modo calmo de olhar; a luz da cozinha era o seu modo de ver - as coisas s duas horas parecem feitas, mesmo na profundeza, do modo como se lhes v a superfcie. Bem desejaria contar alga dessa claridade a Ana ou a Perseu.
     Mas, desamparada, forte, estava de p. Remoendo sua dificuldade de raciocinar.
     Naquela deusa consagrada pelas duas horas, o pensamento, quase nunca utilizado, primarizara-se at transformar-se num sentido apenas. Seu pensamento mais apurado era ver, passear, ouvir. Mas seu tosco esprito, como uma grande ave, se acompanhava sem se pedir explicaes.
     E quanto a contar a Perseu o que sucedia - tudo era simples demais, at mesmo estpido: ela estava apenas construindo o que existe. O qu! ela estava vendo a realidade.
     Alm disso como contar a Perseu ou mesmo conseguir pensar, se tudo aquilo era feito de coisas das quais se se quisesse pedir a prova... Para mant-las, era preciso apenas acreditar e mesmo no se dirigir a elas - toda a cozinha era uma viso de lado. Cada vez que se voltasse para o lado, a viso estaria de novo de lado. Era assim que a moa sustentava a iluminao das duas horas - erguendo agora a cabea a um rudo, e agora correndo atravs da casa at a varanda, chamada pelo barulho de muitos passos na rua.
     Abriu as portinholas da varanda, viu seminaristas caminhando na calada, em fila de dois e vagos gestos, o vo das batinas... Sero felizes ? perguntou-se sonsa. s vezes Lucrcia Neves era terrivelmente inteligente. Riu-se. Olhou a loja defronte.
     E olhou um segundo andar que o sol aclarava em cheio. Uma das mil casamatas da estpida cidade iluminada.
     Mas que orgulho ver em que ponto estava o seu perfeito sistema de defesa. Quem sabe se um dia carros blindados se postariam em cada esquina. Aquele baluarte. A glria de uma pessoa era ter uma cidade.
     E agora, depois de atravessar de novo os corredores em penumbra, a cozinha se abria em salo.
     Um minuto a mais j a transformara: agora o modo de olhar anterior no servia. Essas mudanas pareceram deixar Lucrcia satisfeitssima e a moa olhava as panelas to belas, to desinchadas.
     Oh, nunca precisaria mais do que disso tudo, o extraordinrio nunca a tentaria, nem as imaginaes: na verdade gostava do que est ali.
     Essa era a questo, "a coisa que est ali". No se poderia seno: ultrapass-la. E para ultrapass-la, ter que consider-la uma suposio. Mas volta e meia, no era mais hiptese: era a coisa que est ali. Lucrcia costumava at contar anedotas, mas fingindo-as verdicas! e as pessoas riam muito mais, se pensassem que era verdade - tanto espantava o irremedivel.
     Em certos fatos ela acreditava, em outros no - no acreditava que nuvens fossem gua evaporada: para qu? pois se l estavam as nuvens. Nem chegava a gostar de assuntos de poesia. Gostava mesmo de quem contava como as coisas eram, enumerando-as de algum modo: era isso o que sempre admirava, ela que para tentar saber de uma praa fazia esforo para no sobrevo-la, o que seria to mais fcil. Gostava de ficar na prpria coisa:  alegre o sorriso alegre,  grande a cidade grande,  bonita a cara bonita - e era assim que se provava ser claro apenas o seu modo de ver.
     At que, uma vez ou outra, via ainda mais perfeito: a cidade  a cidade. Faltava-lhe ainda, ao esprito grosseiro, a apurao final para poder ver apenas como se dissesse: cidade.
     
     Depois que guardou os pratos enxutos  que se iniciou a verdadeira histria desta tarde.
     Histria que poderia ser vista de modos to diversos que a melhor maneira de no errar seria a de apenas enumerar os passos da moa e v-la agindo assim como apenas se diria: cidade.
     O fato mesmo  que Lucrcia Neves se inclinara para sacudir a vassoura no quintal da loja. E sobre o parapeito da janela da "Gravata de Oiro" estava a laranja no prato.
     Era um novo modo de ver; lmpido, indubitvel. Lucrcia Neves espiou uma laranja no prato.
     Mais adiante havia o depsito de garrafas, o caixote de madeira, o livro apodrecido de contadoria, um pano sujo e de novo a laranja. O olhar no era descritivo, eram descritivas as posies das coisas.
     No, o que estava no quintal no era ornamento. Alguma coisa desconhecida tomara por um instante a forma desta posio. Tudo isso constitua o sistema de defesa da cidade.
     As coisas pareciam s desejar: aparecer - e nada mais. "Eu vejo" - era apenas o que se podia dizer.
     Indo depois guardar o pano de pratos, parando agora um momento diante da alcova de Ana, fechada a chave. Olhando agora pelo buraco da fechadura. Como as coisas pareciam grandes vistas pelo orifcio. Adquiriam volume, sombra e claridade: elas apareciam. Pelo buraco da fechadura a alcova tinha uma riqueza imvel, pasmada - que desapareceria se se abrisse a porta.
     Tambm a cidade deveria ser espiada por uma seteira. Assim quem espiasse, se defenderia, como a coisa espiada. Ambos fora de alcance. Assim Lucrcia espiava curiosa pela seteira, quase acocorada junto  fechadura. Dentro de uma ateno mxima ela era inconsciente.
     Aprumando-se agora com dor nos rins, indo  varanda dos fundos, e estendendo a toalha mida.
     E vendo o muro cortado pela rasa varanda de ferros limpos. Acontecia alguma coisa.
     Olhando, a moa parecia procurar impedir que existisse o muro alto com a varanda, de tal modo nada se podia fazer deles - s ver-lhes inexplicavelmente a existncia. Respirou calma, sem exagero.
     Tudo o que via se tornava real. Olhando agora, sem nsia, o horizonte cortado de chamins e telhados.
     O difcil  que a aparncia era a realidade. Sua dificuldade de ver era como se pintasse. De cada parede com um cano nascia algo irredutvel - uma parede com cano. Os canos: que insistncia. Quando era um cano pesado seria: parede com cano pesado. No havia erro possvel - tudo o que existia era perfeito - as coisas s comeavam a existir quando perfeitas.
     Abrindo agora o poro embutido, procurando um lugar para guardar a vassoura, olhando. Acontecia alguma coisa naquele canto: acontecia um tubo de borracha ligado a uma torneira quebrada, um casaco velho pendurado no fundo, e fio eltrico enrodilhando um ferro.
     Os materiais da cidade!
     Ela estava olhando as coisas que no se podem dizer. Certos arranjos de forma despertavam-lhe aquela ateno ca: os olhos sem piedade olhando, a coisa deixando-se olhar sem piedade: um tubo de borracha ligado a uma torneira quebrada, o casaco pendurado atrs, o fio eltrico enrodilhando um ferro. Ver as coisas  que eram as coisas. Ela batia a pata paciente. Procurava, como modo de olh-las, ser de certa maneira estpida e slida e cheia de espanto - como o sol. Olhando-as quase cega, ofuscada.
     Atravs de anos de obstinao, acentuara-se nesse seu modo de olhar o que nele havia de rudemente espiritual.
     Estava bruta, de p, uma besta de carga ao sol. Essa era a espcie mais profunda de meditao de que era capaz. Bastava alis refletir um pouco, e tornava-se impermevel, o olho sonolento como modo aberto de ver as coisas. Apenas o modo, no a posse; mudando de vez em quando a posio das pernas.
     Sei o que voc est tentando: voc est tentando ver a superfcie mas tem voz rouca, pensou ela to profundo e desconhecido que parecia ter ido a um descampado para pensar, de l voltando rapidamente a fim de prosseguir.
     Podia-se pensar tudo contanto que no se soubesse. Embora ainda fosse arriscado. Oh, mas ela tomava cuidado.
     A cautela consistia em no ter idia do que fazia; chamava seu olhar de "estou guardando a vassoura"; e esta precauo bastava. "Guardando a vassoura" olhava o vo do porozinho enquanto, a um bonde, o sobrado se sacudia todo em bibels, paredes, vidros claros e escurido.
     Mesmo o erro era uma descoberta. Errar fazia-a encontrar a outra face dos objetos e tocar-lhes o lado empoeirado.
     Espiando. Porque alguma coisa no existiria seno sob intensa ateno; olhando com uma severidade e uma dureza que faziam com que ela no buscasse a causa das coisas, mas a coisa apenas. Severa, curta, rouca, real, mergulhada em sonho.
     De repente, como se eriasse as penas, espantando-se: porque eram coisas intransformveis! estritas! inconsumveis pela ateno! "A coisa que est ali" era a derradeira impossibilidade.
     E atrs a cal da parede.
     Que cidade. A cidade invencvel era a realidade ltima. Depois dela haveria apenas morrer, como conquista.
     Mas em nome de que rei ela era uma espia? sua pacincia era horrvel. Seu medo era o de ultrapassar o que via. Espiava os canos, o casaco e os fios eltricos: tinham a beleza de um aeroplano. Bonitos como culos - ela bateu as plpebras.
     Ao mesmo tempo mal tomava conhecimento, s vezes se coando quase irnica - no tinha o que fazer at arranjar casamento. Apoiada sobre uma anca. Oh, tinha apenas pousado por ali um instante. Nada disso lhe concernia; olhava desvencilhada, um pouco insolente.
     E, se algum pensasse que chegara o momento de dar um grito para assust-la - espantar-se-ia ao v-la voltar a cabea e espiar calma, ligeiramente sarcstica, bem nos olhos de quem desejara assust-la. Assim era Lucrcia Neves, batendo plpebras.
     E afastando-se agora com uma lembrana indecifrvel. Toc, toc, toc, andava erecta. Toc, toc, toc, - era o seu modo de reduzir todas as coisas exteriores a um rudo infantil e mecnico com os saltos das ferraduras. A viso do poro embutido tivera o mesmo carter de um dia ela ter tomado um bonde! Ou ir ao dentista. Bonito como uma motocicleta - ela batia palmas.
     Foi ento  varanda dos fundos, estendeu o pano de pratos, olhou o quintal - ningum aproveitava tanto de uma cidade deserta como Lucrcia Neves, e sem tirar uma migalha para si mesma. Sem tocar, sem transformar: olhando o quintal da loja, debruando-se toda. Entre as runas viu a lagartixa fugindo e levantando poeira!
     
     Faltava a parte mais difcil da casa: a sala de visitas, praa de armas.
     Onde cada coisa esperta existia como para que outras no fossem vistas? tal o grande sistema de defesa. Comeou por tomar cuidado, protegendo-se com o pensamento de que l entrava para descansar um pouco, mamezinha, porque lavei todos os pratos, estou exausta.
     A varanda estava aberta. E no centro a mesinha sobre as pernas. As cadeiras em guarda. Oh, as infinitas posies da sala, como se algum se deitasse no cho e olhasse no teto a lmpada oscilar... podia-se ter uma vertigem  orla de um bibel. E eram sempre as mesmas coisas: torres, calendrios, ruas, cadeiras - porm camufladas, irreconhecveis. Feitas para inimigos.
     As coisas eram difceis porque, se se explicassem, no teriam passado de incompreensveis a compreensveis, mas de uma natureza a outra. Somente o olhar no as alterava.
     Sob as rodas de uma carroa, o espelho da parede refletiu-se em claro e luz. Mas aos poucos a sala ferida deixou de soar, enquanto Lucrcia se acalmava. Olhando as unhas: era isto o que estava fazendo, essas unhas embotadas pelo sabo.
     E, tudo aquilo que se retrara com tanta reserva  sua entrada, recomeou a respirar cheio de madeira, porcelana, verniz gasto e sombra. No espelho flutuava o conhecimento de toda a sala.
     A flor! as flores se exprimiam em ptalas, a cortina avanava at o meio da sala. Ana retirava cada dia a poeira mas a calma penumbra ela no conseguiria espanar - e a sala envelhecia com os bibels gelados.
     Porque Lucrcia Neves no os entendia, no sabia como olh-los: procurava um modo, outro, e de repente: l estavam os bibels. Quase a palavra: os bibels.
     Como dizer que os bibels estavam ali? ah! fitou ela com brutalidade essas coisas feitas das prprias coisas* falsamente domesticveis, galinhas que comem por vossas mos mas no vos reconhecem - apenas emprestadas, uma coisa emprestada  outra e a outra emprestada  outra. Conservando-se sobre as prateleiras ou mantendo-se indiferentemente no cho e no teto - impessoais e orgulhosas como um galo. Pois tudo o que fora criado fora ao mesmo tempo desencadeado.
     Ento Lucrcia, ela prpria independente, enxergou-as. To anonimamente que o jogo poderia ser permutado sem prejuzo, e ser ela a coisa vista pelos objetos.
     No fora em vo que se expusera tantas vezes na morro do pasto  espera de sua vez.
     Porque agora parecia ter enfim atingido em si o mximo das coisas tranqilas sob o olhar. Avanando com majestade a prpria estupidez at o ponto mais alto da colina, a cabea dominando o subrbio.
     O que no se sabe pensar, se v! a justeza mxima de imaginao neste mundo era pelo menos ver: quem pensara jamais a claridade? pelo menos Lucrcia via e batia a pata.
     Experimentando alegria to exterior que j era a alegria dos outros que ela sentia, deus impessoal para quem as nuvens fossem um modo de ele no estar na terra e as serras o modo de ele estar mais longe.
     A alegria da moa era assim:
     As flores no jarro. Uma era vermelha. Tinha o talo fraco. Uma era cor-de-rosa. Era pequena. Sobre o cho empoeirado suas pernas pousando. Uma flor se dobrava ao peso da corola da flor. A janela retangular. Vazia na parede. O bibel estendia a flauta. A flor maior era plida, de corola grossa.
     Talvez Lucrcia no estivesse alcanando o que estava ao seu redor, e tivesse apenas atingido um passo antes da evidncia da sala - mas este  o lugar onde esto as coisas. O canto da sala escuro. A parede inclinada para trs. O teto formado de tbuas leves, sujas.
     A estante. A porta. O cho. O ngulo. O relgio. Flor, jarro, teto, cho, veneziana. E, arremessado de longe, um objeto confuso que  frente da cara se formou ntido e engrandecido: a cadeira perfeita.
     Lucrcia Neves olhou-a e fz com o rosto, imperceptivelmente, a expresso da cadeira.
     O pensamento neste instante era afinal muito inocente e visvel: um pensamento com quatro pernas, um assento e um espaldar. Com esta reflexo parecia ter possudo at o fim a perfeio das coisas.
     Se no pudera atravessar os muros da cidade, pelo menos fazia agora parte desses muros, em cal, pedra e madeira.
     Ento, de posse do gesto aprendido na noite de chuva, com a mo esquerda estendida e o p avanando - ela o executou delicada, rgida. Apontando com graa e exatido.
     Oh, apenas uma dessas piruetas de moa casadoura. So to alegres. s vezes fazem as cambalhotas mesmo na frente dos outros, e riem muito depois.
     Mas desta vez Lucrcia soube ainda menos que o caixeiro-contador: acabando de limpar as unhas, esfregou-as no couro da poltrona, verificou o brilho que o sabo empanara, bocejou e saiu.
     
CAPTULO STIMO
A ALIANA COM O FORASTEIRO
     
     MAS DE MANH, ao caf, tudo era amarelo e quando uma filha tomava caf e a fumaa saa da xcara, flores amarelas tinham-se espalhado sobre a mesa, e uma me sentada  cabeceira era a dona desta casa: Ana reinava.
     O papel florido da parede como amanhecia velho. Quando Ana se sentava, os cabelos mal entranados se engastavam no papel de margaridas cor-de-rosa, nos talos verdes, nos pontos roxos - mas tudo era castanho. Durante o relento da noite haviam crescido pelos aposentos rvores copadas que se sacudiam num cheiro de parque molhado - a fumaa saa do bule enegrecendo a casa em sonho.
     Ana apanhava as migalhas de biscoito ao redor da xcara e metia-as com avareza na boca, sem jeito como num hospital. No se diria que, se concentrando em pequenos atos, ela gozava a manh no sobrado, aplicando-se com miopia nas coisas, manuseando o biscoito, assoando o nariz, a lavar-se com cuidado; sua vida tinha s vezes esta delicadeza.
     Enquanto, fora, os rudos da rua iam se animando, o cheiro de estbulo agitando-se aos primeiros ventos, e os sons se entranando como paredes se constroem: a cidade ia imperceptivelmente se recontruindo.
     Mas Lucrcia mal ajudava a alegria matinal da viva. O capote curto, recuando-a  poca de crescimento, a moa se relaxava com os cotovelos apoiados sobre a mesa, desfeita, grande.
     E se falavam, em todo pensamento havia quase sensvel um engano e um sonho, do bule saam vapores enegrecidos; mas elas eram a me e a filha, dando-se como mos se do; e, embora se julgassem excepcionalmente argutas, nunca tentavam prov-lo.
     - Voc hoje no vai sair, vai, Lucrcia?
     - Talvez sim, talvez no.
     - Voc est-se aborrecendo, por que no se ocupa?
     - Se fosse uma s vez e acabar, respondia a moa de sbito ntima, as foras se escapando - mas ocupar-se todos os dias!
     "Ela est precisando casar", pensou Ana, e era verdade.
     - Voc deve sossegar, disse Ana volutuosa de t-la para si durante uma manh inteira, voc sempre foi assim, desde que me lembro, se tivesse feito um dirio voc veria, minha filhinha.
     Um dirio, dizia ela como uma pessoa que estivesse ao par do que acontecia no mundo... Lucrcia olhou-a com admirao.
     Mas em breve abaixava os olhos sobre a xcara pensando no que Ana no dissera, talvez adivinhando o projeto de casamento.
     O assunto, precipitado pela compreenso da moa, tornou-se ento fcil de abordar.
     - Voc tem passeado com muitas pessoas, s Mateus  que no tem visto, no , filhinha...  verdade que ele  muito mais velho...
     - Por isso no... pelo contrrio... Ah, Mateus  de outro meio, mame! vem de outra cidade, tem cultura, sabe o que se passa, l jornal, conhece outra gente...
     - ...faz bons negcios, disse Ana com fraqueza.
     - , assentiu Lucrcia, ...
     - E como no vou viver a vida inteira...
     A que vida inteira se referia seno  prpria? e como no viver a prpria vida inteira mesmo que se morresse a qualquer instante? Lucrcia Neves refletia.
     - Se voc casasse com ele teria muitas coisas, chapus, jias, morar bem, sair deste buraco... ter uma casa bem guarnecida... continuou Ana horrorizada com o caminho que afinal tomara, a mo subindo ao pescoo.
     Lucrcia Neves olhou-o com espanto, fingido, como se fosse inocente demais para compreender - em breve rindo desagradvel, enquanto seu desejo seria o de enfim virar as costas a S. Geraldo. Sem sentir, j esboava o movimento de liberdade, quando encontrou o olhar de Ana.
     A simplicidade da me a envergonhava - se casasse com Mateus, como colocar Ana, to inexperiente e pensativa, e to delicada, no meio luxuoso em que viveriam? a me teria "medo".
     - Voc no comeu nada... dizia Ana ofendida olhando o biscoito intacto.
     Em vez de responder. Lucrcia levantara-se e j subia os trs degraus de cimento, atravessava o corredor e penetrava na sala de visitas abaixando a cabea para passar sob a porta, embora esta fosse mais alta que ela: imitando, em recompensa obscura, o hbito do pai morto e alto.
     Mal se sentara com o bordado nas mos, a porta se abria e o rosto de Ana apareceu a meio, sorrindo confusamente como a face que se v na lua...
     - ... nem leite voc tomou...
     - J tomei, mentiu ela. Ana sabia-o, porm nunca se aproximaria de suas mentiras.
     - Est bem, respondeu - hesitava  porta esperando que Lucrcia a quisesse.
     Mas esta sorriu finalizando, e Ana repetiu: est bem, minha filha, fechando a porta com um suspiro.
     A pobre mulher odiava S. Geraldo e j se teriam mudado se, dizia em reprovao, Lucrcia no fosse to patriota. Mesmo o sobrado cheirava  cidade, e isso ambas sentiam, Lucrcia rejubilando-se, Ana querendo falar o dia inteiro para escapar.
     Porque uma ou outra vez haviam se comovido juntas diante de alguma desgraa alheia - que despertava enorme interesse em Ana, contanto que no tivesse sucedido em S. Geraldo - agora a me vinha sempre com o jornal na mo, olhando a filha bem nos olhos: uma criana em F..., de dezoito meses, engolira um feijo branco e sufocara. Pobre criana, suspirava com ateno, pelo menos esta no sofre mais. Lucrcia se remexia atingida.
     E agora de novo a porta se abria, interrompendo-lhe o bordado. Ana disse irnica: Perseu de novo...
     Este apareceu logo em seguida como se escutasse  porta.
     Entrou olhando em torno com indiscrio; os belos olhos estavam mveis mas a boca fechava-se como se ele guardasse algo para mais tarde. Bem verdade  que de manh ele era sempre bonito e esperto. Mas Lucrcia, muito desconfiada, percebeu que dessa vez era porque ele resolvera mudar de atitude. De que modo, ela no sabia; nem Perseu alis.
     - Bom-dia, disse o rapaz somente quando a porta se fechou, como se Ana no devesse ouvir este segredo.
     Ningum lhe respondeu. Lucrcia Neves olhava-o dando-lhe a entender que, se mudasse de atitude, estaria sozinho. Perseu Maria no pareceu se perturbar, puxou uma cadeira e sentou-se erecto  sua frente - transformando a sala tranqila num n.
     Depois, com calma insultante, olhou tudo um pouco, fitou mesmo as pernas de Lucrcia, o que a encheu de raiva - ele porm fingiu desinteresse e rapidamente examinou as orelhas da moa. Estas saam de dentro dos cabelos escuros em orelhas de asno e pareciam ouvir de longe com insolncia.
     Mas no se pronunciou nenhuma palavra. Ela no o fitava sequer. Perseu, no se confundindo, continuou a examinar em torno, parando o olhar sobre um ou outro bibel como se de repente os estranhasse e ao mesmo tempo soubesse lidar com eles - tinha jeito para mecnica e a tudo queria aplicar as mos pesadas. Afinal percebeu que Lucrcia o observava e perturbou-se:
     - So seus... perguntou apontando com o rosto. - Da sala.
     Ele a olhou com surpresa e alegria:
     - Que tolice! as coisas so de pessoas!
     - Da sala, resmungou Lucrcia Neves.
     - E a sala, filhinha?
     -  da casa, a casa  de S. Geraldo, no me aborrea.
     - Ah. E So Geraldo?
     - ...  de S. Geraldo, me deixe.
     - Est bem, est bem! no precisa gritar. Assim pois era verdade: ele mudara de atitude.
     - Da sala, j disse, repetiu dura porm mais cautelosa.
     De novo ele pareceu no se alterar e apenas ajeitou-se melhor na cadeira.
     - Ontem demos um passeio.
     - Demos quem, desconfiou a moa.
     Os olhos do rapaz brilharam de riso inteligente:
     - Quem? ora! o passeio deu o passeio!
     Como ele compreendera depressa! ela apressou-se em corrigir.
     - O que eu disse era brincadeira, sabe, s vezes at brinco que os bibels so de S. Geraldo, imagine. Mas eles so das pessoas, naturalmente, que bobo que voc  - e como lhe custasse mentir tanto, acrescentou rindo - mas ningum sabe de quem, rapaz...
     - Eu sei, disse Perseu por dizer.
     Vendo porm o olhar de curiosidade que lhe era lanado, ergueu-se como um demnio num mpeto de alegria, encostou-se  parede preparando-se para fugir se necessrio:
     - Pois eu sei, eu sei!
     - Voc est mas  ridculo!
     Embora realmente humilhado com a ofensa, o rapaz no se afastou de sua posio  parede, os braos separados em cruz - apenas encolheu-se um pouco e entortou a cabea, ferido. "Eu sei", repetiu desta vez em clera.
     - De quem so? perguntou ela afinal com esforo. Ficaram um momento em silncio, fitando-se.
     - De Deus, por exemplo... disse Perseu, tambm ele decepcionado, encolhendo os braos e diminuindo.
     Mas era ela agora quem parecia prestes a avanar, eriada.
     - No so nem de Deus, so deles mesmos, idiota!
     - Est bem, est bem! espantou-se o jovem.
     Ficaram em silncio cuidadoso. Sem fazer barulho, ele voltou  cadeira evitando ofend-la com um olhar.
     Afinal, quando imaginou que tudo j deveria ter-se acalmado, ergueu precavido os olhos.
     Com surpresa viu que Lucrcia Neves no s se refizera como estava soberbamente sentada.
     Sentindo-se observada, a moa imaginou que seria o momento de anular os projetos de modificao do rapaz, se  que ele j no estava vencido. Toda tranqila e indiferente, comeou a espiar a prpria mo como se esta no lhe pertencesse, fazendo-a virar e revirar-se e mexer os dedos em aceno ou corr-los em ratos sobre o brao da poltrona: demonstrando a Perseu sua capacidade de malabarismo. Quando enfim recebeu dele o antigo olhar que dizia aterrorizado: voc  extraordinria!, abandonou-se saciada.
     Mas era ele agora quem no a abandonava.
     Fitava-a disfarado, quase podendo pular sobre ela.
     Lucrcia Neves o irritara. Poderia um dia casar com ela e transform-la, como um homem pode dar uma surra numa mulher; mas ainda tinha a delicadeza de deixar esse trabalho para um outro.
     O que no o impedia de estar to enervado que seria capaz de, numa grande e nica braada, quebrar aqueles sujos bibels!
     Neste momento o rapaz pareceu compreender que ela gostava muito deles, e detestou-a e detestou-os, pois ento! ele era um homem! no suportaria por mais tempo as delicadezas, e varreria num s gesto as mulherezinhas inteligentes de S. Geraldo, seus bibels, seus caprichos - e ficaria s.
     Era este o cruel desejo do rapaz, olhando-a com ferocidade. Lucrcia, ameaada, crescia em defesa, ambos fitando-se em raiva, mas a verdade se transformando sorrateira: ele de testa enrugada, ela j assustada, ele masculino, ela feminina, uma leve, outro pesado, ela ruim e ele bom. Percebendo antes dele a situao em que estavam, a moa olhou-o em desafio. Perseu recuou.
     Ambos se fitaram decepcionados e atentos.
     Oh, ele bem a queria, sentiu Perseu; de sbito ela lhe era necessria assim como a moa parecia precisar de mveis, de bibels; ele precisava dela para que ela concretizasse alguma coisa com sua presena? num movimento fugitivo, quase negativo, foi assim que ele a compreendeu por um instante.
     Enquanto Lucrcia reinava olhando as unhas. Um dia ele tocara-lhe os ombros para mostrar-lhe alguma coisa e sentira os ossos daquela que se julgava uma rainha...
     Comeou depressa a contar-lhe os planos que fizera para um passeio, motivo afinal de sua visita matutina:
     - Tomamos o bonde no mercado, saltamos na segunda praa, de l pegamos o caminho do...
     Em breve, interessada, ela seguia o plano.
     E em breve, ambos distrados, de novo pareceram pensar na mesma coisa, no amor falhado h poucos minutos - e ela nunca perdoaria.
     E ele sabia ter feito o que devera para poder continuar seu lento caminho que o chamava mais do que uma mulher. Mas tinha vergonha de ter acertado.
     Calaram-se ao mesmo tempo. A moa examinava as unhas, o rapaz os sapatos.
     - Esta manh eu estava dormindo - disse ela de repente como uma criana - quando uma coisa me acordou, mas depois fui adormecendo, e sonhei que algum dava a cada pessoa o sono perdido, para a gente recuperar, sabe? ento me perguntavam se para mim era mil ou dois mil anos de sono, a eu dizia dois mil, ento me fechavam de novo os olhos e a eu...
     - Mas quem? interrompeu Perseu Maria mexendo-se na cadeira.
     - Quem como? perguntou enervada. No disse que era "alguma coisa?" - pois ento - continuou sorrindo de novo em gula e pressa - eu fechava os olhos e ia voltando, voltando, at que isso era eu dormindo, quer dizer - e ela se irritou por ter que explicar mesmo sem ele indagar - isso era eu estar dormindo. - Parou decepcionada. - E voc? perguntou depois da pausa numa rivalidade que a curiosidade vencia.
     - Nada, no sonhei nada! respondeu ardente, to inquieto ficava com os sonhos de Lucrcia Neves.
     Desiludida, ela fitou-o procurando ler naqueles olhos doces, naquela figura tmida e morena onde, o que haveria de feira, era beleza na rua do Mercado. Talvez nunca encontrasse outro homem to bonito, pensou com pena abaixando os olhos para esconder certa avidez:
     - Se minha me morresse eu ia morar com voc. - Como!
     A mocinha desceu do prprio olhar absorto e conseguiu fit-lo no meio da imaginao:
     - Ns no vamos casar, mas somos como noivos. E assim era. Ele se espantou com admirao: "
     mesmo", murmurou olhando para o teto, a boca em forma de assovio.
     - Que  que voc acha, devo ir embora? perguntou afinal, miservel.
     - V sim, disse ela com muita delicadeza. Como ele no se levantasse Lucrcia Neves acrescentou gentil:
     - Mame cortou o dedo sabe com qu?
     - Com qu... ? perguntou em desconfiana.
     - Com papel... Era papel fino. Deu um talho que a carne nem pulou. S riscou e saiu sangue.
     - Mentira, disse ele sabido.
     - Voc sempre acha que  mentira o que voc no acredita, respondeu a moa com altivez. At se ps desinfetante. Papel tambm corta, rapaz, pergunte a seu pai...
     -... Vou embora, retrucou ele inquieto estendendo a mo. Ela riu:
     - Gente como a gente no precisa dar a mo! e ela procurava sufocar o riso porque Perseu ficara vermelho e recolhera a mo, mas no conseguiu. E enquanto ria mostrando os dentes separados, ele saiu quase correndo horrorizado, esbarrando na estante.
     Sozinha, to de sbito, a moa mal teve tempo de acabar o riso.
     O sol, aproximando-se do meio-dia, irradiava o espelho. Pela varanda vinha um cheiro de trem, de rvores e de carvo - o cheiro de campo invadido que S. Geraldo tinha; ela mesma se encolheu preguiosa, viajando sacolejada na sala. E afinal, sob o rumor das rodas, entorpeceu-se at cochilar.
     O esprito liberto juntara-se ao vento pela janela aberta? e cada vez mais ntida, ela era um objeto da sala: os ps apoiavam-se no assoalho, o corpo se revelava no sexo e na forma. Tudo o que fora sobrenatural - a voz, o olhar, o modo de ser - acabara-se; o que ainda restava  que arrepiava o sobrado. Seria o momento de algum olh-la, e v-la. E de ter os olhos feridos pelo brilho duro de seu pequeno anel no dedo, cuja pedra reunia em si a fora da sala.
     A porta se abriu e a me acordou-a:
     - Voc me chamou...
     Lucrcia Neves abriu os olhos, espiou sem entender. Muito tempo havia passado.
     - Voc est bem? inquietou-se Ana. O rosto est corado demais...
     - No sei... estou com fome, disse em voz alta, coando-se com dificuldade.
     - Fome, pensou a me surpresa.
     Nunca ouvira essa voz de filha. Sim, disse Ana refazendo-se a custo em nova maternidade, ela est com fome, repetiu tola para que outros ouvissem e julgassem, e soubessem que sua filha dissera, na sua voz mais infantil e egosta, que estava com fome. Ah, menina,  a volta da sade, disse hesitante,  a volta da sade, repetiu saindo para buscar o leite, perplexa, um pouco amarga.
     Lucrcia Neves sorria em mistrio e estupidez. Sentia fome, sim, e arranhava o rosto com as unhas; parecia mesmo gorda; de fato atingira uma idade.
     Dagora em diante talvez no tivesse nada mais a perder. Agora seria tarde demais mesmo para morrer.
     Sorrindo, bonitinha, olhando a mo direita onde queria ver em breve um anel de compromisso. Mais do que compromisso, de aliana.
     
CAPTULO OITAVO
A TRAIO
     
     UM MS depois de ter vendido S. Geraldo, foi com a amigo de Mateus tratar dos papis de casamento. O amigo disse:
     - Espere nessa esquina enquanto entro no tabelio. A moa ento respondeu:
     - Pois no, doutor.
     E na esquina ficou, segurando a bolsa. Estava tranqila embora desconfiada.
     Com ponderao olhava de um lado e de outro, calculando e medindo esta nova cidade que comprara.
     Mas no era nenhuma ingnua sacrificada. Lucrcia Neves desejava ser rica, possuir coisas e subir de ambiente.
     Como as ambiciosas moas de S. Geraldo, esperando que o dia de npcias as libertasse do subrbio - assim estava ela, sria, vestida de cor-de-rosa. Sapato e chapu novo. De algum modo atraente. De algum modo enigmtica. Refazendo alguma prega amarrotada da saia, pipocando uma poeirinha na manga. De quando em quando dava um suspiro de educao.
     Mas, talvez transviada pelo vento, talvez por estar de p numa esquina - em breve entreabria os lbios que o ar secava, e sorria. Modesta no seu crime, sem culpa. s vezes apertava a bolsa, suspirava enlevada.
     E quando o advogado reapareceu to ocupado, olhou-o de longe quase tola, solta nestas ruas que no eram suas, com um homem que falava e conduzia - um advogado! O primeiro elemento que realmente conhecia de Mateus.
     E a primeira manifestao tcnica desta nova cidade onde iria morar. A poeira rastejava acima das caladas e a luz franzia o rosto.
     Lucrcia estava toda enfeitada. Ana a ajudara a se vestir, soluando - enquanto ela mesma ainda guardava um sentimento para comear s nas npcias, um sentimento que no sabia iniciar e j era quase tempo...
     - ...por aqui, informava-lhe o advogado olhando-a rpido, novamente surpreendido com a noiva roceira que Mateus, sempre imprevisvel, descobrira - ento Lucrcia Neves lhe respondia em sorriso grave.
      o destino, soprava-se seguindo-o to depressa quanto podia em tais sapatos, segurando o chapu que o vento queria levar -  o destino, dizia contente de ser subjugada. Feliz embora desassossegada porque estranhava a ausncia de perigo.
     Nas caladas cheias de gente ningum olhava para ela, cujo vestido cor-de-rosa teria todavia encanto em S. Geraldo.
     Queria tambm no perder tempo e olhar logo a nova cidade - esta, sim! verdadeira metrpole - que seria o prmio do forasteiro - todo homem parecia prometer uma cidade maior a uma mulher.
     Procurava um modo bem prprio de olhar e foi, atravs do tringulo formado pelo brao que mantinha o chapu na cabea, que viu um homem correr para pegar o bonde...
     Na verdade as coisas novas  que a olhavam e ela passava entre elas correndo atrs do advogado. Uma vez fora do subrbio, desaparecera sua espcie de beleza, e sua importncia diminura. No teve alis tempo para pensar porque o advogado a convidava para tomar um caf. Tornou-se ento solene, aceitou com uma reverncia de cabea, censurando-se por distrair-se em tais momentos. Estava contente de iniciar desde j o ritual da nova vida, com precauo sentou-se sobre a saia pregueada. At bolos vieram para a mesa... Ela comeu um, com o dedo mindinho erguido e a outra mo aparando os farelos. Como Ana teria medo! O bolo e a boca secos. E na xcara o caf tremia  passagem dos veculos.
     Estava acontecendo alguma coisa sem interesse para ningum, com certeza a "verdadeira vida". No entanto nesta Lucrcia Neves comeara por ser annima. O que afinal no era to ruim; pelo menos era muito mais largo. O cachorro entrou no caf, encaminhou-se direto  moa, tocando-lhes os saltos altos.
     - Sai, sai, disse dura e sorridente, sai, sai.
     Ele no saa. E, miservel, farejava com tristeza, mincia e necessidade os sapatos de verniz. No meio de todos ele a reconhecera - sai! exclamou to trgica e exausta que o advogado perguntou:
     - Ele est incomodando tanto?
     - Est sim, respondeu com voz rompida, sorrindo...
     Ele disse:
     - Fora! abanando a mo.
     O cachorro saiu sem pressa no mesmo instante. Ela riu admirada.
     - Ele saiu, doutor...
     O advogado porm j no a olhava, de novo ocupado com a pasta de papis. Ento Lucrcia Neves recolheu o sorriso. Tossiu um pouco em sinal indecifrvel de sutileza. Estava cerimoniosa e feliz no limiar da grande cidade. Uma sirene de bombeiros passava anunciando-a.
     
CAPTULO NONO
O TESOURO EXPOSTO
     
     NO HAVIA um gesto sequer que pudesse exprimir a nova realidade.
     E, no meio dessa riqueza, estava Lucrcia Correia despenteada em "robe de chambre", sem conseguir reinar sobre o tesouro, mal adivinhando at onde ia o magnfico poro. Perdera agora certos cuidados consigo, intensamente feliz, arrastando-se, espiando, tentando inventariar o novo mundo que Mateus provocara com o brilhante no dedo mdio.
     Parecia enfim no ter tempo para nada, como as pessoas.
     O hotel, onde Mateus e Lucrcia se instalaram, apresentava uma comodidade j fora de moda. Nenhum dos hspedes porm o trocaria por outro mais moderno. Mesmo a decadncia dos sales recordava-lhes o tempo de nobreza e fartura que se teve em famlia - e sobretudo "a outra cidade" de onde todos vieram.
     No hall ornado de palmeiras os frisos das paredes j deixavam ver o fundo podre da madeira, e as moscas na saa de jantar recuavam a grande cidade  poca em que havia moscas. Embora, em poucos dias, parecesse  recm-casada no ver h anos uma vaca ou um cavalo.
     Foi nesse meio, favorvel a um amadurecimento e a uma decomposio, que Mateus instalou regiamente Lucrcia Neves. Logo depois do primeiro almoo esta compreendia o anel do marido.
     - Espero que voc seja feliz aqui, disse-lhe este, e tinha ar modesto de haver mostrado parte de seu carter.
      Lucrcia, os restos de um fausto mal soterrado fascinaram tanto quanto o contnuo rudo daquela cidade.
     Pois se em S. Geraldo os motores eram invisveis, aqui haviam emergido, e no se sabia o que era motor e o que j era coisa. Lucrcia passou a considerar-se o membro mais inexperiente da cidade, e deixava-se guiar pelo marido em visitas a "lugares", na esperana de em breve entender os txis se cruzando entre gritos de jornaleiros e aquelas mulheres bem caladas pulando por cima da lama.
     Porque esta cidade, ao contrrio de S. Geraldo, parecia manifestar-se a todo momento e as pessoas se manifestavam a todo momento.
     Mateus Correia levou-a ao Museu, ao Jardim Zoolgico, ao Aqurio Nacional. Era assim que ele persistia em lhe mostrar o prprio feitio: mostrando-lhe as coisas que vira; paciente, esperando que aquela mulher se tornasse igual a ele.
     Tudo esta entendeu com ateno, como se lhe ensinassem onde ficava o lugar de guardar vestidos, onde era o banheiro e onde se acendia a luz.
     No Museu, de braos dados - viram mquinas antigas na sua evoluo vagarosa at se tornarem esta coisa essencial: modernas. Tudo ela entendia, admirando o marido.
     Mas no Aqurio Nacional, por mais que procurasse no saberia que "coisa dele" Mateus vira. E cansada de percorrer a alma do esposo - que parecia se ter difundido por toda a cidade, mergulhando aqui apenas para reaparecer diferente e inconfundvel em outra extremidade - j cansada e tomando afinal uma folga, olhou por sua conta: os peixes.
     Vrias vezes Mateus tentou pux-la para ir embora. Mas ela, num indcio da crueldade futura, manteve-se dura de p. Com uma ponta de clera via no aqurio inserido na parede a superfcie da gua - de baixo para cima. De baixo para cima - via os peixes quase tocarem a tona e voltarem em doce rabada, e de novo investirem suaves, tentando com insone pacincia ultrapassar a linha dgua.
     O nico lugar onde podiam viver era-lhes a priso. Foi isso o que ela viu, teimosa, comparando a gua dos peixes com S. Geraldo - e dando a primeira cotovelada em Mateus que insistia em sair.
     Mesmo na sua cidade, Mateus Correia continuava a ser um forasteiro, um homem que de todos os lugares tirava o que lhe aproveitasse. Vivia na rua em correrias mas sempre calmo e elegante. Seus flancos eram frgidos, e assim as pernas e o pescoo - resultado talvez daquela mudez com que se trancava para o banho durante uma hora. Saa de l frio, os cabelos grisalhos perfumados. As unhas rasas se plantavam com lividez na grande mo: no bolso do palet um leno cheiroso. Ar de advogado ou engenheiro - tal era o seu ar de mistrio. Ela no se interessava pelos negcios do marido - mas como ele se preparava!
     Um adestramento contnuo. Ele era masculino e servil. Servil sem humilhao como um gladiador que se alugasse. E ela, sendo mulher, o servia. Enxugava-lhe o suor, alisava-lhe os msculos. Aviltava-a viver s custas das idas e vindas e dos treinos de Mateus, estendendo camisas que a poeira da cidade logo sujava, ou alimentando-o com carnes e vinhos. Mas no podia seno fascinar-se por aquela minuciosa ordem, que h muito parecia ter ultrapassado os motivos, no podia seno gastar os meses a prepar-lo para o combate.
     Esperando que um dia enfim algum esmagasse o seu colosso - e, com horror, ela ficasse livre. Cada vez que ele regressava ao hotel, a esposa se surpreendia de v-lo ainda solto. Ali todos alis pareciam viver ilicitamente, de empregos extraordinrios. Mateus Correia por exemplo era: intermedirio.
     Essa funo o deixava enigmtico e satisfeito: comia pouco de manh, beijava-a, a boca atravs do caf cheirando a pasta de dentes e a enjo matinal. Usava anis nos dedos como um escravo.
     E depois de t-lo ajudado na preparao, ela ficava sentada  mesa, olhando-o mover-se. Tudo era Mateus Correia agora. Banhos de Mateus. Escovas de Mateus. Tesouras de unhas de Mateus. Nunca se vira vida mais secretamente exterior que a dele: ela se abismava assistindo a ele. No se precisaria sequer conhec-lo melhor.
     E ele era muito espirituoso tambm. "s vezes morro de rir, mame", escrevia nos momentos de folga. Ana mudara-se para a fazenda da irm.
     Lucrcia mesma fora apanhada por alguma roda do sistema perfeito. Se pensara que se aliando a um forasteiro, sacudir-se-ia para sempre de S. Geraldo e cairia na fantasia? enganara-se.
     Cara de fato em outra cidade - o qu! em outra realidade - apenas mais avanada porque se tratava de grande metrpole onde as coisas de tal modo j se haviam confundido que os habitantes, ou viviam em ordem superior a elas, ou eram presos em alguma roda.
     Ela prpria fora apanhada por uma das rodas do sistema perfeito.
     Talvez mal apanhada, com a cabea para baixo e uma perna saltando fora.
     Mas de sua posio, quem sabe mesmo se privilegiada, espiava ainda bastante bem. De p,  porta do hotel. Vendo se entrecruzarem os milhares de gladiadores alugados. E enquanto essas esttuas passavam - os ratos, verdadeiros ratos, sem tempo a perder, roam o que podiam, aproveitando, sacudindo-se em riso. Que fizeste no. vero? perguntavam sufocados de riso, danavas? Em conscincia no se poderia dizer que os gladiadores danassem. Pelo contrrio, eram extraordinariamente metdicos.
     J num desejo de ordem superior, Lucrcia esperou ir mais duas ou trs vezes ao teatro, aguardando o momento em que atingiria um nmero difcil de contar, como sete ou nove, e poderia acrescentar esta frase: "eu ia ao teatro quase sempre".
     Sentada com o pblico, enquanto o bale prosseguia no palco; a escurido se abanava nos leques. Agregara-se a um povo e, fazendo parte dessa multido sem nome, sentia-se a um tempo clebre e desconhecida. Atrs do camarote, atrs da escurido, bem que adivinhava um salo - outro salo - outro salo - em fuga. Nos corredores, pontas de ps chegando atrasadas, mos afastando cortinas, e ofegantes as pessoas se acrescentando  escurido... ela prpria excitada pelos leques, transpirando no seu primeiro vestido preto de casada - "casei no vero", em ordem.
     No palco pernas e ps danavam sem que Lucrcia Neves Correia entendesse propriamente. Da ntima incompreenso da rua do Mercado, passara  incompreenso pblica. Bem que tentava iniciar-se nas expresses de rosto dos outros e nesses termos com que o mundo de Mateus mostrava conhecer os pormenores, a parte profissional das coisas. Vivia pipocando poeiras imaginrias do vestido e este gesto precioso deixava transparecerem grandes conhecimentos. Mas, apesar do esforo, conseguia olhar o bal apenas fascinada. Quanto mais que de longe era impossvel distinguir seno com um binculo. Sobre o decote o binculo do marido cegava-lhe o rosto.
     Dizendo-se com um cuidado antes desconhecido:  preciso esquecer o danarino.
     Porque a recm-casada estremecia tomada de amor pelo danarino. No me deixes, dizia abanando-se cerimoniosamente. Mateus Correia estendia-lhe bombons - comprava-lhe tudo, e Lucrcia j comeava a irritar-se com este homem que a tomara porque tinha prazer em ter uma mulher jovem e caprichosa - o danarino, em movimento elstico e vagaroso, encheu-a de surpresa, rasgou-lhe uma veia de sangue na boca: ela a misturou  doura do bombom, limpando os dentes com a unha.
     Sua falta de sensualidade era uma sensualidade repugnante de corao, a boca cheia de sangue, amando o bailarino. Sobretudo a que estava ele se dando? lembrava-se ela - nele se revia numa noite de chuva, tentando indicar as coisas - como ele mesmo horrorizadamente tentava.
     Ele era o bailarino daquela cidade.
     Mas se ela pudera ler no rosto de Perseu, de Ana, de Felipe, e mesmo do dr. Lucas - no do danarino no podia, era um rosto claro demais.
     A que estava ele se dando? sentia advertida. Apesar de que ainda compreendia melhor a dana do bailarino do que as outras demonstraes da cidade. Se ele lhe despertava o compromisso antigo, ela estava agora sem tempo, as saias presas por alguma roda do sistema perfeito. Ao mesmo tempo ningum a tiraria dali, tinha direito de estar num camarote: esta era a sua poca. A extraordinria garantia.
     Em breve o intervalo iluminava todo o teatro, o danarino desaparecia num salto, a cidade inteira aplaudia. Ento ela se erguia com Mateus, garantida, arrastando os quadris como um pavo. A respirao das pessoas ia enchendo os sales de calor, cada coisa proliferada pelos espelhos no meio da noite. Numa cidade adiantada cada notcia era espalhada pelo rdio, cada gesto multiplicado por espelhos - havia o cuidado de valorizar as manifestaes conseguidas.
     Tudo isso, porm, foi no comeo do casamento.
     Porque depois aprendeu a dizer: gostei muito, o teatro estava bom, me diverti tanto. A ordem superior. Estava muito bem danando, aprendeu ela a dizer mexendo sobrancelhas, e livrou-se para sempre de tantas realidades intransponveis. Esta  a praa mais bonita que j vi, dizia, e depois podia atravessar com segurana a praa mais bonita que j vira.
     Era assim. Que rpida caada. Saa para fazer compras, ia pela sombra olhando as placas dos dentistas, as fazendas expostas; at a loja era perto, alm dela era "longe": calculava na paisagem nova, comparando-a com a de S. Geraldo.
     Oh, nem se podia comparar. Mais adiante remodelavam o calamento de uma rua, e os aparelhos aperfeioados se esquentavam ao sol. Em poucos dias o calamento no seria to atual. E instrumentos ainda mais aperfeioados viriam trabalh-lo. Vrios transeuntes olhavam as mquinas. Lucrcia Neves Correia tambm. As mquinas.
     Se uma pessoa no as compreendia, estava inteiramente fora, quase isenta deste mundo. Mas se as compreendia? Se as compreendia estava inteiramente dentro, perdida. A melhor posio seria ainda a de ir embora, fingindo no as ter visto - foi o que Lucrcia fez, continuando as compras.
     De volta, a entrada na sala de jantar no brao de Mateus Correia, tendo que fingir felicidade apesar de ser to feliz: bananas como sobremesa. Que terrvel meio-dia na cidade: ferros fervilhando: casei no vero! todos comendo todos os pratos do cardpio. Era permitido, a crise ainda no rebentara. Depois o marido saa, os bigodes, o jornal das notcias. Ningum que batesse  porta e desse um recado: no me dou com ningum no hotel, pensava altiva no quarto de venezianas abaixadas onde tentava dormir porque Mateus queria que ela engordasse ainda mais, ainda mais, ainda mais.
     Oh, nem sabia resumir Mateus, sentada a seu lado na sorveteria.
     Ele usava chapu de abas largas. E deixara a unha do dedo mindinho crescer alm das outras. De abas largas e unha comprida - Mateus? No, ele no era impiedoso. Mas as coisas se haviam disposto de tal modo que lhe parecia urgente insinuar-se e conseguir a piedade dele. Como ela o lisonjeava! uma bajuladora, era o que ela era. Tambm porque queria mais presentes.
     E quando havia uma festa?
     De repente havia uma festa, convites arranjados sem muito direito, pareciam conseguir tudo por meios proibidos, cada um se defendendo como podia - o mundo girava, ela escolhia, suava as fazendas, Mateus aconselhava, ela, afinal desnudava os braos, o comeo dos seios. Entrava no salo.
     Brao pousado no do marido, saia arrastando-se na poeira, luzes, as mulheres mais belas do que ela, cujas costas estavam nuas, e tambm nus os braos plcidos - finalmente engordara. E ele! de bigodes, servil, dominador. Era nesse momento que ela o desconhecia inteiramente, dentro do desconhecimento j familiar em que ambos se compreendiam. le se afastava para cumprimentar, Mateus! a voz dela muda atravessando o salo, atravessando as janelas abertas para o luar, que lhe importava o luar! - o olhar corria por entre os rudos das saias, que lhe importava o seco luar, Mateus! porque ele era o guia cego mas o guia - Mateus! que de costas para ela examinava de cima a baixo outra mulher que nem nua estava.
     Sem contar com o espelho que o entortava nos bigodes. E desvendava uma expresso nova, cpida e suavssima... To enfeitiante que ela mesma sorriu. Mateus era gordo e bonito. E perigoso? como um acrobata. Ele parecia ter a precauo de jamais se confundir consigo mesmo. Ele era o resultado, no espelho, da manifestao de um outro. Ela, que sempre quisera as verdadeiras coisas, madeira, ferro, casa, bibel. s vezes diziam: vi a senhora com seu pai; ela se rejubilava ofendida.
     E assim o marido a convidou para danar, numa delicadeza que o tornava ainda mais desconhecido. E a grande danarina de S. Geraldo a errar nos primeiros passos... Pisando-o. Onde estava sua importncia? e a sala de visitas? e no meio de tudo isso era to feliz que sufocava. "Alcancei o Ideal de minha vida", escrevia a Ana.
     - Nunca se viu tanta comida, disse Mateus orgulhoso como se a festa fosse sua, era assim que cada um se apoderava do que podia, bem se v que tem qualquer coisa de Governo.
     -  verdade! retrucava ela, plena de alegria, surpreendendo-se de que a Lucrcia de S. Geraldo tivesse subido tanto que se misturasse aos que dirigiam uma cidade, o qu! um pas...
     Voltavam de carro para o hotel - como ele sabia gastar! ela se abanava radiante. Mas que ele a deixasse dormir.
     - Estou cansada, avisava com astcia de esposa. E se o luar recomeava com o seu morto silncio,
     o ambiente universal evitava a noite verdadeira; o modo ntimo se reduzia a impessoal. Profundamente feliz.
     Apenas um compromisso antigo no se realizava mais. Ainda podia ver, e via. Cara porm da superfcie das coisas para dentro.
     s vezes chovia, era calmo, ela dizia:
     - Hoje  quinta-feira, Mateus - e tudo se atualizava.
     Ele era incapaz de dizer uma palavra feia e quando em clera deixava escapar o comeo de uma, ela se apoiava no espaldar da cadeira rindo de cabea abaixada, rindo muito - e o marido a olhava com surpresa, lisonjeado - zangado e lisonjeado:
     - Pois se eu no disse nada, dizia rindo de modstia, ela o ajudando a ser um tipo, "pois se eu no disse nada"! exclamava, e a mulher dele ria sob a catstrofe.
     Alm de lisonje-lo, o resto era perscrut-lo inutilmente. Abismada. Aquelas criaturas no sentiam a menor necessidade de se explicarem - tal era o seu mistrio. Com as unhas limpas de homem que sabe de coisas e que bebe sem se embriagar. E muito bom mesmo para ela:
     - Se voc precisar de alguma coisa, diga, menina. Lucrcia Neves aproveitava:
     - Por falar nisso, ento eu precisava de um vestido com babados nas mangas e na saia.
     Ele no negava, ah, isso nunca: dava-lhe tudo.
     "Tenho tudo o que sonho", escrevia imediatamente  me, pronta a registrar mais um dado. Afinal imaginou que ele por fora devia ter uma amante, pois era to masculino e misterioso! Passou a procurar nos seus bolsos.
     At que abrindo sua gaveta achou o envelope. Abriu-o com auxlio de vapor e encontrou dentro a radiografia de dois dentes.
     Sim! mas tudo isso era mais alegre, os dias passavam, meses e meses passavam, perdiam-se horas - e no fundo de tudo aquele direito reconhecido, os jornais se publicando, uma gerao garantindo - e tantas vezes chegara a vez de ser culpada, ambos se atrasavam ou perdiam o bonde, ah, e procurar e no achar uma rua? me perdi, Mateus querido, no conheo a cidade, e chegar atrasada, as hesitaes, quantas vezes as hesitaes como mudanas de luz, e no se precisava forar a unio de um trecho a outro, bastava dormir que se acordava no dia seguinte, uma vez mais tarde, uma vez mais cedo.
     O principal era no sair do lugar por impacincia. Ter muita perseverana mesmo. E afinal chegava-se, como agora, a um certo ponto. Levada pelos txis, pelo acordar outro dia bem mais cedo, por preparar indefinidamente Mateus: tudo isso a levara ao ponto de estar comendo laranja azeda, fechando os olhos enquanto o homem perguntava:
     - Voc no acha, menina?
     - Sim, sim, dizia contida, a acidez secando as pontas dos dedos, cegando os dentes: sim, sim!
     Mas bem que ele vira a laranja, o sabido! e ria:
     - Laranja azeda e limo cortam paixo - ria o gladiador. E a estridncia recomeava, cada aresta secava. Porque ela possua seus nervos:
     - Voc com seus nervos. Mas ele perdoava, o bom, o misterioso Mateus, trancando-se no banheiro.
     Uma noite Lucrcia chorou um pouco, enquanto o lutador exausto sonhava ao lado. Tranqila a noite, agradvel mesmo, e o cu estrelado. Depois nem sabia em que momento adormecera, de tal modo veio o dia seguinte acrescentando-se  sua riqueza.
     Ento ela disse em clera: vou embora daqui.
     Na esperana de que ao menos em S. Geraldo "rua fosse rua, igreja igreja, e at cavalos tivessem guizo", como dissera Ana.
     Com surpresa viu que aquele homem nada desejava de melhor do que segui-la e agregar-se  cidade da mulher, ele que no pertencia a nenhuma.
     Foi assim que dias depois um carro levava o casal de volta para o subrbio.
     Saltando do txi, ela olhou um S. Geraldo - ruidoso? as pessoas rindo afrontosas. A dissonncia de uma roda.
     E inesperadamente a chuva caindo sobre a cidade agora j desconhecida, umedecendo-a em cinzas e tristezas...
     Ela de p com os embrulhos na mo, os pingos escorrendo pelo rosto. Mas de sbito fustigada, correndo pelas escadas, jogando os pacotes sobre uma cadeira - invadindo seu antigo quarto empoeirado e abrindo como uma ventania a janela da varanda e olhando.
     Os impermeveis se moviam pela rua do Mercado.
     E no crepsculo a mulher espiou o morro do pasto.
     A escarpa negra erguia-se em punho sobre S. Geraldo. O reinado sombrio dos eqinos.
     Assim ficou, aprumada, inexprimvel. Ambos se encarando atravs da chuva, apenas advertidos. Ah! exclamou a mulher se dando em jbilo. Pareceu ouvir o casco de um cavalo em pancada curta.
     Mas no se passara muito tempo e percebia que fora em extremo esforo que o morro lhe respondera.
     Aproveitando sua ausncia, S. Geraldo avanara em algum sentido, e ela j no reconhecia as coisas. Chamando-as, estas no mais respondiam - habituadas a serem chamadas por outros nomes.
     Outros olhares, que no o dela, haviam transformado o subrbio. Tambm no espiava mais os bibels, estes s suas costas.
     A presena da criada alterava a estrutura do primeiro andar, mos estranhas pegavam no passarinho empalhado, Mateus instalado como um rei na cadeira to simples de Ana.
     E ela adiando o momento de passear sozinha, esquecendo-o.
     - Quando eu posso, posso; quando no posso, no posso -  este o meu lema! disse Mateus Correia uma manh.
     E assim ela o conheceu cada vez mais.
     Deixava-se guiar pelo marido como se fosse ela a estrangeira em S. Geraldo. Saam juntos para passear, ele alto, de quadris fortes, os bigodes, e aquele quadrado em que parecia caber, o ar ao seu redor quase palpvel - e ela com os laos de fita que teimosamente usava, mesmo vendo com desgosto a sobriedade da moda. O chapu com vu, e aquela contnua corrida para estar ao lado dele, a corrida com o vu. S quando o marido morreu do corao ela compreendeu aquela fora regulada e de um lento precipitado, o pousar total quando se sentava, sem abandonar o ar erecto. Mas s vezes Mateus Correia ficava diablicamente alegre, esfregava as mos e, sem dizer o motivo da alegria, exclamava:
     - Lucrciazinha, vamos hoje fazer um bom pasto! "Pasto"... dissera ele. Voltava-se rpida  palavra
     que lhe lembrava sonhos de sonhos, o terror escapando das paredes e vivendo calmo, ela feliz.
     Fra ele quem transformara S. Geraldo num ambiente de restaurantes? os dois iam juntos, ela quase pulando ao redor dele - que andava ligeiramente atrs, srio, perfumado: olhando por trs dela as mulheres, interessando-se por aquelas de meia-idade. Fora Mateus quem transformara os habitantes do subrbio em criaturas de meia-idade? le no se incomodava de que a esposa percebesse seus olhares de cobia, porm mais do que isso no permitia: o resto era a enorme vida privada de um forasteiro.
     Ela o olhava atravs da mesa, assistindo a ele enfeitiada. Oh, Deus, dizia o vento baixo de S. Geraldo; mas vinha o segundo prato. Quando voltavam era quase bom, o alvio entre as amendoeiras, e um reconhecimento que ela no sabia a quem enderear: olhava o morro do pasto. Mas, se forava seus sentimentos, tudo se fechava sem portas, ela prpria bloqueada por sbita resistncia: c que terminara lhe dando um equilbrio permanente, certo orgulho de viver, e uma admirao to generalizada, to impenetrvel que no tinha sequer um segundo momento: ela dizia: que noite bonita! e sua boca era apenas maravilhada. Que noite bonita, Mateus, e a sombra descia cada vez mais amansando as coisas na brisa.
     O que antes se via, espalhara-se agora invisvel por S. Geraldo - o vento balanava os ramos na sombra. E seu compromisso espalhara-se pelo mundo inteiro: ouvia notcias pelo rdio - enquanto se faziam negcios de jias, e grandes fardos de algodo se amontoavam ao meio-dia: Mateus Correia chegava para o almoo, ela respirava a pele ensolarada do marido, procurando adivinhar o que acontecia? ao redor havia os comeos alegres de primavera, as modas se transformando, as unhas crescendo e se cortando; a civilizao se erguia, pessoas passeavam nas noites de vero - e ela olhando pela varanda.
     Olhando com o rosto envelhecido e excitado de fadiga, perscrutando a chegada do marido que numa noite de quarta-feira demorara a vir jantar.
     Estava  varanda da sala de visitas, e atrs o maquinismo da casa funcionava com alegria, a fumaa se exalando do fogo - como uma histria antiga. A rua do Mercado cheia, porm, de novas luzes e de novos carros. Lucrcia esperava Mateus, mergulhava o rosto na rua, ai! suspirava no primeiro andar, bondes e carros abafavam a exclamao. Inmeras buzinas macias ou esgalhadas enchiam o ar do sobrado de rudos, quase luzes.
     Mas atravs das buzinas abafadas sentia-se o prazer das ruas como fontes de um jardim, o apito do guarda civil entre os postes: algo mecnico sucedia no mundo. E, atrs, o par de meias secava na cadeira. Ai, suspirava com o rosto coberto de p-de-arroz, o marido no vinha, ai! dizia a cara exposta.
     E de sbito o som desafinado, um trem descarrilhando dentro do relgio da torre, um! - cara de cal - dois! - o incndio da casa - trs! eram oito horas e Mateus no vinha! Os olhos estavam secos mas as buzinas soluavam e da rua subia cheiro de acar e vinagre.
     Como se transformara o subrbio! o suor da noite quente colava roupas ao corpo, o perfume exaltado de farinha erguia-se at o nariz: tudo esperava chuva.
     De fato j chovia. Gotas espaadas de incio, e depois, pouco a pouco, mas j incomensurvel, o mundo inteiro chovia - por mais longe que se olhasse havia a chuva furiosa e constante, as ruas banhadas se esvaziavam. As luzes refrescadas. Pelos canos as guas escorriam com pressa.
     Vista do alto de uma janela a cidade era um perigo.
     Carros, de condutores invisveis, deslizavam ngua e de sbito mudavam de direo, no se sabia por qu. S. Geraldo perdera os motivos e agora funcionava sozinho. Bondes nos trilhos abafavam outros rudos, e certas coisas pareciam mover-se inteiramente silenciosas - um carro elegante apareceu tranqilo e desapareceu. Em S. Geraldo nascera uma vida diria que nenhum forasteiro perceberia. Chovia e os tempos eram maus, estava-se em plena crise.
     Mas havia uma glria que at ento nunca se atingira. Indivisvel pelos habitantes. Se acontecia um assassinato, era S. Geraldo quem assassinara. Nunca as coisas haviam pertencido tanto s coisas. Fora para sempre deflagrada uma mola, e a cidade era um crime.
     Esta cidade  minha, olhou a mulher. Como pesava.
     Poucos minutos depois a chuva cessou. As caladas molhadas cheiravam alto, restos de peixe da manh eram arrastados para os esgotos... a padaria j apagara as luzes, as estrelas estavam limpas.
     Abriu-se a porta e Mateus Correia entrou ensopado. Ela correu e escondeu-se nos ombros do homem e este, espantado, alisou os cabelos de sua companheira com mos molhadas. Ele fora o escolhido para a sua necessria queda, e era ele quem a salvava: a mulher chorou de nervoso, comearia a fatig-la a resistncia deste mundo? chorava feliz, por um instante liberta do dever com que nascera, que lhe haviam transmitido no meio e que ela certamente transmitiria sem explicaes no meio tambm, escondendo-se no seu ombro contra a glria de S. Geraldo deflagrado - e Mateus parecia saber muito mais do que demonstrava, pois no procurava sequer compreend-la; perfeito, perfeito, as mos molhadas sobre os seus cabelos - ela sufocada de felicidade, sofrendo por ter que um dia amar outro, pois estava dito sem explicaes que tambm ela uma vez amasse com brutalidade, talvez para elevar esta cidade com mais uma pedra? o marido bom, incompreensvel, ela chorando - no havia como escapar, a mulher era feliz.
     Enquanto Mateus continuava a lev-la a cada novo restaurante.
     E  proporo em que se inauguravam restaurantes, mais garantido ficava S. Geraldo. A fartura, a elegncia, fumaa de charutos e pratos quentes, eram tal segurana! Lucrcia tinha pena de Ana Rocha Neves que morava na fazenda e nunca experimentara viver nesse luxo e comer essas ricas carnes.
     Ah, se Ana visse como S. Geraldo progredia! J ento Lucrcia tentava gostar daquelas mudanas, com medo de perder p na cidade e de no alcan-la mais. Comiam em silncio. A esposa insinuante lsonjeando-o e lisonjeando servilmente as coisas: est bom, hem? Mateus Correia respondia ofendido: naturalmente, ora! O que a emudecia, fazendo-a mesmo corar. Tentava de outro modo ento:
     - At que no gostamos de jantar fora, no ?
     - Isso pode ser voc, eu no! respondeu ele sarcstico, humilhado. No gostar, destruiria a ordem superior? O marido dava-lhe mesmo a entender que ele indo s ao restaurante tudo era diferente, convencendo-a de tal forma que parecia a Lucrcia bastar sua presena para que as coisas se camuflassem: sofrendo, ela o interrompia: olha uma estrela cadente! dizia bajulando-o, e era mentira, quem sabe por qu. De volta, na cidade escura, como era tempestuosa e quente a felicidade.
     Nesse tempo de felicidade vivia cheia de pequenas rugas se formando, acompanhando modas em figurinos franceses, misturada a essa poeirenta poca que aspirava com sufocao  posteridade - enquanto se usavam formas teis de pensamentos: "na teoria  timo mas na prtica falha", dizia-se muito, e  luz de um poste passava o carro em disparada.
     No dia seguinte,  tardinha, finalmente cessara a mida chuva de duas semanas.
     A cidade prspera rutilava. Nas caladas alguns homens ergueram caras indecisas: o cu estava claro, quase verde, quase neutro... E sob a agudez do incolor elevavam-se os modestos telhados de S. Geraldo. Por um instante raro, s derradeiras gotas iluminadas da chuva, a cidade estava unnime. Pessoas olhavam a piscar, reconhecendo a constncia das coisas. Os rostos espantados como se tivessem sido avisados de que a hora chegara. De voltar as costas  cidade madura, e ir para sempre embora.
     Tambm se empregava muito a palavra "sociedade", naqueles tempos. "A sociedade exige tudo e no d nada, o senhor no acha?", dizia-se muito.
     - A sociedade exige tudo e no d nada, disse Mateus no sbado de manh, no meio da conversa que ambos pareciam procurar h tanto tempo.
     De fato gostariam de enfim se defrontar. E quando por acaso comearam a falar de maridos trarem esposas, os dois agarraram-se com reconhecimento  oportunidade. Ela se acomodou com a costura no regao.
     - No  considerado nenhum crime, disse ele, assim  feita a sociedade, acrescentou com orgulho, os olhos midos de emoo porque ele era muito bom.
     -  sim, disse ela atenta.
     - Assim  feita a sociedade, repetiu o homem com precauo. No  crime um homem ter algum interesse pelas mulheres mas  crime a esposa se interessar por outro homem. - Como ele tinha bom-senso e lgica! ambos se mantinham em torno do ponto neutro, nenhum querendo arriscar-se antes do outro.
     - Pois .
     - Nunca desonrei o lar por mim criado, disse o marido e ambos se fitaram com receio de que ele se tivesse excedido - Mateus usara alguma palavra errada. Certo cansao tomou-a mesmo, ela quase deslizava para uma sinceridade que tornaria insuportvel a conversa superior de ambos. Fixava a toalha da mesa, alisava uma prega.
     - Nunca desonrei o lar criado por mim! repetiu o homem de repente muito alto, como se mudando a disposio das mesmas palavras ele prprio se ajeitasse melhor.
     Que insistncia, pensava a esposa. Ah, se tivesse algum a quem contar depois, como seria verdadeira de repente e como faria mal quele homem que ela desconhecia mas sabia como ferir.
     Desejava que o marido se interrompesse porm Mateus agora irreprimvel prosseguia explicando seu carter, seus princpios morais e qual o seu modo de tratar as mulheres - embora tudo isso no o revelasse em nenhum momento. Ela enrolava a ponta da toalha, sonhadora.
     - Lucrcia, disse o marido com certa angstia, voc no est ouvindo!
     - Estou sim, voc dizia que seria delicado com as mulheres em qualquer ocasio.
     - Sim, em qualquer ocasio, repetiu Mateus decepcionado ...
     Calaram-se. Ela olhava o cho sem interesse. Ele, ao contrrio, excitado pela nobreza com que se descrevera, fitava avidamente as mos, inquieto e cheio de planos para o futuro. De fato ele percebia que falar era o seu melhor modo de pensar e que era bom ser escutado por uma mulher. Procurou reatar a conversa mas Lucrcia fugia com um ar que lhe pareceu tranqilo e triste. Olhando-a Mateus teria talvez descoberto que no fundo sempre a temera. Nada havia de mais perigoso do que uma mulher fria. E Lucrcia era casta como um peixe. Pela primeira vez ele pareceu notar no rosto da esposa certo abandono sem socorro. Desviou o olhar com bondade.
     - E voc, que planos tem? perguntou para agrad-la, esquecendo que os prprios ele os pensara apenas.
     - Como? despertou ela, como planos? quais? que  que voc est dizendo?
     le mesmo se assustou sem saber por qu:
     - Nada... ora, Lucrcia, planos, programas, ora...
     - Como programas? insistia a esposa com ironia. Que  que voc quer dizer com isso, voc tem algum plano quanto a ns?
     - Que planos quanto a ns?
     - Mas, Mateus, voc no falou em planos quanto a ns?
     - No, no era quanto a ns... quer dizer, sim, mas no sei o que voc est inventando, era tudo para bem...
     - Para bem!
     - Sim, para bem! por que havia de ser pra mal, meu Deus!
     - Mas quem falou em mal? estivemos ento mal, falou ela estridente.
     - No, no era isso... digo planos pra voc...
     - ...voc acha que devo ter planos separados dos seus?
     - No, por Deus, eu tambm tenho os meus mas voc...
     - ...separados dos meus?
     - Oh, meu Deus!
     - Quais so os seus, Mateus?
     Assim argido ele no saberia dizer quais eram. E olhava para a frente incomunicvel, parado com teimosia no caminho.
     - So os meus, disse com altivez e sofrimento.
     - E pode-se saber por acaso?
     - Progredir, disse afinal Mateus Correia com esforo e vergonha.
     Ela abriu a boca e fitou-o com enorme espanto. Passado um momento, toda a casa tomou sua posio na rua, e, vencida dentro da sala de jantar, ela disse:
     - Sim, Mateus.
     - Voc no acha? animou-se ele, e, sem que ela soubesse que o marido morreria do corao, tinha receio de sua alegria. - E no pense que  coisa no ar, tenho tudo escrito na cabea, hem? que  que voc acha, hem?
     - De qu?
     - Mas do que eu disse, que diabo, Lucrcia! exclamou o lutador ferido.
     - Como  que eu posso saber o que voc d:sse, murmurou cheia de clera e desesperana...
     Foi a nica vez em que se defrontaram.
     A beleza de tudo isso  que ela estava to perdida que parecia guiada. Rica e perdida, os cinemas se abrindo, os espelhos multiplicando os sinais. le perguntando, ela respondendo, e certo descontrole: ela no poderia mesmo conter certas frases.
     - Vou comprar uma fazenda de gaze para blusa bordada em ponto de cruz!
     Tinha que lhe dizer.
     - H quanto tempo no como bananas, e quase segurava Mateus pela lapela, ele se desviando incomodado.
     Um sortimento de jias formidvel, Mateus! Mateus! meus lbios esto partindo, informava.
     At que um dia ela disse no meio de uma sala cheia de visitas:
     - Rigoletto  sempre Rigoletto, disse ela.
     E assustou-se. Seria esta sentena de outro tempo? tanto que se houvesse jovens na sala eles a olhariam curiosos. Lucrcia adivinhou-o com medo.
     S. Geraldo no estava mais no ponto nascente, ela perdera a antiga importncia e seu lugar inalienvel no subrbio. Havia mesmo planos de construo de um viaduto que ligaria o morro  cidade baixa... Os terrenos do morro j comeavam a se vender para futuras residncias: para onde iriam os cavalos?
     Assistindo  chegada de homens e mquinas, os cavalos mudavam pacientes a posio das patas. Afastando as moscas ensolaradas com as caudas.
     Nesse perodo Lucrcia Correia se agregou enfim ao que sucedia. Terminando por admitir que sonhara com este progresso e lhe dera sua prpria fora. Reconhecendo aqui e ali marcas de sua construo.
     Recomeou ento os passeios, e uma nova dureza nasceu em relao ao marido. Nessa poca ele j passara a trabalhar menos e sucedia-lhe ficar horas em casa, em fastio. E se ambos resolviam no sair, cruzavam-se a cada momento pelas salas com irritao. Um deles precisaria ser expulso, agora que Lucrcia recuperara o antigo poder. Na mesa ele jogava bolinhas de miolo de po que a mulher recebia no rosto srio, ou amassava uma folha de jornal, lanando-lhe a bola  cabea:
     - Parto-te a tarantela em dois - ele chamava cabea de tarantela. Ela empalidecia.
     J  porta de casa ficava mais feliz, abria em seco estalido o guarda-sol, equilibrando-se sobre a corda.
     Como S. Geraldo estava bem equipado. Pronto para zarpar? Mas para onde zarparia aquilo que, de ser de pedra, fizera a sua glria.
     Quando voltava, encontrava Mateus fumando enervado. Mal a via entrar, apagava o cigarro, cercando-o, localizando-o, e, num prazer de p: pisando-o em cheio, bem na sua luz. Ambos olhavam deslumbrados o cigarro rasgado. Ela se abismando como se ele acabasse de matar um galo.
     Cada vez mais as relaes se crispavam entre as pessoas e mesmo Mateus, que no pertencia ao subrbio, secava de irritao. Encaminhava-se  janela e dizia, como se mandasse a mulher ficar - porque a presena de algum modo vitoriosa de Lucrcia sufocava-o:
     - Bem. Vou ver uma estrelinha.
     S Lucrcia no era mais atingida pela tenso da cidade. Sobretudo quando algum se queixava da dificuldade de pegar um bonde ou alugar uma casa, Lucrcia Correia abaixava os olhos procurando esconder - que era ela a culpada.
     Mas se ia ao mdico tornava-se loquaz, confundia-se em expresses cada vez mais precisas e difceis:
     - No  propriamente dor,  mais impresso, doutor, e depois no sinto mais nada, durante meses - no chega a ser desagradvel, sabe? - Ah e tambm sofro  toa de calafrios, acrescentava em tempo com altivez.
     O mdico escutava, fingindo pensar. Com o rosto sonolento pontuava cada frase daquela mulher. Oh, ela era particular e irritante. S. Geraldo estava agora cheio de mulheres particulares que gostavam de ir ao mdico. Lucrcia pusera de fato seu melhor vestido. E agora esperava modesta o veredicto. "Repouso, minha senhora, bastante repouso." Saa soberba, tranqila.
     - Me d aquele bordado, Mateus! murmurava escondendo a fora.
     E mesmo ela ocultando as garras, Mateus diminua cada vez mais.
     No s por culpa dela. No meio da confuso da cidade  que se reconheceria um forasteiro: este no tinha onde se agarrar, enquanto Lucrcia Neves fazia parte da avalancha. Prepara-a instante por instante. Depois que levara o marido a morar na rua do Mercado, tornara-se progressivamente mais cruel. Mateus dera para ficar em casa o dia inteiro, espiando da janela as vitrinas iluminadas nos dias de chuva, contando os carros. Vivia  cata de coisas quebradas para endireitar e dormia depois do almoo, naquelas tardes sujas e cheias de vento. Enquanto ela se pavoneava pelas salas arrastando o robe de chambre. Achava-se a criatura mais inteligente do mundo e fazia questo de demonstr-lo a Mateus. Este, com a voz mais fraca num corpo sempre maior, a impacientava, provocando-lhe aqueles coices secos na cauda do vestido de casa. Ela olhava-o com grandes olhos admirados, ria rumorosamente de frieza:
     - Mateusinho, dizia esmagando-o com curiosidade, Mateusinho-perna-fina, dizia rindo e aproveitando a fraqueza do forasteiro para expuls-lo.
     le ria muito porque eram desses tipos de brincadeiras que havia ensinado  mulher na poca em que fora o dono da casa; ria aprovando e os dois se olhavam. Mas ela se sentia um pouco  merc do homem que assistira a sua decadncia antes de seu renascimento. Orgulhosa, no queria testemunhas do modo como procurara transformar-se e de como lanara mos dos mesmos sujos andaimes que S. Geraldo utilizava antes de aparecer com um novo edifcio ou um sistema mais moderno de esgotos. Quanto mais receava estar nas mos dele, mais procurava agrad-lo. Tomava um ar lisonjeiro e odioso que o marido aceitava enchendo-se por um momento da antiga virilidade: ela lhe dizia como se falasse de uma terceira pessoa:
     - Ele no entende nada de roupas! ponham a mulher dele vestida de estopa e digam:  lindo! ele repete:  lindo! - ela ria e o marido ria adulado; ento ela ria mais suave: o estpido.
     Era preciso manter a hilaridade para disfarar a palavra, enquanto atravs do prprio riso ele j examinava a esposa, modesto e inquieto. Lucrcia, no satisfeita, arriscando tudo, repetia: o estpido. Fitavam-se rindo tanto que as lgrimas apareciam nos olhos, ela entrecortando o riso de "ais" estridentes.
     Quanto mais S. Geraldo se alargava, maior era a sua dificuldade de falar com clareza, to dissimulada se tornara. Mateus, agora extremamente curioso, perguntava-lhe : como foi a visita ? - ela se guardando imediatamente : no sei, mais ou menos!
     -  grande a casa? insistia ele vido, de chinelos.
     - Sei l, conforme... defendia-se olhando-o com intensidade para perceber se as perguntas iam se tornar prementes.
     - Mas quantos quartos?
     - Voc acha que reparei... juro que nem olhei, imagine...
     - Mas enfim, uma sala s?
     - Duas, dizia afinal, doce e acabada. Parecia-lhe que o nico modo agora de descrever S.
     Geraldo era o de perder-se nas suas ruas.
     At que Mateus lia um trecho do novo jornal. Ela ouvia quase intimidada seu tom herico - um forasteiro podia cantar essa grande cidade que se formava, enquanto ela no sabia mais v-la sequer...
     "O pblico", lia Mateus, "seguiu interessado essas renovaes felizes, e nossa imprensa no deixou de saud-las, acentuando o alcance moral de tais aes. Pois, no  dando valor  herana dos antepassados, construda com o suor de suas frontes, que se honra uma cidade?", tremia Mateus Correia. Ela quereria interromper o tom de insuportvel beleza com que o marido lia os louvores  cidade. "Mas a Comisso de Urbanismo teve ultimamente a infeliz idia de demolir o antigo edifcio dos Correios e Telgrafos, idia essa que faz estremecerem de indignao as pedras de nossas ruas. Intil dizer que o povo de S. Geraldo aguarda explicaes." Aos poucos, enquanto o homem declamava, Lucrcia Neves engrandecia enigmtica uma esttua aos ps da qual, em festa cvica, se depositassem flores.
     Ento saa sozinha, gozando do trfego da cidade com sofrimento, prestando ateno em tudo: caminhos cheios de poeira e sol, as pessoas se cruzavam. Sua dificuldade tirava o interesse imediato das coisas, com esforo ela ia buscar longe o que existia, fazendo enormes e inteis passeios de onde voltava exausta. Mateus! gritava irritada, Mateus! vem c! Mateus j ensurdecido, ela esperando a resposta, e a casa em meia sombra, arrumada. Mateus!, ordenava, e ia ficando absorta, dominada pela imobilidade das salas, mergulhada numa realidade que seria ultrapassvel apenas por vos, e da qual ela s podia arrancar-se com brutalidade: Mateus!
     Em breve tal estado tomou mesmo um ar de ter sempre existido, a casa em meia escurido naquela rica poca de inverno. Cobriam-se as estradas de asfalto antes da vinda das chuvas, acendiam-se as luzes mais cedo, as portas se abriam e se fechavam secas. Mateus perguntando de um quarto para outro: que dia  hoje? e sua prpria voz respondendo: tera-feira.
     Foi ento que tirou o retrato que mais tarde tanto intrigaria seus filhos.
     Nessa poca estava realmente no apogeu.
     Sentou-se, controlou bem os msculos do pescoo, a vista se escureceu de emoo, o fotgrafo lanou o grito: sorria! o magnsio explodiu em claridade. Pronto, disse o fotgrafo, e o rosto, os ombros e a cintura desmoronaram.
     Dias depois foi buscar o resultado. E eis aquela mulher reconhecvel, dura. O rosto dizia uma coisa? o pensamento indicava uma coisa, o pescoo tenso. Um retrato como se tira numa grande cidade, que S. Geraldo ainda no era. Fora um prenuncio.
     Pendurou-o no corredor, ao lado de um desenho em carto-postal do futuro viaduto. Espanava-o diariamente. s vezes, largando o bordado, corria e parava diante dele. Ambos se olhavam. Ela o fitando com estupor e orgulho: que obra realizada. Ficara mesmo mais livre depois que se fotografara; parecia agora poder ser o que quisesse.
     Mas cada vez mais a fotografia ia se destacando do modelo, e a mulher a procurava como a um ideal. O rosto na parede, to inchado e digno, tinha no sonho sufocante um destino, enquanto ela mesma... Talvez tivesse cado no maquinismo das coisas, e o retrato fosse a superfcie inatingvel, j a ordem superior da solido - a sua prpria histria que, despercebida por Lucrcia Neves, o fotgrafo captara para a posteridade.
     
CAPTULO DCIMO
O MILHO NO CAMPO
     
     NUMA de suas ltimas viagens de negcio, em vez de deixar a esposa na rua do Mercado, Mateus alugou-lhe a casinha na ilha, esperando que o mar lhe desse cores.
     A barca hesitava vencendo as ondas que uma tempestade frustrada enchia de clera e de espuma.
     Plida de enjo Lucrcia apertava os olhos esforando-se por ver de longe a terra que se negava. Mal desembarcara porm, e certo prazer j nascia com os passos afundando na areia do cais. Em breve atingia o centro da pequena cidade martima, chefiando a comitiva de carregador e criada. Antes de tomar a charrete ainda viu a placa de Dr. Lucas, que representava, aos olhos de Mateus, a segurana da sade de Lucrcia, na verdade emagrecida.
     Subindo na charrete, marcou bem a casa onde encontraria o mdico se dele precisasse. Com surpresa seu corao em vez de sentir apenas confiana, estremeceu acordando  lembrana de uma fora quase ntegra? deu ordem de partida.
     Os cavalos a carregavam em tropeos e sbitos avanos atravs do atalho mas em breve corriam empinando cabeas - e em breve a mulher queria que voassem. 
     Alquebrada por algum desejo arrancou mesmo o chapu e deixou os cabelos desfeitos ao vento. O que desejava dizer com esse gesto s as rvores assistiam, e os cavalos avanavam entre elas.
     L estava a casa de madeira, em preto e branco por causa da umidade que lhe escurecia as linhas. A folhagem em torno era ardida pela maresia que o vento constante soprava: Lucrcia cheirava o ar salgado, farejava com cuidado aquilo tudo que lhe pareceu de uma realidade fria e ligeira como de um crrego - e que tanto lembrava a silenciosa poca anterior ao progresso de S. Geraldo. Uma casa leve, construda sobre terra arenosa; depois de alguns dias percebeu que tambm acordava de pele branca e clios negros, toda em claro e escuro, tanto j comeara a imitar a nova paisagem. Um pardal atravessara a salinha de uma janela a outra. Lucrcia Correia no se cansava de percorrer a minscula moradia, cada vez mais espantada: tudo se tornara to fcil que fazia um pouco mal.
     Ao primeiro pretexto, por um queijo desaparecido, brigara com a empregada e mandara-a embora. E afinal - sozinha com o antigo cuidado de viver - percebia cada estalo da madeira, vigiava as rosas crescendo no jardim, dava pequenas corridas e gritos bruscos de reconhecimento. Durante a noite as rosas colhidas alumiavam vagamente o quarto e deixavam a mulher insone; as guas batendo na praia distante queriam transport-la mas o coaxar dos sapos a vigiava de perto. De manh acordava to plida como se tivesse cavalgado a noite toda: corria descala e abria a porta para o quintal de areia. Novas rosas haviam desabrochado.
     O mar ficava longe mas as rosas queimariam ao vento salgado que  tardinha soprava.
     Sentava-se ento  porta de casa com o chal de Ana nos ombros. Quanto mais vinha a noite mais longe tudo parecia, quem tinha partido partira para sempre, os ramos tremiam, as rvores enegreciam nas razes e as clareiras arenosas se revelavam: brancas. Era um lugar imenso. Se acontecesse alguma coisa, esta repicaria em sino. A mulher evitava mesmo a alegria, hesitando naqueles passos que reconhecia apenas por intermdio do receio: recolhia a cadeira, fechava a casa e acendia o lampio sobre a mesa. Tudo o que estivera fora estava dentro.
     Adormecia atenta como se pudesse amanhecer com a casa cercada de cavalos. E parecia a primeira noite a dormir depois que se enterrava uma pessoa. Fora daquela pausa na revoluo que Ana um dia tivera medo? O tique-taque do despertador suspendia cada coisa  prpria superfcie. Dava uma solido precisa a cada objeto. O vo na mesa da cozinha era oval. O quadrado da janela era quadrado. E de manh a forma da mulher na porta era escura  luz.
     E os mosquitos. A casa das rosas era solevada em glria no ar por mosquitos leves de pernas altas. Haviam crescido alm do tamanho e, enfraquecidos por esse excesso, era fcil toc-los: quando se deixava um copo dgua afogavam-se sem ao menos deteriorarem-se. Era uma vida breve, sem relutncia. Pareciam viver de uma histria muito maior do que as suas. E, to inteis e resplandescentes, faziam do mundo a orbe.
     
     A aranha j tecera vrias teias na janela quando a mulher tomou o caminho que a levaria ao centro.
     Sobrados de azulejos ficavam  beira dgua e toda a cidadezinha se mostrava em fila para quem viesse do mar. Atrs da fila as coisas amontoadas se degradavam em calor e escravido, as mulheres  janela olhando as raras nuvens ou vigiando a prancha de madeira que ligava a terra aos botes.
     De noite o mar escurecia, a prancha se esbranquiava, e soltavam-se foguetes que estouravam acima dos telhados acordando as pessoas. At que o silncio da noite alta retornasse e se reconhecessem as tranqilizadoras batidas da gua.
     Era quando o farol iniciava a ronda e com pacincia tirava de intervalo a intervalo os objetos das trevas. De manh a mar baixara, o dia nascia fresco, ventoso. Mas aos poucos a ilha ia secando de novo e s dez horas era uma cidade seca - a prancha ardia, sobre ela viajantes espiavam ofuscados em jejum: as ruas jaziam esturricadas.
     Tudo isso Lucrcia viu, com um p sobre o vilarejo. Esta a sua terra propcia.
     Onde houvesse uma cidade se formando, l ela se encontraria a constru-la: os fios eltricos do bar se enrolavam em papel de seda vermelho e a velha lavava de joelhos as escadas. Caf com leite, disse-lhe Lucrcia sria, com prazer.
     E j quase de noite, cansada de andar, viu enfim o consultrio do Dr. Lucas abrir-se e dele sair um homem de andar pesado. Pareceu-lhe bastante envelhecido porm to calmo como o conhecera. A mulher atravessou depressa a calada e ps-se  sua frente rindo baixo.
     Na meia escurido no lhe viu a surpresa mas ouviu a voz abafada murmurar-lhe o nome e ficou sria por ela ainda ser aquela mesma a quem podiam chamar: Lucrcia Neves de S. Geraldo.
     Deram um passeio pelo parque da cidade como haviam passeado pelo do subrbio. O mdico apontava-lhe os monumentos pblicos... E de longe o sanatrio onde sua mulher agora vivia, obrigando-o a transferir o consultrio para a ilha.
     Lucrcia caminhava a seu lado, a cidadezinha escurecia tonta, as luzes afinal se acenderam. O mdico chegou mesmo a comprar-lhe um saquinho de bombons, Lucrcia olhava inquieta o cu escuro.
     Falou-lhe de Mateus, da casa da rua do Mercado, na noite que o mar enchia de sal, mas nada chegava ao prprio fim, a brisa trazia e levava as palavras e os postes se deformavam na gua.
     Doutor Lucas tranqilo como um homem que trabalhava realmente. Era de algum modo humilhante perceber que, forte e pouco loquaz, ele no se mostrava nem se escondia. Ao mdico Lucrcia no precisava contar sobre a blusa que pretendia bordar; ela sempre imitara os seus homens.
     Talvez a casa das rosas fosse apenas um incio e ainda nesta noite conhecesse outra ordem... e j queria tocar em tudo isso, de novo vinha de Doutor Lucas a desconfiana sobre o que ele poderia fazer, e ela procurava adivinhar espiando-o, como se a noite que descia pudesse ajud-la com a sua escurido.
     Quando ele foi auxili-la a vestir o casaco, e enquanto lhe passava o brao por trs dos ombros - por um instante apenas Lucrcia Neves se inclinou para trs... teria ele feito mais vivos os braos? teria percebido? ou ela inventava? de incerteza a luz brumosa de um poste se acendeu, o instante se dourando na noite, de incerteza e delcia a mulherzinha respirava observando severamente o carro que avanava sobre as pedras irregulares: as rodas rangiam e Doutor Lucas falava do que fizera durante o dia, ela o interrompendo com a boca transviada:
     - Doutor Lucas, Doutor Lucas, o senhor trabalha demais! dizia aproveitando para tocar na sua roupa.
     O mdico, de olhos cansados e vibrantes, ria dela
     - Ah! murmurou a mulher.
     - Que foi...
     - Aquela estrela, disse ela com lgrimas nos olhos numa sinceridade que, em busca de expresso, a fazia mentir.  que me virei e vi a estrela, disse banhada pela graa de sua mentira.
     Desta vez o doutor olhou-a atravs do escuro.
     Ela se ruborizou. Mas ele a olhava tambm com compreenso e fora, guiando-a j com uma primeira dureza atravs da estrada escura, e evitando toc-la.
     Mais um momento e, no se tocarem, desequilibrava o passo de ambos, no se tocarem quase os levava a certo ponto extremo. Tudo se tornara precioso como se Lucrcia Neves Correia segurasse coisas to pesadas com a mo esquerda: um ramo baixo quase desfez o rolo dos cabelos, roubando-lhe uma exclamao de arrebatamento um pouco dolorosa.
     - Voc v, disse ele com clareza e fora, nessa noite to bonita vou ter que trabalhar - atravs da escurido ele a olhava, impondo-lhe severamente uma atitude mais digna...
     - ... impossvel! gritou partida, o peito feliz se iluminava sem ligar  advertncia do homem. Impossvel trabalhar tanto, acrescentou tola.
     - Est vendo bem? perguntava o mdico imperioso.
     Queria responsabilizar-se pelo que provocara, e parecia culpado? ela obedecia de boca entreaberta.
     - Chegamos - a porta emperrada se entreabria e o homem sorriu - o passeio lhe fez bem? perguntou noutro tom.
     - Fez, doutor.
     O mdico estava zangado? Os sapos coaxavam com rouquido.
     - No sei como lhe agradecer, doutor... - falava com esforo, num ardor um pouco fora de propsito, os cabelos esvoaavam.
     - No agradea ento, respondeu-lhe brusco. Oh, como estava aborrecido!
     - Sim, doutor.
     Atravs da escurido vagamente iluminada pela proximidade do mar ele a olhando agora curioso, quase divertido - sorrindo afinal:
     - Pois ora, boa-noite, v descansar.
     Estendeu a mo pensando encontrar a dela e sem querer tocou-lhe o brao - ela empalidecer boa-noite, respondeu, e o homem se afastou pisando folhas.
     Lucrcia Correia hesitava  porta, sustentada  altura em que estava pelos sapos espalhados. Tossiu aconchegando-se no casaco. Afastou um cisco com o p.
     Depois entrou em casa e acendeu a luz. No interior tudo estava leve, soprado. A cama, a mesa, a lamparina. Nada se podia tocar - as extremidades ligeiras e direitas ao vento. Por que no chego junto e toco? no podia, e bocejou friorenta.
     Depois mudou de roupa e deitou-se. Uma alegria mansa j comeava a circular no sangue com o primeiro calor, os dentes iam de novo se aguando e as unhas endurecendo, o corao afinal se precisando em pancadas duras e pequenas. Ela sucumbindo a uma extrema fadiga que nenhum homem amaria. Fadiga e remorso e horror, insnia que o farol assombrava em silncio.
     No queria entrar em caminho de amor, seria uma realidade sangrenta demais, os ratos - o farol iluminou-a em claro e revelou a cara ignorada da luxria. Na fosforescncia da escurido revia os sales de baile imobilizados na luz, e as pessoas horrorizadas danando paradas, a realidade autmata e o prazer - a mulher recuou plida, ah! dizia surpreendida.
     Mas aos poucos, o farol iluminando-a e escurecendo-a, ela comeou a desvairar imaginando uma conversa em que Doutor Lucas aparecia ainda mais severo, ela mais humilde ainda, fazendo-lhe, para ganhar tempo, mil perguntas que seriam uma dana ao redor dele, destinada a confundir a fora do homem: o senhor gosta de casas grandes? o senhor acredita em mim? se eu estivesse para morrer o senhor me salvaria? o senhor fala muitas lnguas ? eu admiro tanto! e mostraria depressa suas coisas: aqui  a minha casa provisria, esta cidade parece tanto com S. Geraldo! Esta  a minha janela.
     Tanta timidez no vinha da vergonha, vinha da beleza, do medo, ela retornada aos grandes sapos.
     Mas de sbito humilde, dura, alisando o lenol para facilitar a viso: eu te dou minha vida e nada mais. Doutor Lucas, sem que se pudesse inventar a expresso que teria neste instante, gritando: quero menos que tua vida, quero voc! Ela respondendo com dor, com pudor: no amor  indigno pedir to pouco, rapaz.
     Passado o momento mais tenso da noite quedou-se afinal algum veio de umidade, as ondas batiam moles. A mulher cochilou e Doutor Lucas sussurrou um pouco ridculo com sua cara sombria: voc ento no sabe ser livre. E ela respondendo: ah, no posso, hem, e ficou livre, tanto que adormeceu.
     No dia seguinte esperava-o na calada fronteira ao consultrio.
     Quando ele a viu estacou com a chave na mo, os lbios apertados. Estava irritado.
     Mas ela o olhava paciente, modesta; a noite descia.
     Sem falar, Lucas fechou a porta do consultrio e saram juntos. Andavam pela cidadezinha mergulhada em sombras. A mulher s vezes caminhava  frente, e Doutor Lucas parava. Ela ento prosseguia fatigada no parque, assegurando-se em rpido olhar de que ele ainda a observava; continuava, tropeava, encostava-se com perdio nas guias de pedra passando os dedos pelos relevos ... Ele olhava mudo - enquanto Lucrcia Neves se demonstrava, tentando fazer-se compreender pelo nico modo como podia falar, demonstrando com montona perseverana; ele cada vez mais duro assistindo; ela insistindo silenciosa, dando voltas  sua frente, trabalhando-o com pacincia para formar sua parelha neste mundo, olhando o cu baixo.
     At que, j fora do centro, viram uma casa fechada. A hera seca subia pelas pilastras, as venezianas cobertas de poeira estavam cerradas. Perto do balco a bilha quebrada. Lucas quis continuar, mas que desejava ela mostrar na casa abandonada? a mulher no sabia e obstinava-se confiando na prpria ignorncia; o cho de folhas secas abafava-lhe os passos. Chegou a empurrar a cancela de madeira. Mas Lucas estancara teimoso. No tenha medo, dizia ela num olhar protetor, era apenas uma moradia silenciosa. Havia a fenda no muro. Seria este o horror da casa?
     Seguiram. Ele pertencendo  sua esposa enquanto, sem desanimar, Lucrcia Neves lhe rodava em torno; e quanto mais o homem compreendia, mais inescrutvel se tornava. s vezes a mulher sabia que ele tinha mpetos de expuls-la, to aborrecido estava. Mas continuava doce a ati-lo, numa resignao que s vezes lhe dava a impresso de que h anos caminhava na poeira sem que uma brisa aliviasse o ar. Estava muito cansada. Aos poucos afinal estabeleceu-se entre ambos uma relao curta e brusca da qual no se saberiam medir as possibilidades: Lucas pegava um cigarro, ela lhe tirava com suavidade insuportvel o isqueiro da mo, Lucas contendo um movimento de revolta; acendia a pequena flama vencendo-o, ele vencido porm cada vez mais spero: quando ela entregava o isqueiro, continuavam.
     Uma noite ficaram de p sobre a colina que tanto lembrava o morro do pasto - at que a madrugada tomou um tom agudo de vitral; ele com o rosto escuro.
     Foi desta vez que Lucas comeou a ter medo. Quando a luz do farol os percorria revelava duas caras desconhecidas. Lucrcia Neves desconhecida, sim, mas em paz, concentrada na sua ltima superfcie. s vezes rpida contrao percorria-lhe o rosto como se uma mosca nele tivesse pousado. Ento ela movia as patas, paciente. Ele desconhecido mas j inquieto, a olhar em torno, pondo a mo no tronco do castanheiro. Atravs da rvore Lucrcia o tocava. O mundo indireto.
     Amando-o, retornando  necessidade daquele gesto que apontava as coisas e, com o mesmo nico movimento, criava o que nelas havia de desconhecido - toda ela estava  beira desse gesto quando tocava o tronco que a mo dele tocava - assim como olhara um objeto da casa para atingir a cidade: humilde, tocando no que podia. Pela primeira vez ela o tentava atravs de si mesma, e da supervalorizao daquela sua pequena parte de individualidade que at agora no se ultrapassara nem a levara ao amor por si prpria. Mas agora, em ltimo esforo, tentava a solido. A solido com um homem: em ltimo esforo, ela o amava.
     Depois voltou pelos atalhos que amanheciam. Nunca vira de madrugada a casa das rosas. A essa hora estava quebradia, pouco ntima. E to superficial. Cada canto era visvel.
     Os dias alis estavam maravilhosos nessa poca. Iniciava-se o outono e nas janelas brilhavam teias de aranha. As distncias haviam-se tornado muito maiores embora fceis de percorrer.  mulher parecia mesmo viver na linha do horizonte. Era de l que via cada pequena coisa com suas luzes, esse estranho mundo onde em tudo se poderia inutilmente tocar. Os galos cocoricavam nos fundos das casas. Quanto s manhs, eram de se jogar longe um sapato - e o cachorro correr latindo atrs. O tempo era para caada.
     De fato cadelas inquietas avanavam sem dono entre os bambus da praia.
     Enquanto Lucas trabalhava, Lucrcia passeava muito. O campo pontilhado de pequenos brilhos, de traos negros - e a vaca... A vaca olhando uma extenso com um olho, a extenso oposta com outro olho; de frente seria to fcil, mas a vaca nunca viu. Lucrcia Neves Correia, as borboletas - e a vaca. Numa rocha maior bem percebeu as formigas. Eram pretas. E mais tarde a nuvem.
     A cabea da mulher espiava o campo. Havia uma coisa que o pensamento no pegava e que um cavalo veria - era este o nome fcil das coisas. At as grutas estavam verdes... no havia obscuridade onde se esconder. Tudo a expulsava da solido - os sapotis maduros.
     E de manh, abrindo a janela, como a claridade era inspita. Queimavam-se pilhas e pilhas de madeira e saa fumaa; as abelhas. Perto da praia a pele de Lucrcia se esverdeava  luz das ondas. A mulher ento espirrava. No havia outro modo de ser.
     At que uma tarde resolveu passear no descampado. Aquele silncio. Mas o medo foi substitudo pela esperana. E nem sua solido pde manter-se porque... por que o milho j estava alto? ela procurava com os olhos o que a impedia de estar s - mais alm as espigas estremeciam pesadas: o milho no campo era a sua vida mais interior. O campo se estendia silencioso; l estava a outra vida.
     Mas olhando aquelas terras onde o esprito ainda era livre, "o qu! terrenos inaproveitados nesta poca!", a mulher prtica ainda pensou com teimosia: "Aqui. Aqui eu construiria uma grande cidade".
     Realmente havia lugar e, arrancando as ervas e o milharal, o cho estaria por assim dizer pronto. Ento, na outra vida, com esforo, ela fazia casas se erguerem, pontes se entrecruzarem arfando, usinas fantasmas funcionarem. Cidade que chamaria de S. Geraldo? recomeando-o com pacincia, desta vez sem abandon-lo por um instante com a ateno - at chegar ao ponto em que o subrbio estava, a fim de reconhecer, sob as sedimentaes, os verdadeiros nomes das coisas.
     Mas ao crepsculo o sol empalidecia. E sobre a cidade imaginria o vento comeou a soprar mais forte e a rodopiar as espigas envolvendo-as em penumbra. Vai chover? pensou a mulher apressando-se de volta, mal teria tempo de encontrar Doutor Lucas - mas o vento corria mais rpido que os passos, empurrava a saia para a frente, desnudava-lhe a nuca cegando o rosto com os cabelos, ela, a quem no bastara o milho crescer.
     Foi nessa noite que olhando para Lucas - talvez porque de novo precisasse dele - imaginou que o homem comeava enfim a ceder. Por um segundo apenas: porque no escuro e no vento no seria apaixonada aquela cara de bicho?
     Mas seria paixo ou fome de piedade? Pois no escuro ela o via como a um animal - era uma cabea de touro ou de co - a cabea de um homem. De um homem que pastasse no campo e que ruminasse ervas, e que mordesse folhas altas  passagem - e que de noite parasse ao vento - vazio, potente, rei dos animais - a cabea no escuro.
     Seria esta a demncia da solido? rei dos animais. Nauseada, quereria voltar as costas e ir embora, tanto preferia ainda a confuso promissora das palavras a essa nudez sem beleza, a esta verdade de hospital e de guerra. Nunca tinha sido to encostada  parede.
     Desviando os olhos com desgosto: no o amava sequer, o vento rumorejava nas rvores. Mas no instante seguinte, por lassido, tornando-se pesada e sem vontade prpria: oh, uma mulher para aquele homem. Forte, bruta, paciente - sem esperar recompensa ela era daquela cabea resignada de bicho, e desse outro animal esperaria sem curiosidade a ordem de seguir ou parar, arrastando-se suada, resistindo como podia. Para de noite erguer a cabea ao lado da cabea do animal, ambos mastigando em silncio no escuro, ambos sobrevivendo como obscura vitria.
     Talvez mesmo fosse isso ser de Deus. Pois tinham dito que o homem comeria po com o suor de seu rosto e que mulheres teriam filhos com a dor. Nem se diria que o amava, tanto no havia glria. Em p um diante do outro, sem malcia, sem sexo, agarrando-se  sombria alegria de subsistir.
     Embora a estranha resposta dessa mulher fosse ainda: prefiro morar na cidade. E no havia como acus-la por no se agarrar  oportunidade de ser de um homem, e no das coisas. Na verdade ele nada oferecera, fora apenas uma cabea a exprimir-se no escuro. Eles tornariam concreto cada pensamento sobre ponte, cada idia sobre uma linha frrea. Um esperava porm que o outro o adivinhasse, mximo de dar e aceitar, nunca houvera tanta necessidade de ser compreendido. No se exigia seno este instante de sobrevivncia, assim era, assim seria.
     Na noite seguinte - ela o esperando  porta do consultrio, ambos gastos pela insnia - Lucas afinal disse que era impossvel.
     Lucrcia espantou-se como se ignorasse de que se tratava, e ele vendo tanta falsa inocncia encolerizou-se. A mulher comeou a chorar, de incio suavemente - parecia mesmo surpreendida com a precipitao dele - a dizer que fora para sempre ferida, que tudo se estragara para sempre, embora ambos mal soubessem a que "tudo" ela se referia; que esperava dele "uma coisa enorme,  Doutor Lucas", e que ele a ferira para sempre, repetia entre lgrimas e slabas engolidas pelos soluos. O homem a olhava com brutalidade, via-a chorar misturando palavras; parecia pura e puritana. Ele disse, severo como um mdico: acalme-se. O choro diminuiu imediatamente. Ela enxugou os olhos e assoou o nariz.
     Mas sem lgrimas era horrvel de se ver. A boca to pintada. O rosto na obscuridade era annimo, repugnante, fantstico. O mdico silenciou diante dessa verdade que tomara, para o espanto dos olhos, a forma de uma cara. Quis perguntar-lhe como a ferira mas isso perdera a importncia; quando lhe viu o rosto sem disfarce soube que a ferira de um modo ou de outro. Tambm percebia que a mulher no se queixara de nenhum fato. Seno dele mesmo, o que era to vago como grave e acusador; ele fora atingido.
     Lucrcia agora se mantinha ausente na sombra, ele no podia v-la nem soube a quem se dirigia quando disse em tom vazio e seco: 
     - No sei qual  a minha culpa mas peo perdo.
     - A luz do farol revelou-os to rapidamente que no se
     puderam ver. - Peo perdo por no ser uma "estrela" ou "o mar" disse irnico - ou por no ser alguma coisa que se d, disse corando. Peo perdo por no saber me dar nem a mim mesmo - at agora s me pediram bondade - mas nunca que eu... - para me dar desse modo, eu perderia minha vida se fosse preciso - mas peo de novo perdo, Lucrcia: no sei perder minha vida.
     Fora o seu maior discurso at hoje, e o mais vergonhoso. Falara com dificuldade e agora recolhia-se ao escuro. Compreendia, mais do que ela, que Lucrcia desejava talvez um gesto apenas? pedia um sentimento e nada mais? ele teve medo de isso ser to pouco. Medo, ao lado deste ser fraco que no morria: porque ele era to mesquinho que, sua fora acabando, ele mesmo morreria. Olhou as mos na sombra. Adivinhava dedos grossos, os ossos, o largo dorso. A sensibilidade estava apenas na rede das veias. O que  que ela pede de mim? perguntava-se olhando as mos que eram sua fora, que pede de mim? e sua austeridade era to insuportvel quanto o ar da noite parecia livre. Desapertou o colarinho, moveu o pescoo para o cu. A frescura soprava entre as rvores, ele se habituara a entender apenas as palavras; agora, o que no tinha palavras era compreendido com mos quadradas, e com passos que no se interromperiam mesmo que o corao fosse atingido, ele que nunca era mortalmente atingido, tal a sua impotncia.
     Assim, caminhando pelos atalhos de volta ao centro - no era em Lucrcia Neves que ele pensava. Tambm mal sentia a umidade da noite; caminhava srio, sem futuro.
     E Lucrcia tambm... Mas no, sob a futilidade ela trabalhava sem tempo como na guerra. Ele no tinha pena de si nem de Lucrcia. Estava calmo, forte. Porque era um homem - se se quisesse com esforo resumi-lo, cortando suas noites desconhecidas e o trabalho - era um homem lento, sincero e no tinha piedade de si. Isso nunca o ajudara alis. Facilitaria pensar que era fraco. Mas no, era forte. O que no impedira que Lucrcia o tivesse confundido, levando-o agora a perguntar-se onde estava a prpria culpa. Que se tornou to grande a ponto de no ter mais castigo.
     Vida individual? o perigoso  que cada pessoa trabalhava com sculos.
     Algumas geraes anteriores a ele j haviam sido expulsas de uma colnia e entregues  solido; e, se o homem cortara o amor prprio que esta lhe traria,  que sua conscincia, e mais que conscincia, uma lembrana, ainda o fazia ao menos esconder a alegria de ser s. Agora porm no se tratava mais de proteger-se. Tratava-se de perder-se at chegar ao mnimo de si mesmo, ponto latejante que Lucrcia Neves quase despertara - e enfim no precisaria mais ser annimo para ocultar o orgulho, enfim, quem sabe, no precisaria mais ser to bom mdico - porque nesse mnimo de si mesmo j estaria ele todo... que perigo. O mdico tossiu disfarando. Os que viriam talvez o atacassem com um novo modo de rir... Tudo o que ele se dizia aconteceria, o homem estremeceu sem piedade de si. As rs coaxavam, ele enxugou a boca com o leno.
     Que concluir de Lucrcia, que concluir de sua mulher que bordava no sanatrio e pedia linha vermelha e erguia a cabea em esperana quando o marido chegava. E de Lucrcia? algum nfimo acento parecia ser o nico destino de Lucrcia, a veemncia a sua nica fora.
     Ainda antes da morte fazia parte das almas solevadas que mesmo um homem duro respira no ar das noites.
     E a de Lucrcia, era a verdadeira vida dada? a que se perde, as ondas que se erguem furiosas sobre os rochedos, o perfume mortal das flores - e a estava o doce mal, as rochas agora submersas pelas vagas, e na inocncia de Lucrcia estava o mal, ela esperando de longe ao vento da colina, esperando, doce, vertiginosa, com seu impuro hlito de rosas, o pescoo esmagvel por uma das mos - esperando atravs dos sculos, decrpita e criana, que ele atendesse enfim ao apelo das ondas sobre os rochedos e, galgando a escarpa mais alta da noite, lanasse o uivo, o longo relincho com que responderia  beleza e  perdio deste mundo: quem no vira nas noites sem vento como as flores de prata eram cruis e assassinas?
     Parado no atalho, o olhar do homem recuava sabido, e ele mesmo se mexia com extrema precauo entre os ramos - corcunda, pronto a saltar. Queria responder, no mais a Lucrcia que o chamava - velozmente a ultrapassara, e se falasse teria enfim conseguido responder a uma veneziana que bate no silncio de uma rua, a um espelho que reflete, a tudo isso que at hoje deixamos sem resposta.
     Um sopro de brisa quase o despertou. Lucas se surpreendeu a olhar as grandes mos que se viravam diante do rosto estupidificado, as mos ingnuas que haviam criado a metamorfose - com certo horror as fitava, reduzido ao que lhe bastava de si mesmo, e gritaria de vitria e de dor porque era a primeira vertigem de um homem.
     E ele no teria mais vergonha de milagres? Cessaria a constante ameaa de que at o perfume diga "aquilo", e que a forma de uma mo o repita... Enfim, enfim ferido, mortalmente ferido, que paz.
     Esperara a vida inteira pelo momento em que estaria finalmente perdido. Que podrido nas folhas midas.
     Parou de novo. O farol percorria o cu escuro. O sorriso imobilizado de Lucrcia passava nas nuvens... Meu Deus, murmurou ele sombrio. A cabea teimosa precisava pensar em Deus para recomear a pensar. Vaga-lumes piscavam irnicos acendendo onde ele menos esperava, rodeando-o como pequenos diabos.
     Mas ele no voltou. Prosseguiu duro, conquistador, encaminhando-se para a cidade que era o abrigo de sua fora. Quanto mais se aproximava das luzes, mais vencia Lucrcia. Porque este homem, que enxugava os lbios com o leno, era de pedra. Enquanto que Lucrcia Neves no duraria muito, Lucas o sabia: ela seria substituda muitas vezes enquanto ele era o que permanece. To ftil, to pobre e obstinada. Na verdade cinco mil vidas no bastariam sequer para que nela chegasse  perfeio sua primeira idia real. Ela j comeara porm o trabalho das cinco mil vidas.
     No dia seguinte o mdico mal trabalhara, aguardando o momento em que veria se a mulher ainda o esperava diante do consultrio ou se desaparecera. Mas com sbito horror e sbita alegria - ele a encontrou. De p, modesta, sorrindo na sua pacincia de bicho.
     Recomearam as sonmbulas caminhadas. E quando tarde da noite pararam na colina, ela disse:
     - Felizmente tudo  impossvel, e comeou a escarvar o cho com o bico do sapato. Porque acho que farei mal a quem eu amar, acrescentou suave e sem orgulho, e essas palavras presunosas, to distantes de seu modo confuso de falar, haviam atravessado longo caminho at chegar a este momento.
     - Que me importa o mal que voc me fizesse, disse ele irritado.
     Ela interrompeu imediatamente os pequenos coices na terra.
     Atordoada, quase recuando, perguntava-se como era possvel que ele a amasse sem conhec-la, esquecendo que ela prpria s conhecia do homem o amor que ela lhe dava.
     Em breve pensava velozmente, procurando como mostrar-lhe o melhor de si mesma, contar-lhe sobre sua vida - em surpresa nada encontrava, revolvia em vo as falsas prolas que parecia terem sido suas nicas jias. Na urgncia do momento lembrou-se daquelas noites na sala de visitas... E embora raramente pensasse nelas, e mal tivesse conscincia de seu sentido - elas surgiram-lhe como a nica realidade de sua vida? Com os olhos abertos de espanto e ateno, atacava a memria dessas noites que parecia terem-se perdido no seu sangue; esquecer era bem o seu modo de guardar para sempre. Na aflio Lucrcia Neves j se indagava se precisaria contar, que importava a forma que haviam tomado seus dias? tambm ele, tambm todos pareciam construir em torno de uma coisa esquecida... Uma inteligncia tardia, tendo-lhe revelado o gesto, ela pensou que poderia descrev-lo. Mas passado o instante de clarividncia, o farol de novo percorrendo outros campos e deixando-a no escuro - de novo ela no conheceria a verdade seno revivendo mesmo os momentos inteis. Oh, e nem saberia usar as palavras necessrias.
     Ou teria ele entendido. Porque o mdico falara de S. Geraldo num tom que por instantes parecia roubado dela mesma, e s vezes dizia uma palavra que ele s poderia ter pronunciado se conhecesse o que ela conhecia... Mas se tudo isso acontecera sem que de fato Lucas conhecesse o mundo em que ela vivera, e as palavras que ele pronunciara, iguais s dela, pertencessem ao seu prprio mundo... - ento quantos interminveis conjuntos se poderiam indefinidamente formar com o que estava "ali"? embora tanto um como outro, por motivos diferentes, tivesse severamente cortado a liberdade.
     J resignada, escarvando de novo a terra, pareceu-lhe tambm sem importncia falar. Porque eis que na colina junto dele, o amor tranqilo parecia indicar todas as coisas como o gesto. Desde que o amava encontrara simplesmente o sinal de fatalidade que tanto procurara, esse insubstituvel que mal se adivinhava nas coisas, o insubstituvel da morte: como o gesto, o amor reduzia at encontrar o irremedivel, com o amor se apontava o mundo. Ela estava perdida.
     - Continuemos amigos, disse o homem que tambm no sabia falar e que precisava por isso ser perdoado.
     - Amigos? murmurou a mulher em suave espanto, mas nunca fomos amigos - respirou com prazer - somos inimigos, meu amor, para sempre.
     O mdico sofria com a inflexibilidade da mulher. Duas geraes anteriores haviam-se perdido em cortesia morta; doa deixar o sangue abrir novo caminho em veias secas; ele sofria tanto quanto podia.
     Mas Lucrcia parecia tranqila. O mdico olhou-a: ela estava doce e cruel. Os caninos apareciam em sorriso inocente de arrebatamento. E ao homem pareceu ver pela primeira vez a face da volpia e da pacincia. Como podia ela ser to ruim, pensou com repugnncia. Mas  doida, assustou-se arrepiando-se diante da alegria da mulher: ela tivera ento a coragem de se perder at aquele ponto. Um dia Lucrcia dissera que, olhando a nuca de algum, tinha s vezes raiva.
     O homem franziu as sobrancelhas a essa lembrana, unindo-a agora  viso daqueles dentes agudos e felizes... de que passado perverso ela emergira. V-la na sua predio infantil f-lo respirar com delcia, em cega liberdade. E era to rica essa liberdade que o seu excesso foi bondade; ele a envolveu com o olhar, uma asa que cobrisse a sua nudez - como j cobrira tantas vezes o corpo impudico de um morto. Ela nem o percebia. Mas, annimo como os anjos-da-guarda, ele protegia a alegria daquela mulher.
     Nessa noite Lucrcia no quis ser acompanhada e ficou sozinha na colina.
     Estava escuro mas as constelaes piscavam midas. De p, como no nico ponto de onde se poderia ter essa viso, Lucrcia olhava a escurido da terra e do cu. Esse movimento infinitamente esfrico, harmonioso e grande: o mundo era redondo. Freira ou assassina, ela descobria por um momento a nudez de seu esprito. Nua, coberta de culpa como de perdo - e era da que o mundo se tornara o limiar de um salto. O mundo era a orbe.
     Alisava o ouvido com o ombro, lavando-se. s vezes espiava no escuro em pequenos relances. O corpo to miservel. To altivo. E tudo to perecvel. As rvores plantadas em torno. O vento baixo. Era insuportvel. E justamente ela sustentava tudo isso, Por que justamente? cada pessoa que via era justamente a que via. Quantos privilgios.
     O rosto da mulherzinha parecia arranhado pelas garras de um pssaro - seria esta a sua expresso de amor. Chegara a um momento em que no tinha a menor liberdade de agir. Contraditriamente nesse instante em que agiria sem escolha possvel  que se tornara responsvel. Pareceu-lhe mesmo, com imparcialidade e justia, que s havia pecado quando se tornava impossvel no pecar. O que no lhe provocava a pusilanimidade. Estava to impassvel como se fosse ela quem tivesse para sempre arranhado o prprio rosto com as garras duma guia. Batendo mesmo, antes de fugir, a asa escura na sua face - com essa hilaridade que as coisas contm antes de brilhar...
     Ento era isso o amor por pessoas, reconheceu ela. Tambm esse amor era claro e inexplicvel. Mas bom - po e vinho e bondade. Sim, sim, ela estava bastante perdida. Bem lhe parecera sempre que antes de mais nada era preciso se perder. Bem sabia que, tentando atravs da sala de visitas olhar as coisas que existem, no tivera coragem de ser guiada pelos objetos: cara, sim, porm tivera medo e agarrara-se onde pudera. Se tivesse cado at o fim, saberia que fim de queda era estar sob o cu estrelado? e era ver que o mundo  redondo, e que o vazio  o pleno, e que milho crescendo  esprito.
     O apito da barca noturna veio do mar, apenas mais dolorido que o de uma locomotiva. A mulherzinha se debruou sobre si mesma e assim ficou, rindo tola, antiga, numa atitude quase reconhecvel. Ela prpria reconhecendo afinal a terra? marcando-a com seu casco breve como breve lugar de vida e morte. O que era mais do que a imaginao poderia aspirar.
     Na noite seguinte era Lucas quem a esperava, e Lucrcia se encaminhou devagar sorrindo.
     Lucas no teve mais medo de seu rosto. E, nesse momento em que se olharam nus, viram sem espanto que na nudez ele era um rei e ela uma rainha. Em breve a escurido pontilhada de luzes os envolvia, os dois caminhavam. Perto de um salgueiro, pela milsima vez, pela primeira vez, o mdico disse: por que no nos conhecemos antes? embora se tivessem conhecido antes. Passando pela moita e dando-lhe um pontap, pela primeira vez, pela milsima vez, aspirando a um rito, ela quis morrer com ele. Ah, morrer de amor, disse m, encostando-se  guia de pedra. Olhando-a, foi assim que Lucas a viu e lembrou-se depois dela: humilde, guardada por guias de pedra.
     E agora estavam tranqilos olhando as serras.
     Tudo o que seria impossvel tomara a forma final de montanhas ao longe, e uma delicadeza de curvas. Enquanto Lucas fitava a linha j apagada do horizonte, Lucrcia passou a examin-la com tant doura que se perdia de si. Procurava nesse rosto, onde uma perfeio singular ultrapassava a imperfeio evidente - procurava um ponto por onde devass-lo. O que lhe fazia tanto mal e tanto bem como se procurasse em si mesmo a ltima resistncia. A primeira luz do farol bem o revelou por momentos mas cegava as delicadezas do rosto. S no escuro ela o veria.
     Cada trao apresentava separado uma impersonalidade julgadora. Em nenhum deles Lucrcia Neves encontrou o amor que ela lhe dava. Aos poucos j no saberia o que procurava, prosseguia presa apenas pela vertigem de um rosto.
     Foi entre a boca e o nariz - no nesse espao mas numa possibilidade de movimento egosta e sem culpa que ali se pressentia, nesse trecho que no tinha sequer um nome - que descobriu por onde o amava e por onde Lucas poderia ser ferido. Imaginou quanto sangue jorraria daquele ponto se atravs deste o homem fosse atingido. E viu, num sobressalto de dor e de arrebatamento, que uma criatura s era assassinvel na sua beleza. Ela mesma ferida pelo cinzel.
     O amor impossvel atravessando-a em alegria, ela que era de um homem como fora das coisas - ferida no tronco de sua espcie, de p, jubilante, inteiria... Sentindo  flor da pele grossas veias de cavalo. E Lucas, voltando-se para olh-la: vendo-a de p, isolada, na sua graa eqestre. Eles se tocaram enfim.
     De manh Lucrcia Correia fechou a casa e atravessou a prancha sobre a lama. Pssaros em vo rpido chispavam a gua. O cheiro adocicado de barca suja no mar. E tantas pessoas iluminadas, sentadas com pacotes. O vento batia nos cabelos, a terra longe de vista. Ento um velho cuspiu no cho e l estava a luz faiscando no cho: todos olhavam, vazios de claridade. Lucrcia no podia abrir os olhos sem que o dia os atingisse em lago cego. Sentada na proa com os embrulhos no regao.
     
CAPTULO DCIMO-PRIMEIRO
OS PRIMEIROS DESERTORES
     
     PERSEU abrigara-se da chuva na sala da estao, pousando a mala no banco. Cortara no dia anterior os cabelos. No rosto mais nu as orelhas pareciam separadas da cabea; as faces um pouco ossudas davam-lhe um ar de fraqueza obstinada e, apesar disso, de tranqilidade.
     Seu aspecto se transformara bastante desde a poca em que andava com Lucrcia. Estava muito mais magro, menos bonito. Agora havia nele um modo de ter doura que no estava mais na doura; com o impermevel solto no corpo parecia um estrangeiro que entrasse numa cidade.
     Chovia muito. A chuva nos trilhos ainda desertos tinha um sentido reservado de que ele parecia fazer parte.
     Como havia tempo, ligou o rdio que em breve estalava captando o temporal longnquo - percebia-se porm o fio de msica atravs das crepitaes da eletricidade. Perseu ouvia de p, sem sonhos e sem o que se chamaria de entender. A frase musical, muito nobre, era-lhe visvel como o rdio. Apreendia o esforo da msica com o mesmo esforo agradvel, e tirava prazer dessa vaga rivalidade. Quando lhe perguntavam se gostava de msica, dizia sorrindo com graa que gostar gostava, mas no compreendia, dava quase no mesmo ouvir bater na porta e ouvir msica.
     O rdio crepitava. Perseu escutava com fora pacfica, alisando o peso de papis da mesinha. Se vivesse em sua poca seria tentado a achar que a msica o fazia sofrer. Mas este rapaz insignificante no tivera verdadeiras influncias nem deixava marcas. Talvez estivesse mesmo perdendo sua poca, e tanta liberdade o deixasse muito aqum do que poderia se fosse constrangido. Mas ele parecia sempre arranjar-se em silncio. Se no entendia as notas obscuras, acompanhava-as com uma pequena parte enigmtica sua que se comprazia na nitidez do mistrio. Quando a msica cessou, desligou o rdio. As gotas tombavam da calha e a bilha que o chefe da estao deixara fora enchia-se dgua.
     Perseu ficou repousando de p. Estava cansado e tranqilo. Perto da boca duas ligeiras descidas prenunciavam as rugas de homem. Como no era particularmente de sua poca, que o faria sofrer, nem possua uma cultura de onde escolher sentimentos - estava de p, acariciando o peso de vidro, com as duas rugas se formando: intacto, pensativo, um pouco fatigado. Sem ser pai, j no era filho. Achava-se em ponto luminoso e neutro. E esta realidade ele no transmitiria a ningum. A nenhuma mulher sobretudo. Como jamais daria sua harmonia ou a forma de seu corpo. Poderia apaziguar uma mulher. Mas sua paz estranha, ele no comunicaria.
     O sino da estao anunciava a partida. Perseu entrou no vago, disps a mala sob o banco. Quando o trem partiu, agitou-se feliz olhando para os lados.
     Em breve saam da zona urbana e entravam no campo. Continuava a chover, a terra ensopada parecia triste com rvores to escuras. Dentro do rudo adormecido das rodas e do vento chuvoso, o carro prosseguia calmo nesse fim de tarde. Perseu tomara dois clices de vinho-do-prto para no se resfriar pois continuava a ser minucioso quanto  sade e aos exerccios. Com o lcool no corao sentia-se um pouco bem demais, quase inquieto. Aplicava seu mal-estar em coisas concretas: olhava cada objeto do vago emprestando-lhes sombrio contentamento.
     No carro cada pessoa tinha uma cara, extremamente visvel  luz transmutada da tarde. Cara era como o nome, pensou com prazer e desassossgo. Seu pensamento era apenas o ritmo das rodas. Perseu tinha apenas a forma para um pensamento extraordinrio, e no o pensamento, e isso o exaltava - cara  uma coisa, corpo  outra, vinho no corpo  outra. Embora ele se sentisse todo inteiro com o impermevel num trem.
     Comeou por olhar uma moa vulgar, de traos grandes. "Parece uma flor", pensou agitado. Tinha olhos redondos. Vazios porque estava sozinha. No se poderia dizer se alegres, pensativos ou atentos - olhos apenas fsicos, e algum duvidaria de que pudessem ver. No entanto batiam plpebras com clios ralos e comiam o ar com delicadeza. De repente Perseu ps-se a gostar deles com obstinao e prazer. Pousavam sobre um nariz grande que respirava com esforo: a moa estava gripada, e entreabria os lbios grossos. Toda a cara era exterior, uma flor a ser tomada. Veio-lhe mesmo o desejo. O tipo de cabea pesada que se pegaria nas duas mos e que se olharia com intil sinceridade - da a pouco pensando em outra coisa, s com o objeto fatigante nas mos, porque seria impossvel concentrar-se naquele rosto de corola. Ps-se a imaginar como seria difcil conhec-la porque ela mentiria - mal a tocassem, ela se fecharia toda em mentiras e sonhos, ficaria "interessante", diria de como tinha tantos pretendentes, a famlia to bem de vida, ela graas a Deus cheia de sade, e mesmo de como era virgem - Perseu teve um murmrio de satisfao ao ver a que ponto chegara sua experincia e ao imaginar-se fingindo acreditar, beijando-a enquanto ela mentisse - o que seria muito indecente e muito terno.
     Enquanto isso ela mostrou ter pressentido o rapaz: parecia pensar mais rapidamente e, quase sem transformar a cara imaculada, tornara-se interessante: Perseu desviou o olhar.
     Parecia-lhe impudico chamar ateno. Era no entanto o que sempre lhe sucedia. Sua calma insignificncia fazia as pessoas erguerem os olhos e fit-lo em indagao, da qual estranhamente participava alguma insolncia. O que o perturbava. Mas na maior parte das vezes era percebido apenas sem conscincia, como se olha o dia. De fato o casal silencioso fitou-o rapidamente, sem tempo, como se ele fosse o nico passageiro. A mulher corada tinha queixo sensvel e olhos pequenos. O homem era fraco, desnorteado: de barba raspada e esverdeada, olhos verdes, mos cinzentas e bem feitas.
     - Os bois.
     O trem corria morno na chuva.
     - Alfredo, os bois, disse a mulher com voz rouca. Perseu fixou um canto empoeirado do cho e depois
     a mala de uma senhora de preto - com a boca cheia de saliva, rebentada no corao a veia mais grossa, ele tinha o primeiro sentimento doloroso de paixo e piedade.
     - As pessoas, pensou envergonhado. Nos campos as vacas molhadas eram quentes, vagarosas. Gente, disse. Uma sensibilidade nele estava ficando homem. E esta seria sua vida mais interior.
     Com o fato de ser um homem quis olhar o mundo, e viu os campos  chuva, as escadas gastas de uma casa.
     As pessoas eram tpidas no trem, a fumaa confortante, Olhava tudo com inocncia, fora e domnio.
     A senhora de preto fumava, examinando-o com olhos pintados. Perseu no gostava de mulheres s quais nada escapava. Mas experimentou certa quente promessa no peito ao ver uma mulher perfumada e sbia observ-lo. Embora o intimidasse aquele olhar direto. E atrevido?
     Mas no.
     Neste momento a mulher de preto pensava, soprando a fumaa: eis de repente um homem. O que a maravilhava. Mas era tarde para ela. Eis de repente um homem, adivinhou e, apagando o cigarro, dirigiu a descoberta, em desafio - atravs da distncia cada vez maior - em desafio e misericrdia a uma pessoa que durante a pequena separao no saberia o que fazer de si.
     Perseu porm no a olhava mais, agora interessado em penetrar a escurido atravs da vidraa. Nenhuma mulher receberia o calor de sua alma que ele um dia talvez desse a um amigo. Esquecera a mulher e espiava a noite pela vidraa - instvel, grande, silencioso no impermevel. Mas no era apenas uma fora cega. Ser um homem guiava-o atravs do mistrio.
     
     Sentou-se com a senhora de preto no bar da estao. Ela pediu um lcool, tirou um cigarro. No, obrigado, no fumava. A essa resposta ela pareceu mais irnica ainda, apesar de envolv-lo num largo olhar que o incomodou. No gostava de mulher com olhos to grandes. Logo  sada do trem ela pedira que a ajudasse a carregar a valise at o restaurante. Surpreendido, Perseu a precedera, colocara a mala ao lado de uma mesa e inclinara-se um pouco rgido em despedida. Mas a mulher, sem deixar de fit-lo com tranqilidade, convidara-o a beber alguma coisa antes de seguirem para a cidade.
     A salinha era mal iluminada por lmpadas em abajur sobre as trs nicas mesas. O rpido interesse de Perseu pela mulher apagara-se, restava apenas a impacincia de tomar o prprio rumo.
     Ser assim raptado lembrava-lhe vagamente algum. E, olhando aquela criatura, o rapaz sentiu com inquietao que a mesma raa o perseguia? perguntou-se se Lucrcia Neves no teria atualmente o rosto dessa mulher. Na verdade a luz fraca do bar cansava-lhe a vista. E na imunda claridade, a criatura cada vez mais desconhecida  sua frente oscilava uma cara fantstica. O carter acomodado de Perseu no o deixava confessar-se que a mulher o importunava apenas, aqueles olhos enormes, sua fumaa constante e a determinao com que o apanhara ... Velha e cnica, pensou sem clera, com certa simpatia. Ela fumava e bebia, e j no o olhava muito. Vaga idia de cavalheirismo o impedia de pedir licena; esperava que a mulher resolvesse se levantar.
     Mas ela parecia ter tempo. Apesar de no larg-lo, esquecia-o s vezes - inclinava-se sobre a mesa, segurava o clice com uma das mos, alisava-o com a outra, espiando o lquido em meditao um pouco ardente. A chuva aumentara e fazia estremecer l fora a prancha de madeira. Perseu procurava conversar mas ela no o encorajava. Suportava o aborrecimento da situao apenas porque nesta cena infamiliar outros veriam uma aventura: examinava ento a companheira, tentava adivinhar de que espcie seria.
     Apesar de ser amvel com todas, dividia-as em mulheres que prestam e que no prestam. O que tirava a possibilidade de um assunto  que ela era to mais velha do que ele.
     No entanto a mulher saberia de onde vinha o embarao do rapaz, e mesmo como dissip-lo; sua compreenso se aperfeioara at o impudor. Mas na verdade no se preocupava com o que poderia pensar o rapaz magro. Com o que ela mesma se inquietava, no poderia dizer. Sabia apenas que, em ferocidade, se prendia a este momento, e j era o quarto clice que bebia para reter o rapaz. Enquanto isso a possibilidade de hilaridade se tornou insuportvel quando o rapaz perguntou:
     - A senhora  casada?
     Estava rgida, e dizia-se: eu poderia ser a me dele. O que no era verdade, pensara-o para se ferir. Seria capaz de gritar se ele se erguesse - era tudo o que sabia.
     Que desejava afinal deste belo rapaz? ele se entediava claramente... Mas isso no a interromperia; as coisas corriam agora to velozmente que a deixavam sria, encarniada, as mos se endurecendo sobre a toalha. Se quisesse abrir o jogo e atirar as cartas sobre a mesa, no teria cartas - a tal ponto chegara.
     Eis de repente um homem, pensava. Os homens sempre lhe haviam parecido demasiadamente belos - fora o que sentira quando h sculos, na casa dos pais, em vestido de baile, parecera uma rvore nova de poucas folhas - a lembrana a tornara depois terrivelmente irnica.
     E no se saberia por que os fracos haviam-se depois tornado sua presa. Ento, quando encontrava um homem fraco e inteligente, sobretudo fraco porque inteligente - devorava-o duramente, no o deixava equilibrar-se, fazia-o precisar dela para sempre - era o que fazia, absorvendo-os, detestando-os, apoiando-os, a irnica me. Seu poder se tornara grande. Quando uma pessoa vencida se aproximava - ela a compreendia, compreendia; como voc me compreende, disse Afonso. Sempre fora preciso um objeto ser defeituoso para ela poder apoderar-se dele, e atravs do defeito. Comprava mais barato, assim.
     Que desejava agora desse rapaz? um pouco excitada pela bebida, dizia-se: eis-me enfim ridcula. Tambm era raro. No quero compreend-lo, repetia friorenta, envelhecida. Porque, mais um instante, e o compreenderia tanto que enfraqueceria essa "maravilhosa" pessoa  sua frente, que - ah, "maravilha" - no precisava de ningum.
     Oh, at que o entendesse por um minuto. E ele, j no mais inatacvel, precisasse dela. O mesmo rapaz dos primeiros bailes, o mesmo anjo que convidava para danar e que desaparecia para ser engenheiro... Era tambm a sua prpria me que ela, a filha, s pudera alcanar depois de conhecer-lhe os pecados - aumentando-os em gravidade para melhor poder amar.
     Tambm s poderia chamar essa perfeio distrada  sua frente destruindo-a por meio da compreenso.
     Mas seria distrado? ou era ela quem no estava ali. Bem notara no trem que o rapaz parecia remoto aos passageiros. Talvez apenas porque estivesse presente e fosse real. Os outros  que se haviam afastado e viam-no de longe. Adivinhara-o quando dissera em surpresa: eis de repente um homem.
     Este no queria nem precisava fugir: ia, e aonde fosse iria com ele. Tambm ela j conhecera esse tempo. Mas que restara da simples riqueza no primeiro vestido de baile? que sobrara de sua inteligncia indefinida e sem profisso que se "maravilhava" - a palavra que ficara sua, mudando sempre de sentido, "maravilha", dita por tantas vozes suas, uma alta no topo de um acontecimento - maravilha - outra plena, cava, trmula - maravilha - outra l embaixo, rpida como um crrego - maravilha. Que ficara da audcia de ser fraca? no ousara s-lo. E do espelho onde se olhara por um segundo? a fruta roda por um verme, a "maravilha" com a larva escura no corao.
     Sorriu rapidamente ao rapaz, o tempo urgia, no havia um minuto a perder. O rapaz sorriu-lhe de volta. Sem poder deixar de perceber, descobriu nessa resposta certa imoralidade artificial e constrangida: por amabilidade ele dava o que o rosto de uma mulher cansada parecia pedir. Mas ela pulou por cima disso tambm - nunca ser agora retida por um obstculo - pulou por cima, continuava a correr em busca da fruta inteira, o ouro da fruta na rvore, o vestido de baile, os grandes olhos no espelho, aquele comeo de compreenso que era apenas o mundo ao seu redor, e que se tornara depois a arma, sua imagem antes de pr a capa nos ombros e sair - a fruta de ouro no espelho - maravilha! ela tambm j fora incompreensvel, remota! nunca vi olhos to grandes, disse nas luzes um rapaz de preto.
     Em sobressalto Perseu e a mulher ouviram o barulho surdo de um aeroplano sobre a estao. As asas roucas obscureceram ainda mais a salinha enchendo-a de luxo sombrio. O avio se afastou e a cidade latejava em silncio.
     De novo o ar da sala acordou piscando nas lmpadas - o paliteiro sobre a toalha: tudo aquilo era srdido, dizia-se Perseu defendendo-se.
     E "maravilhoso", dizia a mulher. As transformaes do bar eram as mutaes montonas de uma insnia, a viglia da senhora de preto se alongava em sombra, os clios batiam sonolentos sobre a negra luminosidade dos olhos. A fruta oscilava plena. Como em brincadeira de criana no jardim, deveria apanh-la com a boca, sem as mos - alis ela jamais possura mos - e por no ter mos lembrara a Perseu aquele corpo decepado que fora o de Lucrcia. Deveria apanh-la com a sua prpria perturbao, com a escurido que era ainda a sua nica fora, a escurido cheia de abelhas de mel. Mas antes seria preciso desistir para sempre, antes despojar-se da arma - ser apenas a mancha escura no espelho - e a fruta l estaria. Antes, negar o que fora sua conquista at alcanar a ateno universal e sonhadora de um co - e eis, eis a fruta inteira. Pois no fora assim que se vira ao espelho?
     Depois passara-se muito tempo, ela aprendera um modo alto de falar com as crianas, dizendo frases humorsticas para os adultos ao redor; s as crianas no entendiam. Elas eram inteiras. Remotas como o rapaz. Mas se a senhora de preto via um cachorro - um verdadeiro cachorro - mesmo hoje ainda sabia alcan-lo, o que provava que a "maravilha" oscilava. Sabia como ningum transformar um co solitrio num co feliz que se deitava ao seu lado piscando os olhos. E ento, tendo-o aos ps - jamais, jamais compreensvel - o aposento ficava grande, silencioso; e no era o co, era ela quem vigiava a casa. Tal a sua grandeza, tal a sua misria.
     O rapaz defronte era um grande co, magro, solitrio. No poder ser ele, que injustia. Com o mesmo centro de sombria pureza. Com a alma que tm os ces: de casa, de degraus, canto de quintal; com esse olhar sobre o mundo que tem um co deitado. A senhora de preto pensou nas rugas - no havia um instante em que no se acentuassem, no havia um minuto a perder, ela continuava correndo, pulava riachos, pressentia a direo do vento, saltava na escurido em busca do momento na floresta em que diria: maravilha.
     O paliteiro empoeirado sobre a toalha. Perseu se defendia do fantasma de Lucrcia, e dessa mulher que, vinda certamente de um grande centro, repetia o mistrio das mulheres ruins. O rosto do rapaz cobrira-se de sombras, os olhos luziam de um fundo distante e tranqilo.
     O que era tranqilo ainda mais distante era, o perfeito se tornava ainda mais longnquo - para a moa na noite de baile tudo era impossvel. Como ele  belo, pensou. Eis de repente uma pessoa. Estava to maternal que era horrvel. Via as mos do rapaz, a pungente limpeza de suas unhas, a gravata escura. Nunca - dizia o rosto gentil do rapaz. Nunca - replicava o pescoo sustentando a cabea dura e perfeita. Era um pouco terrvel. No s para ela estava nele dito "nunca" - estava dito "nunca" muito mais grave na testa sem rugas, naquela boca delicada.
     Mas ela no tinha medo. Era "no esquecer depois" que a assustava: no suportaria sobreviver. E j se apaziguava: que o rapaz passasse sem destruir-lhe a maneira de acender o cigarro, a voz alta, tudo isso era a sua paz. No queria que ele a fizesse perder o modo de tratar aquele que ficara longe e abandonado depois que o trem partira, nem perder a tranqilidade de abrir-lhe as cartas - tudo isso era uma construo. A paz de tomar o trem sabendo com calma que na outra cidade l estaria  sua espera o quarto de um hotel e uma varanda por onde olhasse antes de dormir; ela era a dona deste deserto onde  varanda fumava um cigarro. No tinha vergonha de no desejar vida nova - era muito perigoso uma vida nova, quem de vs suportaria. A senhora de preto apagou o cigarro.
     Durante esse intervalo, o ser perfeito tinha a perna adormecida e procurava discretamente acord-la. Bom que no precisasse explicar onde estivera esse tempo todo. Por que, onde estava mesmo? No havia embaixo da mesa espao para estirar a perna, e o torpor dava-lhe uma expresso obstinada ao rosto. Imaginava, como num sonho impossvel, levantar-se, desdobrar as asas e sacudir-se at recuperar a virilidade adormecida.
     Vendo aquela mulher que fumava e bebia, o rapaz teve no seu sonambulismo vontade de enfim aproxim-la de si, ou de toc-la com o joelho sob a mesa; era um desejo um pouco cruel e sonhador, do qual desistiria facilmente. Com uma mulher dessas parecia-lhe que era preciso sobretudo saber falar, dizer coisas interessantes. Nunca se saberia se ela esperava dele uma frase sobre a vida, sobre a passagem v das coisas deste mundo. Fora assim que, na sua tolice, ele imaginara Lucrcia Neves, e queria aplicar a experincia  nova companheira.
     Observou, sem acusar-se alis, no ser desses homens brilhantes, capazes de agradar a uma mulher dizendo-lhe o que ela deseja ouvir. Refletiu com morosidade que apesar de no viver pensando "em assuntos sexuais" devia ser grosseiro pois junto de uma mulher encerraria as discusses e a abraaria com alguma fora. Desagradavam-lhe as amizades femininas - a idia fazia-o sorrir intimidado como a de entrar num lavatrio de senhoras.
     E agora, porque a fitasse um instante e porque seus olhares se cruzassem - h anos os dois estavam esperando.
     No meio da fadiga de ambos houve um momento de impacincia, quase de clera, em que a sala ficou mais escura e mais intensa como se um trem fosse partir; irados, os dois se concentraram no paliteiro, na lmpada, em tudo o que era pequeno e perdido, to requintados que irritariam um espectador. Mesmo agora, sem perder o hbito de acalmar as pessoas, ele sorriu-lhe.
     O que a assustou: o rapaz tentava despedir-se? ainda no! pensou, e se falasse estaria rouca. A bebida e a chuva, e a sombria excitao, a maravilha  sua frente - e ela avara... Ele tambm bebia, resignado a perder mais alguns minutos junto daquela velha, cavalheiresco, horrivelmente gentil como os outros, sim, sim, vamos danar - ela se apressava, fumava a ponta do cigarro quase queimando as unhas...
     - ...como  seu nome?
     - Perseu, disse admirado, despertando.
     - Perseu! repetiu ela num espanto  beira de riso. Que tolo, com um nome desses. Adivinhou sorrindo que ele vinha de algum subrbio onde nomes importantes eram comuns. Perseu.
     E talvez pelo absurdo do nome, pela noo do tempo que se passava, pela beleza do nome - ficou muito cansada. A salinha vazia, um trem passava pela estao, as malas. Tudo se escureceu, a cena transportou-se para o sono - tudo se obscurecera ntimo, dentro da bebida. E na sombra o corao suave da mulher, sem dor, em amor fatigado. Sou tua, pensou mentindo, um pouco nauseada. A lmpada fraca se equilibrava na estao, estava muito bom viver mas ela precisava vomitar. Tudo pesava. Gotas de chuva escorriam. O rapaz inamovvel... parecia piscar-lhe um olho? ela piscou-lhe de volta - enfim no centro deste mundo pequeno, nesta desordem confortante de vida, com enjo, os olhos pretos cheios de ouro. Que maravilha.
     Durou um instante apenas, como uma vivacidade, e era ameaador; ntimo e ameaador. Eis, eis a "verdade". Era assim que na idade madura se impunha chamar a "maravilha".
     Levantou-se, desapareceu por uma porta. Perseu aterrorizado ouviu-a vomitar. Em breve voltava enxugando a boca, os olhos ainda maiores, e sorrindo encantada com modstia. Um trem se aproximou sacudindo a salinha.
     A mulher sorria toda dentro de si, com certo enfado.
     Acho que j posso larg-lo, pensou. De incio segurara-se com as unhas partidas em cada minuto. Mas agora estava distendida como depois de uma operao e queria ficar s com suas ataduras.
     Examinou ainda o rapaz que ela, com tanto esforo, conservara inteiro - olhou-o e balanou a cabea como uma velha. Gostaria de juntar duas cadeiras, enrolar-se e dormir. Sentia-se ainda grata a alguma coisa, e a voz, quando tossiu, saiu grossa. To reconhecida ao moo que lhe permitira, talvez um pouco tarde demais - entre um trem e um hotel, sem mesmo abandonar a mala - que lhe permitira admir-lo apenas; ela que sempre exigia que as pessoas tivessem sofrido, seno por onde comear a ro-las? e sobretudo por onde perdo-las.
     Nada querendo agora do rapaz, gostando dele com benevolncia e distrao; sem pretender roubar-lhe nada; sonolenta, lutando contra lgrimas que precederam um bocejo, pensando com agrado mecnico em aconchegar "aquele outro" que estava na cidade distante aguardando nervoso um telegrama, aquele de quem ia ficar separada uma semana - o que era tanto, o que era to pouco.
     Perseu, disse urbanamente, aproveitando com inteligncia humorstica o que havia de ridculo e encantador no nome, Perseu, agora preciso ir e voc tambm.
     O rapaz acordou, sorriu com sono - um instante mais e a luz escura da sala lhes permitiria andar em saltos lentos; da a um momento adormeceriam de bruos sobre a mesa, ao som da chuva. Despertando, ele comeou a procurar no bolso. Ela retirou sem pressa o dinheiro da bolsa e colocou-o sobre a toalha. Perseu tentou protestar mas, como ela nada dissesse, conformou-se. Ambos pareciam achar natural que a mulher pagasse. Afinal fora ela quem comprara.  o mnimo que me pode acontecer, pensou sonolenta, sem ironia.
     Perseu ps a mala num txi, ela entrou. Sentada, j confortvel, hesitou um pouco, e terminou por oferecer-lhe conduo; ele recusou cerimonioso, ela suspirou ligeiramente de alvio. Quando o rapaz bateu a portinhola, porm, a mulher sentiu algum remorso vendo-o de p sob a luz do poste, na chuva: alto com o impermevel, simptico. Muito simptico, pensou. To fcil encontrar nele o ponto de compreenso, com esses cabelos curtos... Algum remorso e uma camaradagem mais franca - e tambm surpresa: porque sob o poste, amvel, magro, estava o mesmo ser perfeito que ela poupara, a maravilha. Certo dever tambm, sobretudo hbito: no custava compreend-lo ligeiramente, dar-lhe um pouco, no demais. Aproximou a cabea da vidraa, sorriu com domnio, num ar meio profissional que lhe tirava momentaneamente a idade do rosto:
     - Voc  estudante...
     - No, mdico, disse abaixando-se  altura da janela e olhando-a em suspeita.
     - Foi o que me pareceu... - le tambm sorriu, a ateno despertada. Parecia de repente amiga, e isso tirava-lhe o perigo como mulher. Ele sorriu mais e sem perceber segurava a maaneta da portinhola adiando a partida do carro. A inimiga do bar desaparecera.
     - Voc est trabalhando, Perseu?
     - Estou, vou entrar no hospital daqui.
     - Ah, ento voc  mdico de hospital. - Os dois se olharam. Ela numa situao social, ele  espreita. - Olhe, Perseu, tenho a certeza de que voc ser um bom mdico. - Ele a encarou desconfiado. - Um desses que a gente chama mesmo quando tem sade, s para ter certeza de que est bem viva, sorriu espirituosa.
     Sim, era o que pretendia, respondeu mais inclinado, sorrindo.
     Quem sabe se ela... mas no. Sim, quem sabe?... afinal que poderia ela? Tolice. Mas no era mais uma desconhecida. E aquele mesmo ar que se poderia encontrar nesse amigo esperado sem impacincia... A senhora de preto dava o endereo ao chofer, e dizia do fundo do carro, onde Perseu no via mais seu rosto inteligente e perturbador, e j com a mesma voz do bar:
     - Obrigada por tudo.
     O carro seguiu. Ele ficou ainda em p na calada.
     Como a chuva recrudescia ajeitou-se melhor na capa e finalmente atravessou as lajes desertas. Seria um bom mdico, ela o dissera com tal segurana. " porque h coisas que se vem logo", pensou alegre.
     Teriam sido as palavras da mulher o que lhe dava uma esperana um pouco irrespirvel? e tambm desgosto. Bem sentia que em certas coisas, mesmo boas, no se devia tocar jamais, nem com o pensamento. Nunca falava da certeza j um pouco ansiada em tornar-se um bom mdico. Dando-lhe a esperana de ser um bom mdico, a mulher no lhe permitira nada mais... No entanto se ele mesmo falasse, diria que era este o seu desejo. Mas simplesmente no falava, eis a diferena. Um pouco de amargura. Cansado; o ser perfeito por um instante atingido.
     Sou de opinio de que se fala demais, pensou obstinado.
     Mas sua fora era maior do que a de uma palavra dita por uma mulher perturbada. Em breve, andando nas ruas molhadas, recuperava o vago direito nascido no trem e que nebuloso mesmo bastava; readquiria a paz de um homem anterior aos acidentes, no dividia sua esperana, e no falava sobretudo; fala-se demais. Levantava a gola procurando o nmero das casas na iluminao fraca.
     Nem a inocncia de Lucrcia Neves, nem a danao da mulher de preto, nenhum desses vidos seres femininos que se esbatiam em torno da realidade conseguiria toc-lo porque ele era a realidade: um homem moo calado, metido num impermevel. Assim o viram de uma janela, a mo curiosa afastando a cortina; e ele no passava disso. Evitando as poas dgua. Alm de tudo era livre: no pedia provas.
     Andava olhando os edifcios sob a chuva, de novo impessoal e onisciente, cego na cidade cega; mas um bicho conhece a sua floresta; e mesmo que se perca - perder-se tambm  caminho.
     
CAPTULO DCIMO SEGUNDO
FIM DA CONSTRUO: O VIADUTO
     
     Nos LTIMOS DIAS de vida Mateus Correia parecera acanhado diante da gravidade do que lhe sucedia e mesmo vexado como se no merecesse tanto. Quanto mais se aproximava certa hora, mais sorria em modstia para a esposa, numa infelicidade que at ento no tivera certamente oportunidade de manifestar-se. Embora o minuto antes de morrer pudesse, pela urgncia, ter durado tanto que lhe houvesse dado tempo de ter sido absolutamente feliz, como um cristal.
     A cara parecia orgulhosa. Que faria alma to inexperiente sem a soluo que fora o corpo. Lucrcia chorava espantada.
     E agora sozinha, ficava de noite escutando o silncio da rua do Mercado.
     Alguma coisa continuava a trabalhar sem barulho, ela na proa do navio - embaixo as mquinas funcionando quase sem rudo. Por um momento revia Mateus. E em bofetada, talvez ele nem tivesse tido quadris largos! fora apenas plido, de bigodes.
     Morrer do corao viera explicar aquela grossa calma e o escolher tantos pratos: bem, vou ver uma estrelinha.
     Mateus fora ver uma estrelinha - o que lhe fazia recomear o choro.
     Por que no o vira do modo mais belo de se ver? Fora bom como todo homem que terminaria morrendo, e ela o amara. Apenas no compreendera a tempo que mandar limpar os canos da pia ou almoar com todo o peso do corpo - era sua forma de alegria. Que pretendera dele? acusava-se a viva: que aplicasse sua alegria sobre flores, como na Associao? No, quando ele a tinha abraado e ela fora boa para ele, Mateus dizia: se a pia quebrar de novo quem paga desta vez  o bombeiro. Mesmo a sua morte, ela tentara destruir. Procurara consol-lo, nico modo de reduzir o acontecimento ao reconhecvel : voc ao menos no morre em casa estranha. Mas isto o homem no permitira; sem falar olhara-a sorrindo com vergonha: tola, como se morrer no fosse sempre em casa estranha. Oh, pudesse tornar a v-lo e lhe daria o seu melhor olhar, nem mesmo isso: dar-lhe-ia o que o marido esperara dela, sua vida humilde e no os desejos. A viva soluava arrependida.
     Esquecendo-o cada vez mais.
     A bem dizer s lembrava-se de Mateus objetivamente quando o revia nos acessos de tosse, quase silenciosos de tanta violncia sem escape: ele tossia abalando a casa em silncio. Ou quando o marido lhe aparecia no sonho. Sorrindo, bom como fora a raiz de sua vida: oh, ela no compreendera que cada pessoa era o mximo e que no seria necessrio procurar outra: assim tentava pensar para Mateus ouvir, e no sonho ele a ouvia. Como sempre, sem entender muito bem.
     Ento ela escreveu para Ana: "Minha cara me, Mateus faleceu, s outra mulher pode compreender o desespero de uma viva! No entanto acho que"...
     Escrevendo apoiava-se cada vez mais nas ligaes, em diversos "porm" e "a", dando-se tempo. Porque bastava ser obrigada a exprimir-se, e a obstinada emudecia, e quase deveria criar um sentimento a dizer. Levantou a cabea mordendo a ponta do lpis: o sol desaparecia vermelho e quente, cada objeto se mantinha dentro de um fio de ouro. E na porta a chave to iluminada quanto o horizonte - Lucrcia afastava os cabelos da testa fadigada. Sobre o toucador os perfumes tremiam nos frascos: "s outra mulher pode compreender", finalizou.
     Em seguida a casa clareou-se, abriram-se as janelas, tudo, lavado pelas lgrimas, corria bem, a sade agora estvel.
     Nas ruas, ento, as pessoas se movimentavam em luz espargida e sem esforo; o que fora mortal havia sido atingido, e o resto era eterno, sem perigo. Novamente a vida de Lucrcia Neves se abria com certa majestade, as portas batendo, essa claridade de ar que no tem nome, a casa de novo cheia de segurana material: assim eram os seus claros dias de viva, o bibel tocando flauta.
     Quando saa espantava-se com o salto de progresso de S. Geraldo, espavoria-se no trfego como galinha fugida de quintal. As ruas j no cheiravam a estbulo mas a arma de fogo deflagrada - ao e plvora.
     E como estouravam os pneumticos! Tinham-se aberto inmeros escritrios com mquinas de escrever, instalaes de arquivos de ferro e canetas automticas. Cpias e cpias eram batidas em mimegrafos e assinadas. Os arquivos rebentavam, plenos do registro imediato do que se passava. Os homens da Limpeza Municipal varriam superficialmente as caladas, escondendo os restos nos esgotos. Que  tarde faiscavam aos derradeiros raios de sol em poeira e brilho, como tesouros.
     Tambm a viva se transformara. Atualmente seu rosto era fraco e de expresses medidas. Se lutara contra a tendncia de manter os cantos da boca abaixados, agora abandonara-se, e esse gesto lhe dera um modo ainda mais impessoal de encarar as coisas. Quando foi ao dentista e ps dois dentes de ouro - teve afinal o primeiro ar de estrangeira.
     Percebeu tambm que abrindo muito os olhos pareceria mais moa. Assim abria os olhos em espanto contnuo, o que lhe acentuou o ar de forasteira em visita. Se no ganhava juventude, alcanava alguma beleza de forma, de modo que se pudessem olh-la como a um objeto, achariam-na bonita. Mas se a vissem como a algum capaz de falar... - ningum tinha tempo de v-la de um ou de outro modo.
     O que no a interrompia: tomava ch com olhos espantados sobre a xcara, prestes a ser fotografada. De sbito - batida a chapa - movendo-se, tomando com as pontas dos dedos um biscoito: que tarde perfeita, pensou Lucrcia Neves Correia olhando da nova confeitaria da rua do Mercado, agora Avenida Silva Torres.
     Em seguida dirigia-se ao jardim com a leitura debaixo do brao: o folheto "Cncer Espiritual". Mal descia os degraus do parque, e era turbilhonada pelos olhos - quanta erva arrancada! quanta erva nascendo, quanta ordem, crianas novas cujos pais no conhecia - e que sol, que dificuldade de subir, to fcil achar coisas perdidas no cho, nos despojos do antigo S. Geraldo - achou um santinho de papel com orao - to fcil achar o que os outros perderam mas nunca, nunca achando o que se perdeu: foi o que pensou e abriu a brochura no primeiro captulo: "Praguejar Tambm  Cncer". Procurava dignificar-se com pensamentos elevados. E, se no os encontrava, ao menos balanava a cabea, indignada contra a baixeza de nossa poca.
     Nesse dia viu dois meninos brigando. Os novos lutadores socavam-se no rosto, brancos de raiva e de silncio. De to intensa, a cena perdera a sonoridade. S um passarinho cantava na rvore acima. A viva empalidecia de horror. Um senhor apartou-os e disse-lhes que se continuassem a brigar lhes puxaria as orelhas. O que, mesmo a Lucrcia, soou estranho: em S. Geraldo no se puxava mais orelha de criana. Os meninos interromperam-se, olharam-no em silncio. Um era vesgo. O passarinho cantava. Um dos garotos afinal cuspiu no cho em desafio e fugiu vaiando... o outro correu, olhando para trs e rindo. Eram inimigos mas se uniam contra o grande adversrio comum, pois ento, aquele homem de outro tempo que embaraado olhava para Lucrcia.
     Esta, ainda um pouco desfeita, sorriu-lhe. Ele disse: com licena, minha senhora, e sentou-se respeitoso no seu banco. Contentes de estar juntos, acomodaram-se melhor e conversaram sobre a juventude moderna. Ele agradvelmente surpreendido em descobri-la to sensata apesar de moa, sem saber que fora S. Geraldo que a deixara para trs. E ela ao seu lado podendo olhar com outra segurana o novo monumento  Unio dos Correios e Telgrafos.
     Voltando para casa mais animada, sentando-se para tricotar no terrao dos fundos; olhando os telhados escuros e as torres das fbricas, extremidades secas da mundo. No eram maduras como a sala de visitas onde se acumulavam pequenos mveis, jarros, sombras, bibels; apenas renovados por outro dia que traria eventualmente nova posio das coisas. Olhando as torres das usinas com olhos serenos, satisfeita. Por ter sido apesar de tudo previdente, afastando doenas, evitando o perigo maior das coisas, guardando com cuidado o que lhe pertencia - esta a nica explicao que encontrara para justificar sua paixo pela casa e pelos bibels: "pois ento! guardara com cuidado o que era seu"! Se ver o modo como se poupara agitava-a em certa vergonha, ocorria-lhe a resposta: sim, mas ali estava ela. Finalmente sentada. Interrompeu o tric, aspirou o ar com doce ardor.
     Tambm o sobrado conseguira chegar at a atualidade. Velho, raso, cheio do coro amplo e virginal dessa tarde. A mulher espiava com prazer uma chamin que o ar rodeava de claridade insistente. Se perdera o motivo dos hbitos, ainda os conservava e, se esquecera o verdadeiro dirigir-se  sala, mantinha o modo de olh-la - o que enchia seus dias de vigilncias sem explicaes, de pequenos comeos interrompidos entre pigarros e pressas inteis. Encontrar-se com o seu ''compromisso" no era mais cri-lo. Era inquirir se na vida vivida alguma coisa se tinha cumprido.
     E tinha, sim. Era um pensamento muito difcil o de ver que tinha, sim. Oh, nada de importante, apenas insubstituvel. Cumprira-se muito mais mudo: de objeto a objeto, certa ascenso diria sempre independente do pensamento, o tempo se adiantando. Em que momento e junto de que objeto ela dissera, por exemplo: "Sou Lucrcia. Minha alma  imortal" - quando?
     Ora, nunca. "Mas suponhamos que o tivesse dito." Foi assim que a mulher se sentiu obrigada a raciocinar. Porque da vida real, vivida dia a dia, ficara-lhe - se no quisesse mentir - apenas a possibilidade de dizer, numa conversa de vizinhanas, em mistura de longa experincia e de descoberta de ltima hora: sim, sim, a alma tambm  importante, no acha?
     Contar sua "histria" era ainda mais difcil do que viv-la. Mesmo porque "viver agora" era somente um carro andando no calor, alguma coisa avanando dia a dia como o que fica maduro, hoje era o navio em alto-mar.
     Ela mesma sentindo-se como os outros a chamavam pelo nome, e viam-na viva, e como os peixeiros vendiam-lhe em conivncia peixe mais barato.
     E alguma altivez. De tanta pacincia, chegara afinal a um certo ponto, um co latindo longe, o morro do pasto agora acessvel graas ao viaduto, o olhar continuando a ser a sua reflexo mxima, e as coisas proliferadas: tesouras na mesa, asas, carros sacudindo constantemente o primeiro andar que um dia seria demolido, a sombra dos aeroplanos sobre a cidade. De noite o Cruzeiro acima dos telhados e a mulher ressonando tranqila, nutica.
     At este momento em que tricotava no terrao.
     A poeira luminosa rodeando-a, mquina feliz que funcionasse em rpido silncio. Do movimento contnuo das mos nascendo um esprito e uma facilidade - e, sem surpresa, a clarividncia dentro da clarividncia como o escuro dentro do escuro: pois esta era a luz da tarde.
     Quanto a ela mesma - ciente, apenas ciente. De que aquilo tudo era intransponvel mesmo pela imaginao - essa dura verdade do sol e do vento, e de um homem andando, e das coisas postas. E uma pessoa nem sabia limitar-se. Pois ela nem podia deixar de orgulhar-se ao ver o tempo passar - mas j estamos no ms de fevereiro? - como se este fosse desenvolvimento seu. E era. E Perseu a realizara muito bem. E tantas vezes ela "dissera" por que - l estava uma janela aberta. Uma pessoa era olmpica.
     Uma pessoa era olmpica e vazia. Sentada de pernas abertas, as mos se cruzando sobre a barriga.
     Oh, ela vivera de uma histria muito maior do que a sua. Como se limitar  prpria histria se l estava a torre da usina? Essa verdade feita de poder olhar. Nunca tinha pensado mesmo; pensar seria apenas inventar.
     O milho crescendo no campo fora o seu maior pensamento. E o cavalo era a beleza do homem. Assim eram as coisas. Sua paz fora a beleza de um cavalo. Seria esta a histria de uma vida vazia?
     De sbito, no meio do tric, apenas por glria, a mulher se erguendo e batendo asas sombrias sobre a cidade realizada - sombrias como os bichos eram sombrios, morosos e livres; sombrios sem que a dor fosse sofrimento; o que houvera de impessoal na sua vida a fazia voar.
     A tarde se obscurecera e a viva aproveitou a penumbra para aconchegar-se; no silncio abriram gua abundante, ento ela debruou-se para divisar o balde que a gua enchia num som cada vez mais raso e cantante, o corao curioso como o de uma velha. Sensvel, sensvel. Tudo o que possura de mais precioso estava fora dela: a gua no balde? derramaram-na toda no terreno seco da loja. Da terra embebida erguia-se o cheiro sufocante de poeira - a viva Correia tossiu de mentira, s para tambm se manifestar.
     Chegara sem dvida alguma a certo ponto de glria.
     Tambm So Geraldo chegara a certo ponto, prestes a mudar de nome, diziam os jornais. S isso se podia alis dizer, s isso se podia ver, e ela via.
     O rosto tomara uma dignidade quase fsica, finalmente possvel de se transmitir a um filho - s que este passaria a vida a procurar justificar a herana, levando cegamente adiante a obscura raa de construtores. Que possua como tradio a coragem.
     Foi poucos dias depois que recebeu a carta da me chamando-a para a fazenda.
     "Tem aqui um homem muito bom de corao, minha filha, que viu teu retrato e gostou e pergunta sempre por ti e por tua vida, minha filhinha. Digo-lhe que levas a vida de uma santa."
     No entendo! interrompeu-se Lucrcia sobressaltada - que desejava ainda sua fotografia?
     Passando dias com a carta no seio.
     E afinal resolvendo vender o sobrado e ir reunir-se ao retrato. Suspirando de alegria. A viva, a viva, dizia, rindo, a implicar consigo mesma.
      o segundo marido, espantava-se como se no tivesse direito a tanta sorte. Direito mesmo tivera apenas a Doutor Lucas, refletia a mulher sem se explicar.
     Ah, a viva, interrompia-se ela emocionada relendo mil vezes a carta. "Tem aqui um homem"..., cantava de cor. Olhava o retrato pendurado na parede do corredor para adivinhar o que a esperava,  viva-alegre. Terminava rindo de novo. Oh, era cada vez mais tarde.
     Cada vez era mais tarde. Sria, ardente, correu para a sala, agarrou o frio bibel e encostou-o  face, de olhos cerrados. Ento abandonaria tudo isso... ? No grande rosto de cavalo a lgrima escorria. E o bibel construdo pelos olhos...
     Mas ela o abandonaria e abandonaria a cidade mercantil que o desmesurado orgulho de seu destino erguera, com um aterro e um viaduto, at a escarpa dos cavalos sem nome.
     Fora levantado o stio de S. Geraldo.
     Da em diante ele teria uma histria que no interessaria mais a ningum, largado s suas srias subdivises, s penas de multa, s suas pedras e bancos de jardim, avarento de quem em punio ningum mais cobiasse os tesouros, Seu sistema de defesa, agora intil, mantinha-se de p ao sol, em monumento histrico. Os habitantes o haviam desertado ou dele desertado seus espritos. Embora tambm ficassem entregues  liberdade e  solido.
     Se haviam abaixado a ponte-levadia, no entanto pelo Viaduto Almeida Bastos ningum mais se lembrava de atingir a antiga fortaleza, o morro.
     De onde os ltimos cavalos j haviam emigrado, entregando a metrpole  glria de seu mecanismo.
     Quem sabe - como diria Lucrcia Neves - um dia S. Geraldo teria linhas de trem subterrneas. Parecia ser este o nico sonho da cidade abandonada.
     A viva mal tinha tempo de arrumar a trouxa e escapar.
     
F I M
     
